Escola que homenageou Lula recebeu verba pública? Entenda

Escola que homenageou o presidente não captou recursos pela Rouanet, mas recebeu R$ 1 milhão via acordo da Embratur com a Liesa; entenda repasse

Marina Verenicz

Brazil's President Luiz Inacio Lula da Silva interacts with revellers from the Academicos de Niteroi samba school as they perform during the Carnival in Rio de Janeiro, Brazil, February 15, 2026. REUTERS/Tita Barros
Brazil's President Luiz Inacio Lula da Silva interacts with revellers from the Academicos de Niteroi samba school as they perform during the Carnival in Rio de Janeiro, Brazil, February 15, 2026. REUTERS/Tita Barros

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O desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reacendeu o debate sobre financiamento público no Carnaval do Rio. A escola foi a primeira a se apresentar na Sapucaí no domingo (16) e virou alvo de questionamentos sobre possível uso de recursos federais e propaganda eleitoral antecipada.

No caso da Lei Rouanet, a agremiação obteve autorização para captar até R$ 5,1 milhões por meio do projeto “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, aprovado em 6 de janeiro. A autorização permitia buscar patrocínios com incentivo fiscal, mas nenhum valor foi efetivamente levantado. Segundo a própria escola, o prazo até o Carnaval inviabilizou a captação.

Ao todo, oito das 12 escolas do Grupo Especial tiveram projetos aprovados na plataforma que realiza a captação de dinheiro por meio da Lei Rouanet. Porém, parte delas também não conseguiu captar recursos.

A Estação Primeira de Mangueira, por exemplo, recebeu aval para buscar R$ 4,9 milhões, mas não registrou captação. O mesmo ocorreu com Beija-Flor de Nilópolis (R$ 5,9 milhões aprovados), Acadêmicos do Salgueiro (R$ 5,9 milhões), Unidos do Viradouro (R$ 4,7 milhões), Unidos da Tijuca (R$ 4,7 milhões) e Mocidade Independente de Padre Miguel (R$ 461 mil).

Já a Unidos da Vila Isabel levantou R$ 188 mil de um total autorizado de R$ 4,9 milhões, enquanto a Acadêmicos do Grande Rio captou R$ 10,2 mil dos R$ 5,9 milhões aprovados.

Independentemente da Rouanet, todas as 12 escolas do Grupo Especial receberam R$ 1 milhão cada por meio de um acordo firmado em 19 de janeiro de 2026 entre a Embratur e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa). O investimento total foi de R$ 12 milhões. O governo federal afirmou que o aporte segue a política de apoio ao Carnaval carioca realizado anualmente.

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Questionamentos

O repasse à Acadêmicos de Niterói foi alvo de questionamentos no Tribunal de Contas da União (TCU). Técnicos chegaram a recomendar a suspensão do pagamento, mas o ministro relator Aroldo Cedraz rejeitou a medida cautelar ao entender que o critério foi geral e não houve favorecimento específico.

Além do debate sobre financiamento, o enredo motivou ao menos dez iniciativas judiciais e administrativas. Representações foram protocoladas no Ministério Público, no TCU, na Justiça comum e na Justiça Eleitoral.

Os autores alegaram que o desfile poderia configurar propaganda antecipada, proibida pela legislação antes de 16 de agosto, especialmente por menções ao número do partido e ao uso de elementos associados a campanhas.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) analisou pedidos apresentados pelos partidos Novo e Missão e, por unanimidade, negou liminar para impedir o desfile. A relatora, ministra Stela Aranha, argumentou que uma intervenção às vésperas do Carnaval poderia caracterizar censura prévia.

O julgamento não encerrou o processo. Ministros alertaram que eventuais condutas na avenida podem ser avaliadas posteriormente sob a ótica da lei eleitoral.

A presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, afirmou que, caso haja ilícito, o tribunal poderá agir. Após a decisão, o PT orientou filiados e apoiadores a evitar manifestações que possam ser interpretadas como campanha.

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O governo federal sustenta que não houve propaganda eleitoral antecipada e que os repasses da Embratur seguem padrão adotado em anos anteriores, com apoio também de governos estadual e municipal ao Carnaval.

Nesta segunda, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro disse que entraria com uma nova representação junto ao TSE contra Lula por conta do desfile, e o Partido Novo afirmou que pediria a cassação e a inelegibilidade do presidente.