Após crise com Flávio, Michelle reorganiza atuação para preservar influência política

Sem a estrutura formal do partido, ex-primeira-dama reorganiza atuação para preservar influência entre público feminino e evangélicos

Agência O Globo

Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama (Foto: Isac Nóbrega/PR)
Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama (Foto: Isac Nóbrega/PR)

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Há pouco mais de um mês, Michelle Bolsonaro apareceu diante de prefeitas e lideranças do PL Mulher por uma videochamada feita da cozinha de casa, em Brasília, enquanto preparava o almoço do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar. A cena simbolizava a adaptação de sua rotina política às novas circunstâncias familiares.

Agora, depois de deixar a presidência do PL Mulher e romper politicamente com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), aquele modelo de atuação ganhou outro significado. Em vez de comandar institucionalmente o segmento feminino do partido, Michelle passou a reorganizar sua atuação em torno de uma rede de candidatas, campanhas estaduais, lideranças religiosas e do movimento “Imparáveis”, numa estratégia para preservar a influência construída entre mulheres conservadoras e evangélicos mesmo sem ocupar um cargo formal na legenda.

Segundo aliados ouvidos, essa mudança começou a ser desenhada ainda durante a crise com Flávio. Enquanto o partido administrava os efeitos do rompimento, Michelle reduziu a exposição pública, intensificou reuniões remotas e reorganizou sua agenda em torno das mulheres que ajudou a lançar politicamente.

No entorno da ex-primeira-dama, a avaliação é que seu principal patrimônio nunca esteve no cargo que ocupava à frente do PL Mulher, mas nas relações construídas diretamente com parlamentares, prefeitas, vereadoras, dirigentes estaduais e lideranças religiosas espalhadas pelo país.

Essa estratégia começou a ficar evidente antes mesmo de sua saída ser oficializada. Dois dias depois de tornar pública a crise com Flávio, enquanto o senador fazia a primeira conversa reservada com Jair Bolsonaro desde o rompimento, Michelle passou o dia na sede nacional do PL gravando inserções de campanha para candidatas do partido em Roraima. Entre aliados, o gesto foi interpretado como um recado de que deixaria o comando do PL Mulher, mas não abriria mão da rede política construída durante sua gestão.

É nessa lógica que se insere o “Imparáveis”, movimento lançado na semana passada e concebido pela equipe de comunicação da ex-primeira-dama como uma frente de mobilização sem vinculação partidária. Segundo interlocutores, o projeto não pretende substituir o PL Mulher nem funcionar como um braço político da legenda. A proposta é reunir pessoas identificadas com as pautas defendidas por Michelle, especialmente em relação às mulheres, por meio de uma comunidade inspirada no modelo dos chamados “fandoms”, voltada à formação política e ao engajamento permanente.

O projeto vinha sendo desenvolvido havia meses e tinha lançamento previsto apenas para 2027, durante um encontro nacional pensado para reunir as mulheres eleitas apoiadas por Michelle ao longo do ciclo eleitoral de 2026. A saída da ex-primeira-dama do comando do PL Mulher, porém, levou a equipe a antecipar o cronograma. Inspirado na música Unstoppable, da cantora Sia, o movimento busca transmitir a ideia de perseverança diante das dificuldades e ampliar a mobilização para além das estruturas partidárias.

Nos bastidores, interlocutores afirmam que Michelle já trabalha com uma lista de candidaturas consideradas prioritárias para a eleição deste ano.

Antes mesmo da crise, ela havia definido um grupo de 19 mulheres que pretende acompanhar mais de perto ao longo da campanha. São, em sua maioria, parlamentares, presidentes estaduais do PL Mulher e candidatas que cresceram politicamente durante sua passagem pelo comando do segmento feminino e que hoje formam seu núcleo de maior confiança.

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Entre elas estão Rosana Valle (SP), Roberta Roma (BA), Ana Campagnolo (SC), Cris Tonietto (RJ), Delegada Sheila (MG), Carlise Cwiatkowski (PR), Gislayne Yamashita (MT), além de nomes que disputarão o Senado, como Carol de Toni (SC), Bia Kicis (DF) e Priscila Costa (CE).

Na avaliação do entorno de Michelle, quanto maior a bancada formada por essas mulheres, maior continuará sendo sua influência dentro do bolsonarismo, independentemente de ocupar um cargo formal no partido.

Bancada da Michelle

Essa estratégia tem como principal ativo justamente o grupo de mulheres que Michelle ajudou a formar politicamente e que, na avaliação de aliados, continuará funcionando como sua principal base de influência.

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Presidente do PL Mulher em São Paulo, a deputada federal Rosana Valle afirma que a liderança construída pela ex-primeira-dama ultrapassa a função partidária que exercia.

— Michelle Bolsonaro teve papel muito importante na mobilização das mulheres e na aproximação de muitas brasileiras com a política. Esse trabalho deixou um legado e merece todo reconhecimento. Tenho muito respeito por ela e acredito que continuará contribuindo com o projeto da direita, como sempre fez ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Questionada se a saída do comando do PL Mulher diminui seu peso político, Rosana respondeu:

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— Influência política não depende apenas de um cargo. Michelle Bolsonaro construiu uma liderança própria, fruto do trabalho que realizou e da conexão que estabeleceu com milhares de mulheres em todo o Brasil. Isso permanece.

