“Amanhã você amanhece morto”: Briga de deputados expõe racha no PL em Goiás

Discussão na Assembleia Legislativa acendeu alerta no partido e pode ampliar dificuldades nas eleições em cenário já considerado adverso

Agência O Globo

Gustavo Gayer, deputado federal pelo PL de Santa Catarina (Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados)
Gustavo Gayer, deputado federal pelo PL de Santa Catarina (Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados)

Publicidade

Marcado por rachas internos desde 2024, o diretório do PL em Goiás enfrenta dificuldades para fortalecer sua chapa majoritária na disputa das eleições deste ano. Um dos principais motivos é o distanciamento entre os principais nomes do partido no estado: o senador Wilder Morais, pré-candidato ao governo e presidente do núcleo local, e o deputado federal Gustavo Gayer, pré-candidato ao Senado. Além disso, na última quinta-feira (7), os deputados estaduais Major Araújo e Amauri Ribeiro protagonizaram uma briga no plenário da Assembleia Legislativa de Goiás, em discussão que terminou com ameaça de morte.

A rixa entre os deputados goianos ganhou força ao longo das últimas semanas, em embates crescentes no plenário estadual. Em sessão no dia 30 de abril, Amauri criticou o fato de Wilder não ter votado na sabatina do ministro Jorge Messias (AGU) ao Supremo Tribunal Federal (STF), o que definiu como uma “vergonha”.

Em sessão posterior, no dia 6 de maio, Major Araújo rebateu o correligionário, e chamou “má-fé” tentar “induzir” os eleitores sobre um possível prejuízo com a ausência do voto do senador. Ele apontou a proximidade de Amauri, que acompanhava a sessão de forma virtual, com o grupo do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD):

— O senhor está atacando o presidente do partido para fazer favor eu sei para quem. O senhor é aliado do (governador) Daniel Vilela, do Caiado, e quer continuar aliado e favorecendo a candidatura deles. Quer manchar o nome de quem está dirigindo o partido — discursou o deputado. — Ou fica no PL, e se comporta como direita de verdade, ou sai — completou.

No dia seguinte, Amauri chamou o colega de “burro”, e alegou já ter se resolvido com Wilder. Ele justificou a proximidade com Vilela por “não se tornar inimigo” de pessoas que já foi próximo, além de pedir para o deputado “ser macho” para provar as acusações.

— As minhas ideias não mudam independentemente do partido que eu esteja. Diferentemente do senhor, tenho caráter e princípios. O senhor disse também que eu me vendi ao longo da minha carreira política. Busque, prove, seja macho e prove — reagiu Amauri.

Continua depois da publicidade

Logo em seguida, ao discursar, Araújo disse que Amauri “está conspirando contra porque está sendo bem pago”, e frisou que “atacar Wilder Morais é ajudar o Vilela”. Nesse momento, ambos passaram a trocar xingamentos, e a sessão foi encerrada:

— Põe a mão em mim para você ver! Amanhã você amanhece morto. Vagabundo, safado — atacou Major Araújo.

Ao GLOBO, Amauri avaliou que está sendo atacado porque Araújo “está com medo de perder as eleições” para ele, e afirmou que “os problemas no PL foram superados” para focar na eleição Wilder. Já Araújo, ao contrário, disse que “não houve qualquer deliberação partidária ou institucional por parte do PL ou da Assembleia Legislativa acerca do episódio”.

Wilder e Gayer

Já o descompasso entre Wilder e Gayer ocorre em meio ao cenário adverso enfrentado pelos parlamentares na corrida eleitoral. Segundo a última divulgação da pesquisa Genial/Quaest, ambos encontram dificuldades de ganhar tração e aparecem atrás de seus principais adversários em intenções de voto, o que, segundo a avaliação de membros do partido, também é reflexo da ausência de unidade na sigla.

O afastamento foi evidenciado em eventos distintos. O mais recente foi o “Acorda, Goiás”, no início de abril, realizado em Goiânia sob organização de Gayer. O movimento bolsonarista reuniu nomes como os deputados federais André Fernandes (PL-CE), Nikolas Ferreira (PL-MG) e Carlos Jordy (PL-RJ), além de prefeitos e lideranças locais como Ismael Alexandrino (PSD-GO) e Magda Moffato (PL-GO), mas Wilder sequer foi convidado.

Continua depois da publicidade

A justificativa para a ausência do senador por parte da organização foi o caráter “suprapartidário” do movimento, embora tenha sido repercutido nas redes sociais no PL Nacional. Contudo, na página oficial do diretório goiano, o evento não recebeu menções.

O PL em Goiás preferiu dar espaço às edições do evento comandado por Wilder, o Rota 22, que também ocorre em diversas partes do país com o objetivo de “aproximar o partido do povo”. O mais recente ocorreu em Anápolis, maior prefeitura sob gestão do partido no estado.

Além de Gayer, o prefeito Márcio Corrêa (PL), no entanto, aliado do deputado e do governador Daniel Vilela (MDB), não compareceu. Nesta terça-feira, Corrêa chamou o parlamentar de “meu senador” em comentário publicado nas redes sociais, embora não manifeste apoio a Wilder na corrida pelo Palácio das Esmeraldas.

Continua depois da publicidade

— Existe um foco grande de trabalho, de todo mundo, para que essa união aconteça. Embora tenha começado mais distante, o caminho está sendo para que haja uma união — pondera Major Vitor Hugo (PL), vereador mais votado de Goiânia, ao GLOBO. — Eu torço para que o partido se una o máximo possível para contribuir com o mais importante, que é a eleição do Flávio Bolsonaro (à Presidência da República pelo PL) — completou.

Procurados pelo GLOBO, Wilder e Gayer não responderam.

Sinal de alerta

Continua depois da publicidade

O próximo evento do PL no estado será no dia 23 de maio, em Goiânia, e deve contar com a presença do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A previsão é que ocorra o lançamento conjunto da chapa de Wilder e Gayer, que também terá Ana Paula Rezende (PL), filha do ex-governador e ex-ministro Iris Rezende, como pré-candidata a vice-governadora. A outra vaga ao Senado, no momento, conta com a pré-candidatura do vereador Oséias Varão (PL).

A última Genial/Quaest acendeu um alerta no partido. Em meio aos embates internos, Wilder aparece somente na quarta posição (9%) em um eventual primeiro turno ao governo, atrás da deputada Adriana Accorsi, do PT (10%); do ex-governador Marconi Perillo, do PSDB (21%); e o atual governador Daniel Vilela, do MDB (34%).

Já no Senado, Caiado lançou quatro nomes: Gracinha Caiado (União), Vanderlan Cardoso (PSD), Dr. Zacharias Calil (MDB) e Alexandre Baldy (PP). Com exceção de Baldy, todos aparecem à frente de Gayer nas intenções de voto até o momento, embora a disputa esteja dentro da margem de erro.

Continua depois da publicidade