Bolsonaro soma dois inquéritos abertos na PF; caso do cartão de vacina foi arquivado

Ex-presidente é alvo em casos que vão de joias sauditas à tentativa de golpe; veja quais as ações em andamento

Marina Verenicz

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Errata: Diferentemente do informado em versão anterior deste texto, o ex-presidente Jair Bolsonaro não está entre os indiciados pela Polícia Federal (PF) no relatório sobre a chamada “Abin paralela”, encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF).

A PF apontou a participação de Bolsonaro no esquema de espionagem ilegal da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), mas o ex-presidente não foi relacionado na lista de indiciados porque já responde pela mesma acusação no STF na ação da trama golpista.

No relatório final da investigação do caso, a PF apontou indícios da participação de Jair Bolsonaro na rede de espionagem ilegal da agência de inteligência. Segundo investigadores, o ex-presidente tinha conhecimento do esquema e era o principal beneficiário dele.

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Mas a corporação entendeu que caberá à Procuradoria-Geral da República (PGR) avaliar se o ex-presidente deverá responder pelo crime de organização criminosa em dois inquéritos diferentes, o da Abin paralela e o da trama golpista.

O texto foi corrigido para refletir com precisão as informações do relatório. Publicações anteriores que indicavam erroneamente o indiciamento de Bolsonaro foram atualizadas às 01h16 da quarta-feira, 18 de junho de 2025.

A Polícia Federal concluiu e enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) o relatório do inquérito sobre o uso ilegal da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Bolsonaro — o caso ficou conhecido como “Abin Paralela”. O documento aponta que a estrutura clandestina foi comandada pelo deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-diretor do órgão, por ordem do então presidente Jair Bolsonaro (PL).

Entre os indiciados estão Ramagem e o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ). O relatório da PF afirma que a rede ilegal atuava para produzir dossiês, disseminar notícias falsas e monitorar adversários políticos, membros do Judiciário, servidores públicos, jornalistas e até cidadãos comuns. A coleta de dados era feita por meio da ferramenta de geolocalização “First Mile”, que rastreava celulares via antenas de rede.

O nome do ex-presidente não conta na lista de indicados, ao contrário do que foi relatado mais cedo na terça-feira (17) por integrantes da PF e do que publicou o InfoMoney. O relatório atribui a Jair Bolsonaro indícios de conduta criminosa, mas aponta que, por já ter sido indiciado em outro inquérito sob suspeita de organização criminosa, não poderia ser alvo de indiciamento novamente por esse crime. A corporação entendeu que caberá à Procuradoria-Geral da República (PGR) avaliar se o ex-presidente deverá responder pelo crime de organização criminosa em dois inquéritos diferentes, o da Abin paralela e o da trama golpista.

O relatório foi encaminhado ao ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no STF. Caberá à PGR decidir se apresentará denúncia contra os indiciados.

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Mas outros dois inquéritos em curso envolvem o ex-presidente no STF. Veja o andamento de cada um:

Arquivado: fraude no cartão de vacina

A investigação apurava se Bolsonaro e aliados forjaram certificados de vacinação contra a Covid-19 para burlar exigências sanitárias durante a pandemia. A PF havia indiciado o ex-presidente, o ex-ajudante de ordens Mauro Cid e outros aliados por associação criminosa e inserção de dados falsos no sistema do Ministério da Saúde. O caso ganhou repercussão após vir à tona que Bolsonaro teria usado o certificado falso para entrar nos Estados Unidos em 2022.

Contudo, em março de 2025, o ministro Alexandre de Moraes atendeu ao pedido da Procuradoria-Geral da República e arquivou o inquérito. O órgão considerou que os indícios se baseavam exclusivamente na delação de Mauro Cid, sem provas complementares robustas, o que inviabilizaria a formulação de denúncia formal. O arquivamento não impede que o caso seja reaberto, caso surjam novos elementos.

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Em andamento: venda das joias sauditas

Neste inquérito, a Polícia Federal investiga a tentativa de desviar e vender joias de alto valor recebidas como presentes de autoridades sauditas ao governo brasileiro.

O material, segundo a legislação brasileira, deveria ter sido incorporado ao acervo público da Presidência da República. Em vez disso, parte das peças foi levada ilegalmente aos Estados Unidos e negociada com colecionadores, segundo os investigadores.

Bolsonaro foi indiciado por associação criminosa, lavagem de dinheiro e apropriação de bens públicos.

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A PF identificou movimentações financeiras e ações de pessoas próximas ao ex-presidente para ocultar a origem das peças e repartir os valores arrecadados. O caso segue em análise na PGR, que ainda não apresentou parecer.

Em andamento: tentativa de golpe de Estado

A investigação mais extensa envolve o indiciamento de Bolsonaro e de outros 36 nomes por envolvimento em uma trama para impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, após o resultado das eleições de 2022. O plano incluía articulações dentro e fora do governo, elaboração de minutas golpistas, ataques ao sistema eleitoral e tentativas de envolver as Forças Armadas em uma ruptura institucional.

Segundo o relatório da PF, a chamada “minuta do golpe” teria sido discutida por aliados diretos de Bolsonaro, incluindo assessores militares, ex-ministros e operadores políticos. O documento previa a prisão de ministros do STF e do TSE, além da decretação de estado de sítio. A investigação cruzou provas obtidas com Mauro Cid e dados de celulares e e-mails, revelando a atuação de um núcleo central coordenado por Bolsonaro para manter-se no poder mesmo após a derrota eleitoral.

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A ação penal está na fase final. O ministro Alexandre de Moraes deu prazo para as defesas dos indiciados se manifestarem. A expectativa é de que o julgamento pela Primeira Turma do STF ocorra ainda no segundo semestre de 2025.