Análise

Bolsonaro no PL: Presidente muda estratégia e aposta em estrutura do ‘centrão’ para 2022, mas corre risco de traições

Após negociar com seis partidos, presidente encaminha filiação ao PL, de Valdemar Costa Neto, e mira coalizão para tentar virar o jogo nas próximas eleições

Por  Marcos Mortari -

SÃO PAULO – A filiação do presidente Jair Bolsonaro ao Partido Liberal (PL), legenda do ex-deputado Valdemar Costa Neto, é mais um capítulo da aproximação entre o mandatário e os partidos do chamado “centrão” (que ocorre desde meados de 2020), e traz sinalizações sobre as estratégias de alguns dos principais atores políticos para as eleições de 2022.

A cerimônia, marcada para 22 de novembro, em Brasília, põe fim a um período de pouco mais de dois anos em que Bolsonaro esteve sem partido. O presidente deixou o PSL, em novembro de 2019, em meio a uma queda de braço com Luciano Bivar (PE), presidente da legenda. A disputa envolvia a ocupação de posições estratégias no partido e o controle do cofre. Na época, Bolsonaro havia decidido trabalhar na criação do seu próprio partido, Aliança pelo Brasil, que não prosperou por falta de assinaturas para a efetuação do registro.

Com as eleições cada vez mais próximas, Bolsonaro passou a conversar com dirigentes partidários em busca da melhor opção para abrigá-lo. Foram ao menos seis negociações malsucedidas: com Republicanos, PMB, Patriota, PRTB, PTB e PP. Até que o martelo foi finalmente batido com o PL, após um encontro com Valdemar Costa Neto, na quarta-feira (10), no Palácio do Planalto.

Analistas políticos consultados pelo InfoMoney acreditam que o acerto cria um esboço do que deverá ser a coalizão de Bolsonaro em sua candidatura à reeleição em 2022.

A expectativa é que integrem formalmente o bloco importantes legendas do “centrão”, como PP e Republicanos, mas o presidente terá que mostrar serviço (isto é, provar ser competitivo nas pesquisas eleitorais) para evitar traições durante a campanha.

“Foi um movimento estratégico interessante de Bolsonaro”, afirma Carlos Eduardo Borenstein, analista político da consultoria Arko Advice.

“O PP, o Republicanos, o Patriota e eventualmente o PTB têm uma tendência a apoiá-lo. O PL, além de ser um partido com inserção nas igrejas e no público evangélico, é um partido que potencialmente poderia ser procurado pelas siglas de centro e por Lula”, observa.

Com a filiação, Bolsonaro tenta consolidar a coalizão que dará suporte à sua candidatura à reeleição e afasta o risco de acordo de uma dessas siglas com potenciais adversários na disputa pelo Palácio do Planalto.

“Durante muito tempo, Bolsonaro deu a impressão de que queria repetir a regra de 2018: partido pequeno, com expressividade baixa, para que ele pudesse ter controle. Inclusive, este é o ponto de origem da crise no PSL. A saída pelo PL, principalmente depois da confusão no Patriota, parece uma decisão pragmática. Valdemar Costa Neto sabe fazer campanha. Vale lembrar que o vice de Lula, José Alencar, era do PL. Eles têm essa expertise. Bolsonaro parece ter entendido que precisa se cercar de quem entende do riscado”, avalia o analista político Creomar de Souza, CEO e fundador da Dharma Political Risk & Strategy.

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“Caso seja consolidado, Bolsonaro vai sair [candidato] por um partido que sabe fazer campanha e possivelmente com um vice que venha do PP. E ele ainda empurra Lula para a esquerda”, pontua.

O especialista também acredita que a filiação ao PL pode dar a Bolsonaro maior proteção em relação a riscos vindos da Justiça Eleitoral. Há duas semanas, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu rejeitar pedido de cassação de Bolsonaro e seu vice, o general Hamilton Mourão (PRTB), por suposta participação em esquema de disparo em massa de fake news nas eleições de 2018, mas mandou recados ao mandatário.

A maioria da corte eleitoral concluiu que foi comprovada a existência de um esquema ilícito de propagação de informações falsas pelo aplicativo de mensagens WhatsApp no último pleito para beneficiar a candidatura de Bolsonaro, mas avaliou que não ficou demonstrada gravidade suficiente para aplicação da pena contra a chapa vencedora do pleito.

