Análise

Eduardo Bolsonaro reforça aposta na radicalização em fala sobre AI-5

Deputado defendeu medida como possível resposta "se a esquerda radicalizar"; horas depois, voltou atrás e pediu desculpas

(Reprodução: YouTube)

SÃO PAULO – As criticadas falas do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, sugerindo um “novo AI-5” em caso de “radicalização da esquerda”, marcam um novo episódio na aposta na radicalização do grupo mais fiel ao mandatário e ganho de influência desta ala sobre o governo.

Em uma entrevista em vídeo à jornalista Leda Nagle, divulgada nesta quinta-feira (31) no YouTube, Eduardo Bolsonaro deu declarações entendidas como autoritárias e uma afronta à democracia por diversas lideranças políticas e entidades da sociedade civil organizada.

“Vai chegar um momento em que a situação vai ser igual a do final dos anos 60 no Brasil, quando sequestravam aeronaves, quando executavam-se e sequestravam-se grandes autoridades, cônsules, embaixadores, execução de policiais, de militares. Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente via precisar ter uma resposta. E a resposta, ela pode ser via um novo AI-5, via uma legislação aprovada através de um plebiscito, como aconteceu na Itália. Alguma resposta vai ter que ser dada”, disse o parlamentar.

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O Ato Institucional número 5 (AI-5) a que se refere o congressista foi editado em dezembro de 1968 durante o governo do general Costa e Silva e é o momento mais violento e crítico da ditadura militar.

A iniciativa tomada na época deu mais poderes ao presidente, autorizava o fechamento do Congresso Nacional, permitia a cassação de mandatos parlamentares e um recrudescimento da repressão, com prisões tortura e censura a distintas formas de expressão.

Algumas horas após a propagação das falas, o presidente Jair Bolsonaro desautorizou o filho. “Não apoio. Quem quer que seja que fale em AI-5 está sonhando. Está sonhando, está sonhando. Não quero nem ver notícia nesse sentido aí”, disse.

Depois do pai, Eduardo voltou atrás e pediu desculpas. Em entrevista ao programa “Brasil Urgente”, o filho do presidente disse que houve uma “interpretação deturpada” do que foi dito na entrevista.

“Eu peço desculpas a quem porventura tenha entendido que eu estou estudando o retorno do AI-5 ou achando que o governo, de alguma maneira, estaria estudando qualquer medida nesse sentido. Essa possibilidade não existe”, afirmou.

O parlamentar afirmou, ainda, que “não existe qualquer possibilidade de retorno do AI-5”. “Esse não é o ponto que nós vivemos hoje, no contexto atual do Brasil. A gente vive um regime democrático, nós seguimos a Constituição. Inclusive esse é o cenário que me fez ser o deputado mais votado da história”, disse.

“Então não tem por que de eu descambar para o autoritarismo, eu tenho a meu favor a democracia”, completou.

Radicalização

O discurso de Eduardo Bolsonaro vem na esteira de áudios vazados do ex-policial militar Fabrício Queiroz; da publicação do chamado “vídeo das hienas”; e das reações de Bolsonaro a uma reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, que tratava de depoimento de um porteiro que citava o nome do presidente no inquérito que investiga a morte da vereadora Marielle Franco.

Some-se a isso a evolução do cerco ao vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente, nas apurações sobre propagação de informações falsas e liderança de uma rede de ataques e difamações de adversários em ambiente virtual.

No plano legislativo, Bolsonaro enfrenta dificuldades em organizar uma agenda após a aprovação da reforma previdenciária e deposita energia em uma briga com o deputado Luciano Bivar (PE) pelo comando do PSL às vésperas das eleições municipais.

Do ponto de vista da popularidade, o governo é avaliado como ótimo ou bom por 31% dos eleitores, de acordo com pesquisa CNI-Ibope de setembro. Em levantamento Datafolha realizado em agosto, o índice estava em 29%. Já na XP/Ipespe de outubro, eram 33%. É o menor patamar para um presidente com esta longevidade desde a redemocratização, mas que tem se mantido estável nos últimos meses.

Ainda no plano doméstico, a tropa bolsonarista se prepara para um novo desafio, representada pela possibilidade de soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O evento é tratado no petismo como uma oportunidade para a reorganização da oposição. Por outro lado, também pode oferecer munição para manter a coesão da base do presidente em momento adverso.

Já no front internacional, a onda de instabilidade que varre países na América do Sul acende um sinal de alerta no Brasil. O caso que tem atraído maior atenção hoje é o chileno, onde manifestações populares contra o governo de centro-direita de Sebastián Piñera já duram duas semanas.

A situação chilena foi assunto de uma postagem de Eduardo Bolsonaro no Twitter. O deputado volta a atacar a TV Globo e diz que “a estratégia” que afirma ter sido adotada por movimentos de esquerda nos anos 1960 e 70 “se repete no Chile e a esquerda brasileira está louca para trazer isso para o Brasil”.

Na semana passada, o próprio presidente Jair Bolsonaro afirmou que as Forças Armadas brasileiras podem ser usadas nas ruas, caso protestos como os que ocorrem no Chile inspirem manifestações no Brasil.

Durante sua visita ao Japão, ele afirmou que consultou o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e garantiu que militares estão preparados para intervir “pela manutenção da lei e da ordem”.

Assim como o filho, o presidente endossa a narrativa de que há movimentos coordenados na região, com o intuito de recolocar a esquerda no poder.

“Não podemos ser surpreendidos, temos que ter a capacidade de nos antecipar a problemas. A intenção deles é atacar os EUA e se auto-ajudarem para que seus partidos à esquerda tenham ascensão. Dinheiro nosso, brasileiro, do BNDES, irrigou essa forma de fazer política”, disse.

Militares na defensiva

A radicalização proposta pelo entorno de Bolsonaro preocupa a cúpula das Forças Armadas. Conforme noticiou o jornal Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (31), há um clima de alerta nas Três Forças com os episódios recentes envolvendo o presidente.

Entre os militares, há uma aflição com a narrativa de que os protestos no Chile e Equador, a volta do peronismo na Argentina e até o derramamento de óleo no Nordeste fazem parte de uma trama da esquerda.

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O discurso dos olavistas tem influenciado o presidente e garantido ao grupo posição privilegiada na administração, movimento simultâneo a uma perda do papel moderador pelos militares, assumido nos primeiros meses de gestão.

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