"Fáceis porque são pobres"

Áudio sobre mulheres ucranianas de deputado Arthur do Val causa revolta no meio político e redes sociais

Neste sábado, o deputado tentou esclarecer o ocorrido, afirmando ter sido “um erro, em um momento de empolgação”

Por  Equipe InfoMoney -

Pré-candidato ao governo de São Paulo pelo Podemos, o deputado estadual Arthur do Val, também conhecido como Mamãe Falei, causou polêmica e revolta nas redes sociais, após o vazamento de áudios em que descreve as mulheres ucranianas como “fáceis, porque são pobres”.

Do Val viajou à zona de conflito na Ucrânia, junto com Renan Santos, do MBL (Movimento Brasil Livre), para apoiar na resistência do país contra a invasão russa.

Pelo Instagram, inclusive, publicou uma foto em que aparece sentado ao lado de dezenas de garrafas de vidro supostamente destinadas à produção de coquetéis molotov.

Crítico ao governo do presidente Jair Bolsonaro em relação à postura neutra no conflito, o MBL afirmou que arrecadou mais R$ 180 mil em uma live na segunda-feira (1) — o recurso, segundo os líderes do movimento, será usado para ajudar voluntários na Ucrânia.

Neste sábado, o deputado tentou esclarecer, ao ser questionado pela imprensa, a situação: “Não é isso o que eu penso (sobre as mulheres ucranianas). O que eu falei foi um erro, num momento de empolgação”.

“Fui para fazer uma coisa, mandei um áudio infeliz, e a impressão que passou é que fui fazer outra coisa.”, acrescentou.

Impacto político

Do Val é apoiador do programa de governo do pré-candidato Sergio Moro, também do Podemos, à Presidência da República nas eleições de outubro. Pelas redes sociais o ex-juiz “lamentou profundamente e repudiou veementemente as graves declarações do deputado”.

Moro acrescentou que não dividirá “jamais” palanque com pessoas com essa “opinião e comportamento” (como de Arthur do Val) e disse esperar que o Podemos (partido de ambos) “se manifeste brevemente diante da gravidade que a situação exige”.

Em nota, o Podemos afirmou que os áudios são “gravíssimos” e “inaceitáveis”, e que “não se resumem ao completo desrespeito à mulher, seja ucraniana ou de qualquer outro País, mas de violações profundas relacionadas a questões humanitárias, em um momento em que esse povo enfrenta os horrores da guerra.”

“O Podemos repudia com veemência as declarações e, com base nelas, instaura de imediato um procedimento disciplinar interno para apuração dos fatos. Até este momento o partido não havia conseguido contato com o deputado, que estava em voo”, finalizou a nota assinada pela presidente do Podemos, Renata Abreu.

Impacto à campanha

Em comentário sobre o episódio, a XP Política aponta que o impacto é bastante limitado à campanha ao governo de São Paulo, dado o pouco tamanho que aparentemente tem a pré-candidatura de do Val, mas contribui para “atrapalhar ainda mais o começo de campanha de Sérgio Moro”.

Conforme a XP Política, Moro “não tem nada a ver com o que é atribuído a Arthur do Val (os áudios)”, mas fatalmente terá que se dissociar do MBL e da estrutura de redes sociais que estes lhe ofereciam, especialmente em São Paulo.

“É muito difícil para uma pré-candidatura ter de explicar em um intervalo de menos de 30 dias declarações de aliados à favor da liberdade de organização de um partido nazista no Brasil antes, e agora declarações de cunho sexista e ofensivo em meio à tragédia do imenso mar de refugiados que fogem da guerra entre Rússia e Ucrânia.”

Outro aliado de Moro, o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP) criou polêmica no mês passado, durante participação em um podcast, quando o apresentador do programa defendeu a criação de um partido nazista no Brasil. Após o episódio, a Procuradoria-Geral da República abriu investigação contra ambos sobre apologia ao nazismo.

“Diante da minha falha, quero reafirmar que sou visceralmente contra o nazismo. Sou também defensor da causa judaica e do Estado de Israel”, disse Kataguiri. Sobre esse episódio, Moro afirmou que o deputado cometeu uma “gafe verbal” e um “erro brutal”.

Por fim, a XP Política destacou que março nem bem começou, mas que deverá terminar como fevereiro: “existem e são viáveis de forma competitiva e consistente as candidaturas de Bolsonaro e Lula. As outras todas, com mais ou menos méritos, lutam neste momento para se viabilizar.”

Não quer atrapalhar terceira via

Neste sábado pela manhã, Arthur do Val postou um vídeo em seu canal no You Tube, que conta com 2,75 milhões de inscritos, admitindo que pode abrir mão de sua pré-candidatura ao Palácio dos Bandeirantes para não atrapalhar a terceira via – grupo de candidatos alternativos às pré-candidaturas de Bolsonaro e de Lula ao Planalto.

“Se eu vou continuar pré-candidato? Não sei… Cheguei agora no Brasil. Eu não quero atrapalhar a terceira via, não quero atrapalhar o meu partido, não quero atrapalhar ninguém. Se isso for melhor, não tem problema, eu retiro minha candidatura”, declarou, ao final do vídeo, intitulado “Pedido de desculpas”.

Cassação

Segundo a Folha de S.Paulo, a Representação Central Ucraniana-Brasileira, que reúne organizações civis e religiosas que representam 600 mil brasileiros descendentes de ucranianos, pediu ao presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, deputado Carlão Pignatari (PSDB), a cassação do mandato de Arthur do Val.

“O deputado Arthur do Val revelou-se uma pessoa de índole perigosa para o exercício de funções públicas onde sempre há que se tratar com mulheres em situação de vulnerabilidade”, diz a entidade no documento.

Ainda segundo a Folha, deputados de partidos de esquerda e de direita da Assembleia de São Paulo estão protocolando representações no Conselho de Ética da Casa contra o membro do MBL.

A deputada estadual de São Paulo, Isa Penna (PSOL) se manifestou sobre o ocorrido e afirmou estar ingressando com uma representação jurídica contra o Arthur pedindo a sua cassação por quebra de decoro parlamentar.

Mais repercussões

Ainda no meio político, o governador de São Paulo e pré-candidato ao Planalto, Joao Doria, escreveu que as falar foram “repudiantes”, “inaceitáveis” e “vergonhosas”.

Já a deputada estadual por São Paulo Janaina Paschoal (PSL) afirmou que não há “palavras para expressar a indignação com o desrespeito para com as mulheres ucranianas”.

“O tratamento a elas dispensado já seria inaceitável, pelos termos utilizados! Mas, diante da situação de vulnerabilidade, é revoltante! Triste!”, acrescentou Janaina.

Enquanto isso, o deputado estadual Gil Diniz (PL-SP) escreveu que, “neste momento”, a cassação é “o mínimo”, e que também está entrando com uma representação no conselho de ética da assembleia paulista.

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