O ministro Alexandre de Moraes, que presidirá a corte eleitoral em 2022, porém, afirmou que, se os episódios se repetirem nas próximas eleições, os responsáveis serão cassados e “irão para a cadeia por atentar contra as eleições e a democracia”. No mesmo julgamento, em outro recado, os magistrados cassaram o deputado estadual Fernando Francischini (PSL-PR) por publicar vídeo no dia das eleições afirmando que as urnas eletrônicas haviam sido fraudadas.

“Em 2018, nem os juízes eleitorais nem o Ministério Público Eleitoral entendiam direito como funcionava a campanha na internet. Construíram a regulação, mas não havia um diálogo de como agir. E agora parece que há uma curva de aprendizado”, avalia Creomar de Souza.

“Parece que o movimento de Bolsonaro [para se filiar ao PL] é mais no sentido de se proteger de eventuais riscos, sobretudo depois de a Justiça Eleitoral ter deixado claro que vai impugnar candidaturas que façam o que ela considera ilícito em uma campanha. Ele sabe que precisa de um verniz de formalismo, de adesão ao corpo político”, diz.

Antes de fechar com o PL, Bolsonaro esteve muito próximo de entrar em acordo com o PP, partido presidido por Ciro Nogueira, atual ministro-chefe da Casa Civil, pasta responsável pela articulação política do governo e interlocução entre os ministérios. Mas a percepção de falta de autonomia e a divisão ideológica em diretórios estaduais afastou o mandatário da sigla.

“O PL, o PP e o Republicanos vão formar a coalizão partidária para sustentar a candidatura à reeleição de Bolsonaro. Não acho que o fato de ele não ter ido ao PP irá afastar o partido. Creio que a escolha pelo PL ocorreu porque é um partido que tem ‘dono’”, avalia Ricardo Ribeiro, analista político da MCM Consultores.

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“Para Bolsonaro deve ter sido mais fácil fazer os acordos com o PL. No PP, a resistência parece maior. O PP é um partido maior do que o PL, tem forças importantes no Nordeste, e, para essas lideranças, apoiar Bolsonaro pode ser mais complicado”, diz.

Na avaliação do especialista, a filiação de Bolsonaro ao partido do “centrão”, caso confirmada, também enterra de vez as especulações de que o presidente poderia não disputar a reeleição – o que parece pouco provável para um candidato que, apesar de índices de rejeição elevados, é avaliado positivamente por cerca de 1/4 do eleitorado.

“Basicamente, dos grandes partidos do centro, sobrou o PL. Bolsonaro poderia ir para um partido pequeno, mas eles não foram muito receptivos. E também não dá para ir para um partido pequeno que não tenha dinheiro, porque eles vão querer o presidente para fazer bancada. Então, ou colocam todo o dinheiro na campanha presidencial ou na campanha para Legislativo. No caso de partidos médios ou grandes, como PP e PL, é possível fazer uma matemática que dê dinheiro para a campanha presidencial, mas também para a legislativa”, explica Thiago Vidal, gerente de análise política da Prospectiva Consultoria.

De um lado, Bolsonaro aposta em maior estrutura partidária e fecha as portas de potenciais alianças formais entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o “centrão”. Do outro, o PL quer ampliar sua relevância no Congresso Nacional, elegendo mais deputados federais e senadores para a próxima legislatura.

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“O [acerto com o] PL é uma jogada de tentar dinheiro, tentar evitar que o PL vá para Lula, e ajudar o partido a fazer bancada. É isso que está na conta, ressaltando que o que interessa o PL não é necessariamente ter Bolsonaro presidente, já que o partido é governo e se beneficia do governo mesmo não tendo apoiado formalmente o presidente lá atrás”, avalia Vidal.

Para Ricardo Ribeiro, os partidos do “centrão” estão fazendo uma aposta de baixo risco, já que poderão contar com mais recursos e a máquina pública para ampliar suas bancadas, mesmo se futuramente Bolsonaro for derrotado. Com maior controle no Poder Legislativo, as legendas do grupo gozariam de maior poder político independentemente do presidente eleito.

“O ‘centrão’ nunca teve tanto poder como hoje. Então, é possível que a bancada desses partidos cresça. Mas não deve acontecer com o PP o que ocorreu com o PSL em 2018”, aposta.

