Debate foi vingança dos ‘não-polarizados’ e vitrine para ‘franco-atiradores’ a 1 mês da eleição

Analistas políticos veem Bolsonaro e Lula como principais alvos e destacam desempenho de candidatas menos conhecidas

Marcos Mortari

(Foto: Reprodução)

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O primeiro debate entre os principais candidatos à Presidência da República, realizado na noite deste domingo (28) por Folha de S. Paulo, UOL, Bandeirantes e Cultura, trouxe importantes sinalizações sobre as estratégias das campanhas a pouco mais de um mês do primeiro turno.

Analistas políticos consultados pelo InfoMoney avaliam que o programa também ofereceu uma oportunidade para nomes alternativos à polarização mantida entre o presidente Jair Bolsonaro(PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva(PT) atingirem a dupla e se apresentarem como alternativa no pleito.

Bolsonaro buscou dar força à pauta do combate à corrupção − destaque na campanha de 2018, na esteira da Operação Lava Jato − e de agendas relacionadas a costumes e mais identificadas com eleitores conservadores.

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Já Lula teve como estratégia lançar luz ao legado de sua gestão na economia ao falar em redução da inflação e dos juros, na oferta de emprego e em crescimento econômico, além de políticas públicas voltadas a eleitores de baixa renda.

Os dois, porém, foram constantemente atingidos por seus adversários. O atual presidente voltou a ter problemas com pautas relacionadas ao eleitorado feminino, enquanto o petista foi confrontado diversas vezes com casos de corrupção em seu governo.

“O debate foi uma vingança dos não-polarizados, uma alternativa à polarização. É o momento de vingança contra quem tem alto nível de conhecimento pelo eleitor e elevada intenção de voto”, observa o cientista político Rafael Cortez, sócio da Tendências Consultoria Integrada.

São situações que representam oportunidades únicas para os chamados “franco-atiradores”, menos expostos a contra-ataques e, por serem menos conhecidos pelo eleitorado em geral, têm muito mais a ganhar com as interações com adversários.

“Lula e Bolsonaro quase sempre eram citados nas respostas alheias. Eles pagam um preço pelo protagonismo na disputa presidencial”, diz.

Visão similar tem Ricardo Ribeiro, analista político da Ponteio Consultoria Política. “O debate foi melhor para os candidatos menos conhecidos. Foi melhor para quem não é vidraça”, afirma.

“Pior para Bolsonaro e Lula. Em termos de desempenho, Lula não teve um bom dia, estava um pouco apagado e confuso. E Bolsonaro se perdeu quando criou celeuma com as mulheres. Por conta própria, ele entrou em um terreno que lhe é muito desfavorável”, pontua.

“Como um dos objetivos da campanha [de Bolsonaro] é ampliar voto entre as mulheres, o debate acabou sendo ruim para ele. No final, ele voltou a falar para o seu público”, complementa.

Segundo o último levantamento feito pelo instituto Datafolha (BR-09404/2022), entre 16 e 18 de agosto, Bolsonaro conta com 35% das intenções de voto entre eleitores do sexo masculino. Já entre o eleitorado feminino, o apoio cai para 29%.

Já Lula, apesar de esperado que casos de corrupção associado a sua gestão fossem lembrados, não teria conseguido emplacar uma resposta tão organizada quanto a utilizada em sabatina concedida ao Jornal Nacional na última quinta-feira (25), o que prejudicou seu desempenho.

“A corrupção não tende a ser protagonista [nessas eleições], mas segue um limitador para o voto a mais que Lula busca”, observa Cortez.

O especialista vê outros dois obstáculos para o petista atrair eleitores não mobilizados por sua campanha até o momento: 1) a percepção sobre o governo de Dilma Rousseff (PT) e; 2) as relações do partido com governos autoritários de esquerda pelo mundo.

Para o analista político Mario Braga, da consultoria internacional Control Risks, o presidente Jair Bolsonaro foi o principal alvo do debate e ficou em posição de maior evidência depois do ataque à jornalista Vera Magalhães.

“Como era de se esperar, o presidente Jair Bolsonaro (PL), como incumbente, ficou na posição de vidraça. Mesmo em perguntas que não eram direcionadas à ele, houve críticas às suas posições e a políticas do governo”, disse.

O especialista destacou o desempenho das candidatas Simone Tebet(MDB) e Soraya Thronicke (União Brasil), que ganharam evidência no enfrentamento aos protagonistas da polarização e sobretudo com a evidência dada à pauta feminina no debate.

“Destaque pra candidata Simone Tebet, que atacou Bolsonaro em temas como conflito institucional, pandemia, corrupção no MEC e incentivos a fake news”, afirmou.

“Soraya Thronicke também fez alusão ao comportamento do presidente como de ‘tchucuca’ com outros homens e de ‘tigrão’ com mulheres, em referência ao ataque contra a jornalista Vera Magalhães”, complementou.

Para ele, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apesar de confrontado com a pauta da corrupção, teve um desgaste menor ao longo das discussões.

“No segundo bloco, Bolsonaro subiu o tom nos comentários contrários a Lula e ao PT e, posteriormente, atacou a jornalista Vera Magalhães. São movimentos que podem cair bem em sua base de apoio já existente e reforçar a apresentação como de outsider ou de quem ‘fala o que pensa’. No entanto, essas posturas não devem agregar votos”, concluiu.

Tendências

Na avaliação de Rafael Cortez, o debate dificilmente modificará o que ele entende hoje como cenário-base para as eleições presidenciais: uma disputa de segundo turno entre Lula e Bolsonaro.

Mas ainda é necessário aguardar os resultados de pesquisas de intenção de voto para monitorar a reação do eleitor à primeira interação entre os principais candidatos.

Ele entende que os ataques concentrados nos protagonistas da polarização pode, por outro lado, dificultar ainda mais uma eventual vitória de um dos candidatos em primeiro turno. O chamado “voto útil” pode ser prejudicado com a exposição maior a argumentos contra os nomes que lideram a disputa.

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Marcos Mortari

Responsável pela cobertura de política do InfoMoney, coordena o levantamento Barômetro do Poder, apresenta o programa Conexão Brasília e o podcast Frequência Política.