Na avaliação de aliados, é justamente essa autonomia que Michelle procura preservar. Se antes sua agenda era organizada em função do partido, agora ela passa a ser definida pelas relações políticas construídas diretamente por ela.

Em vez de representar institucionalmente o PL Mulher em todos os estados, ela pretende concentrar esforços onde considera que sua presença produz maior impacto eleitoral, seja ao lado das candidatas que ajudou a lançar, seja junto ao eleitorado evangélico, segmento em que continua registrando seus maiores índices de aprovação dentro do bolsonarismo.

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Uma campanha em outro formato

As primeiras agendas desse novo roteiro já começaram a ser desenhadas. O entorno de Michelle discute viagens a Santa Catarina, Roraima e compromissos no próprio Distrito Federal, estados onde a ex-primeira-dama pretende concentrar parte da atuação presencial. A lógica deixa de ser cumprir uma agenda nacional organizada pelo partido e passa a priorizar campanhas consideradas estratégicas por seu próprio grupo político.

Em Santa Catarina, a expectativa é que Michelle participe de eventos ao lado da deputada estadual Ana Campagnolo (PL), uma de suas principais aliadas e nome que ganhou projeção nacional durante sua passagem pelo PL Mulher.

No Distrito Federal, a tendência é reforçar a campanha da governadora Celina Leão (PP), que permaneceu ao seu lado durante os momentos mais delicados da crise com Flávio e hoje integra seu círculo político mais próximo. Em Roraima, onde já gravou inserções de campanha para candidatas da legenda, a expectativa é que também cumpra agendas presenciais.

Parte importante dessa atuação, porém, continuará acontecendo longe dos palanques. Pessoas próximas afirmam que Michelle pretende intensificar o modelo que já vinha adotando desde que Jair Bolsonaro passou a cumprir prisão domiciliar: gravações de vídeos para candidatas, reuniões por videoconferência, mensagens personalizadas a lideranças locais e mobilização pelas redes sociais.

O formato, inicialmente pensado para permitir que permanecesse mais tempo em casa ao lado do ex-presidente, acabou se transformando também em uma estratégia política. Segundo aliados, o celular substituiu boa parte das viagens nacionais, mantendo contato praticamente diário com dirigentes estaduais e candidatas espalhadas pelo país.

Outro eixo considerado prioritário será o eleitorado evangélico. Michelle deverá ampliar a participação em congressos femininos, encontros religiosos e eventos promovidos por igrejas com as quais mantém relação há anos.

Entre as agendas discutidas estão compromissos na Igreja Batista Atitude, liderada pelo pastor Josué Valandro Jr., e em eventos ligados ao bispo Robson Rodovalho, fundador da Sara Nossa Terra. Na avaliação de seu entorno, esse continuará sendo o espaço em que sua imagem permanece mais consolidada e menos sujeita às disputas internas do partido.

A nova estratégia também ficou evidente na relação com a campanha presidencial do PL. Michelle não participou do ato realizado na sexta-feira no Ceará, primeira agenda de Flávio Bolsonaro no estado após a crise entre os dois.

O evento havia sido planejado meses antes para marcar o lançamento das candidaturas da legenda e chegou a ser cogitado como o primeiro compromisso público conjunto da ex-primeira-dama e do senador, hipótese descartada após o rompimento.

Mesmo ausente, Michelle permaneceu representada por uma de suas principais aliadas no estado. Antes de embarcar para uma viagem já programada a Portugal, Priscila Costa (PL-CE), personagem central da crise entre Michelle e Flávio, ficou responsável por organizar a mobilização das mulheres para o evento. Entre aliados, o gesto foi interpretado como uma forma de preservar a interlocução construída pela ex-primeira-dama com a ala feminina do partido no Ceará, sem reabrir o conflito com a campanha presidencial.

Apesar da distância em relação à campanha de Flávio, uma ala do PL rejeita a interpretação de que Michelle deixará de participar da eleição.

O deputado Bibo Nunes (PL-RS) afirma que a ex-primeira-dama continuará sendo uma das principais puxadoras de voto da legenda, sobretudo entre o eleitorado feminino.

— A Michelle vai fazer campanha para as mulheres dela, que eram do PL Mulher Nacional. Ela tem muita credibilidade com as mulheres. A página está virada e ela vai apoiar o Flávio, sem dúvida alguma, inclusive participando das gravações de rádio e televisão.

No sábado, numa tentativa de contornar a crise, Flávio leu uma carta escrita pelo pai em que o ex-presidente o nomeava seu “porta-voz” e pedia união da direita bolsonarista. 

Embora Valdemar Costa Neto continue tentando convencer Michelle a disputar uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal, pessoas próximas afirmam que ela ainda não tomou uma decisão. Entre aliados, cresce a avaliação de que permanecer fora da chapa pode fortalecer justamente o projeto político que Michelle começou a construir à frente do PL Mulher.

Sem uma campanha própria para conduzir, teria mais tempo para percorrer o país ao lado das candidatas que ajudou a formar, ampliar sua atuação junto às igrejas.