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“Mesmo que Lula hoje lidere as pesquisas, o Congresso tem esse perfil de centro-direita/direita. E, vendo os candidatos que estão aparecendo, é plausível especular que até pode ser reduzida a orientação de 2018, mas ela deve seguir majoritária. Dificilmente haverá um Congresso majoritariamente progressista – algo que não existiu nem na ‘Era PT'”, avalia Carlos Eduardo Borenstein, da Arko.

Riscos

A aliança com o PL também representa uma mudança significativa na estratégia de Bolsonaro em comparação com a campanha vitoriosa em 2018, quando se filiou ao PSL – à época, sigla nanica, com pouca estrutura, recursos reduzidos e baixíssima capilaridade – para concorrer ao Palácio do Planalto e lançou mão de discurso crítico à política tradicional e ao “centrão” a que hoje se alia.

“No PL, Bolsonaro ganha capilaridade e estrutura partidária para a eleição presidencial, mas precisará explicar contradições pela entrada em um partido do ‘centrão’ e sofrerá com a falta de unidade da sigla em torno de seu nome”, avaliam os analistas da XP Política.

Para os analistas ouvidos pela reportagem, o risco de parcela do bolsonarismo se sentir traído pelo movimento do presidente deve ser considerado, sobretudo após o ingresso de Sergio Moro (Podemos) no páreo. O ex-juiz da Lava Jato conta com prestígio de parcela relevante do eleitorado conservador e pode fazer sombra nos planos de reeleição de Bolsonaro.

“Certamente a campanha de Bolsonaro em 2022 vai ser muito diferente de 2018. O discurso antipolítica não terá muita sustentação agora. Não será possível apelar para a mensagem antissistema e que ele vai entrar na presidência para mudar as estruturas de poder. Ele vai, como qualquer candidato à reeleição, exaltar o desempenho do governo. Não vai ser fácil”, pontua Ricardo Ribeiro.

A eventual construção de uma coalizão com PL, PP e Republicanos, no entanto, não é garantia de que os partidos e suas estruturas estejam fechados com a candidatura de Bolsonaro na prática.

Especialistas alertam que a adesão vai depender de quão competitiva for entendida a campanha à reeleição do atual presidente. Caso outras candidaturas sejam vistas como favoritas, há riscos de o mandatário repetir a história de Ulysses Guimarães (PMDB), em 1989, e Geraldo Alckmin (PSDB), em 2018.

“Bolsonaro corre o risco de ter uma campanha com o apoio formal de PL, PP e outros partidos, mas, em termos práticos, acabar desguarnecido”, avalia Creomar.

“Muitos parlamentares do ‘centrão’ fizeram campanha para Lula e Dilma e chegaram a cargos públicos fazendo campanha para eles. Nas classes mais baixas, o trânsito de votos do PT para Bolsonaro foi muito forte, e, com a atual situação econômica, pode vir no sentido contrário em 2022. Essa turma vai ficar com um olho no peixe e outro no gato”, complementa.

Para Borenstein, algum nível de fissura nos partidos do “centrão”, especialmente na região Nordeste, onde Lula tem forte apoio popular, é praticamente inevitável, mas Bolsonaro terá de trabalhar para manter níveis elevados de adesão nos partidos.

“Esses partidos dificilmente vão marchar unidos com ele. A tendência é que ocorra fissura nos estados, como sempre ocorre. Mas, de qualquer forma, Bolsonaro vai ter algo que não tinha na campanha de 2018: tempo de TV e estrutura desses partidos, além do controle da máquina. Estes são fundamentos de campanha importantes”, conclui.

Estrutura partidária

O Partido Liberal (PL) conta com uma bancada de 43 deputados federais (terceira maior na Câmara dos Deputados) e 4 senadores (oitava maior no Senado Federal). Nas últimas eleições municipais, a legenda aumentou de 297 para 345 o número de prefeitos, ocupando a sexta posição na lista dos partidos que comandam mais prefeituras.

De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o PL recebe R$ 4,061 milhões por mês do fundo partidário em 2021, totalizando R$ 48,737 milhões no ano, o equivalente a 5,45% do bolo todo. Isso faz do partido o oitavo em dotação de recursos do fundo, com pouco menos da metade do que recebe o primeiro da lista – PSL, com cerca de R$ 104,56 milhões anuais.

O valor do fundo eleitoral ainda não está definido para o próximo pleito, mas, considerando o montante distribuído entre as legendas nas últimas eleições municipais, o PL teria direito a R$ 117.621.670,45 – 58,43% dos valores recebidos pelo PT (R$ 201.297.516,62).

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