Sem jogar a toalha

Ausência de Levy gera preocupação de que ministro vá deixar governo – mas ele diz que fica

<span>Na versão oficial, uma gripe afastou o ministro do anúncio do corte do Orçamento </span>

SÃO PAULO – A ausência do ministro da Fazenda Joaquim Levy no evento mais importante desde que tomou posse na Esplanada – o anúncio do corte do Orçamento, na última sexta-feira (22) -despertou em integrantes do governo preocupações de que o ministro possa jogar a toalha e deixar a Fazenda após cinco meses de sua posse, contrariando a versão oficial de que teria se ausentado por conta de uma gripe. As informações são do jornal Folha de S. Paulo.

Contudo, de acordo com informações do jornal O Estado de S. Paulo e do jornal Valor Econômico, ele fica. Apesar da ausência ter sido interpretada como um sinal de fraqueza de Levy, o ministro será pautado pela persistência e não tem a menor intenção de sair do cargo. A mensagem que buscou passar a não ir ao evento não era a de desembarque do governo, mas de descontentamento crescente com os revezes que vem sofrendo. 

O ministro considera que as medidas de ajuste propostas têm sido excessivamente desfiguradas pelo Congresso e reclama abertamente do comportamento do PT e da falta de apoio para as medidas. Além disso, está incomodado com o discurso otimista do governo e acha que a situação não permite traçar um quadro de recuperação na economia a partir do segundo semestre. 

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As versões sobre a ausência
Nos bastidores, a informação que corre é que o ministro não quis marcar posição sobre suas divergências em relação ao tom do ajuste e do cenário fiscal, que, para ele, teria que ser muito mais sombrio do que aquele apresentado pelo governo Dilma. 

A relação entre o ministro e o governo já dava sinais de esgotamento antes mesmo do anúncio, mas o corte abaixo do esperado pode ter sido o estopim, já que, na semana passada, Levy teria passado por outra frustração. Ele teria pedido que a medida provisória que aumentou de 15% para 20% a taxação dos bancos via CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) fosse editada um pouco mais para frente, para ter tempo de conversar com o setor financeiro, mas a presidente Dilma e Aloizio Mercadante (Casa Civil) foram contra. A medida foi publicada na última sexta-feira.

A saído do ministro a essa altura, no entanto, é vista como desastrosa pelo Planalto devido ao cenário atual de dificuldades financeira e política. Mas os ministros de Dilma reconhecem que as perspectivas não são boas. Entre os auxiliares presidenciais, os motivos das insatisfações de Levy recaem sobre os parâmetros do contingenciamento, que precisaria ser mais duro, assim como a mensagem geral sobre a situação da economia. De acordo com o jornal, ele já teria, por exemplo, mencionado em reuniões internas que a estimativa da receita de R$ 1,158 trilhão para este ano está superestimada. 

Além de rumores sobre uma possível saída, a ausência de Levy no anúncio do corte pode ter sido explicada também por conta de uma outra versão extra-oficial, a de que ele teria se desentendido com o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. A razão seria o fato de o valor total dos cortes ter ficado abaixo de R$ 70 bilhões – ficou em R$ 69,9 bilhões. Levy havia declarado publicamente que queria um valor maior, algo entre R$ 70 bilhões e R$ 80 bilhões. 

E, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, as divergências entre Levy e Barbosa não se resumem ao montante de cortes no Orçamento para o ajuste fiscal. . Segundo fontes do governo, as discordâncias incluem também a desoneração da folha de pagamento das empresas e principalmente as mudanças no cálculo do fator previdenciário aprovadas pela Câmara.

Há cerca de duas semanas, numa reunião da coordenação política do governo, a presidente Dilma Rousseff foi obrigada a intervir em uma acalorada discussão entre os dois. Segundo relatos, Barbosa, apoiado por outros ministros ligados ao PT, defendeu que caso Dilma decida vetar o novo cálculo previdenciário, que reduz a idade mínima para aposentadoria, crie um mecanismo alternativo que contemple os trabalhadores e ao mesmo tempo mantenha a saúde financeira da Previdência.

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Já Levy foi na direção contrária. Para ele o governo deve tentar barrar o projeto no Senado. Em último caso, a presidente deve vetar o novo cálculo, sob risco de comprometer o ajuste fiscal.

O ministro da Fazenda ficou isolado na discussão até que Dilma interveio. “Não vou admitir que vocês façam este debate dessa forma. Quem vai decidir sobre isso sou eu”, disse a presidente, segundo testemunhas.

Conforme integrantes do governo, o apoio a Levy se ampara hoje em Dilma e no vice-presidente, Michel Temer, com quem tem se reunido pelo menos duas vezes ao dia.

(Com Agência Estado)