Política

Bolsonaro vs. PSL: “guerra” por assinaturas leva relação ao pior momento

Ala bolsonarista se mobiliza para destituir o líder da bancada na Câmara. "Bivaristas" acusam presidente de interferência sobre o parlamento

SÃO PAULO – A disputa entre o presidente Jair Bolsonaro e a cúpula do PSL chegou à liderança da bancada na Câmara dos Deputados. Ontem (16), um grupo de parlamentares aliados ao mandatário assinou um requerimento para colocar Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, no cargo hoje ocupado pelo deputado Delegado Waldir (PSL-GO).

O movimento foi anunciado pelo líder do governo na casa, deputado Vitor Hugo (PSL-GO). Segundo o parlamentar, foi conquistado apoio de 27 dos 53 membros da bancada — número em tese suficiente para a confirmação da troca. Atualmente o PSL é o segundo maior partido em representação na Câmara dos Deputados e seu líder pertence a um grupo mais próximo de Luciano Bivar (PE), presidente da sigla.

Logo após o anúncio de Vitor Hugo, a Secretaria Geral da Mesa informou terem sido apresentados outros dois requerimentos. Um pedindo a permanência de Waldir com 32 assinaturas e um terceiro reafirmando a indicação de Bolsonaro. Pelas regras da Câmara, vale o último requerimento protocolado, desde que as assinaturas de apoio da maioria da bancada sejam confirmadas.

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A Secretaria Geral deve checar as listas nesta manhã. Não foram divulgados os nomes contidos nas listas protocoladas. O presidente da casa, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), deve anunciar o resultado ao final da manhã desta quinta-feira (17).

Interferência

Deputados do grupo pró-Bivar acusam o presidente Jair Bolsonaro de interferir no processo, fazendo ligações pedindo assinaturas no requerimento para retirar Waldir da liderança da bancada. Os sites das revistas Época e Crusoé divulgaram o áudio de uma conversa entre Bolsonaro e um interlocutor não identificado, cuja voz não aparece no trecho apresentado, sobre o assunto.

“Olha só, nós estamos com 26, falta só uma assinatura pra gente tirar o líder, tá certo, e botar o outro. E a gente acerta, e entrando o outro agora, em dezembro tem eleições para o futuro líder a partir do ano que vem”, afirma o presidente no trecho.

Waldir acusa o presidente de pressionar parlamentares para pedirem sua substituição. “Há interferência direta do presidente da República, que quer a destituição minha da liderança do PSL. É algo muito claro, (um áudio) em que o presidente fala das vantagens de ser líder e diz que quer o filho dele, Eduardo, aqui na liderança, que teria o controle de cargos, de fundo partidário”, disse ao jornal O Globo.

O líder disse, ainda, que o “presidente rasga a Constituição e passa a interferir no parlamento”. Membros da ala bolsonarista negam a articulação do mandatário.

Bolsonaro disse, nessa quinta-feira, que não discute “publicamente” a disputa pelo comando do partido e chamou de “desonestidade” caso seu telefone tenha sido grampeado.

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Ontem, o deputado Vitor Hugo negou ter havido pressão do Palácio do Planalto para a troca da liderança da bancada.

“Foi uma decisão dos deputados do PSL, da maioria, em função do tensionamento e dos posicionamentos do líder atual, que contrariava orientações do governo, que colocava em dúvida a transparência do partido, que atacava membros do partido de maneira desmedida”, declarou.

No parlamento, um dos episódios que marcou a tensão entre os dois grupos que integram o partido foi a votação da MP 886/2019, que reformula novamente a estrutura do Poder Executivo. Durante a votação em plenário, o líder Waldir chegou a orientar a bancada pela obstrução à pauta, em um recado claro dos “bivaristas” ao governo.

Desdobramentos

Enquanto ainda se aguarda o desfecho do novo capítulo da disputa pesselista, analistas políticos avaliam os impactos da disputa sobre a correlação de forças no parlamento e a governabilidade. Para Leopoldo Vieira, da Idealpolitik, o episódio teve uma demonstração de força de Bolsonaro, mas revelou um partido praticamente dividido ao meio.

Já os analistas da XP Política chamam atenção para possíveis fissuras. “Com aumento do descontentamento e de atos como esse, o presidente mina seu apoio em outras pautas”, pontuam. O acirramento nas relações internas no partido ocorre em um momento de dificuldades do governo para conduzir uma agenda econômica pós-Previdência.

O episódio pode catalisar o processo de expulsão de parlamentares não-alinhados ao atual comando pesselista — um dos nomes mais lembrados neste grupo é o da deputada Carla Zambelli (SP).

O caso esquenta as discussões sobre um possível desembarque de bolsonaristas da sigla. Com o desenrolar da disputa, a avaliação dos analistas é que a cada dia diminuem as chances de uma solução consensual para a questão.

Nos bastidores, pesselistas já discutem o “day after” para uma eventual saída dos aliados ao presidente. Um dos caminhos esperados é a aproximação do chamado “Centrão” — bloco informal formado por DEM, PP, PL, Republicanos e Solidariedade — e até mesmo a fusão com uma das siglas.

(com Agência Câmara)

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