Equivalente geopolítico

2018 pode trazer um desastroso evento que rivalizaria com a crise de 2008, alerta Eurasia

Segundo a consultoria, que listou os 10 maiores riscos para o ano, a (des)ordem geopolítica poderia produzir um impacto "equivalente ao colapso financeiro de 2008"

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SÃO PAULO –  Por mais um ano, a consultoria de risco Eurasia Group destacou em relatório, divulgado nesta terça-feira (2), quais são os maiores riscos para o mundo. De acordo com o presidente da consultoria de risco Ian Bremmer e com o chairman Cliff Kupchan, o aumento do domínio chinês deve ser observado com atenção, assim como o risco de conflitos e até de uma guerra cibernética.

Quer saber quais são as perspectivas para esse ano? Confira o guia Onde Investir 2018. Para ver o nosso conteúdo completo, clique aqui.

Já sobre a América Latina, um tópico é reservado especialmente para o México, enquanto o Brasil foi citado de passagem apenas duas vezes – na primeira ao falar sobre uma possível “guerra fria” tecnológica entre grandes nações (e de que lado estaria o País) e na segunda sobre as erosões de instituições.

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E, no relatório para destacar os principais riscos para o mundo, a Eurasia foi enfática ao destacar que o mundo está se movendo em direção à crise e um estado de “depressão geopolítica” em um momento em que a presidência de Donald Trump nos EUA acelera as divisões entre os cidadãos e o desmantelamento da ordem global. 

Segundo a consultoria, as democracias liberais sofrem atualmente de um déficit de legitimidade não visto desde a Segunda Guerra Mundial e os líderes de hoje abandonaram em grande parte a sociedade civil e os valores comuns. Para a Eurasia, a quebra das normas abre a porta para um evento importante que poderia acertar em cheio a economia e os mercados globais.

“Desde que criamos a Eurasia, há 20 anos, o ambiente global teve seus altos e baixos. Mas, se tivéssemos de escolher um ano para uma grande crise inesperada – o equivalente geopolítico da crise financeira de 2008 – esse ano parece ser 2018” de acordo com Bremmer e Kupchan.

A Eurasia aponta que “a filosofia de Trump de destruição e do unilateralismo semeia confusão entre aliados e rivais”, diz Eurasia Group, que aponta que “o mundo agora não tem liderança para orientá-lo nessa crise iminente”.

E é assim, com destaque para esse alerta, que a Eurasia aponta os 10 maiores riscos mundiais para 2018:

 1. De olho na China

Em um momento classificado pela Eurasia como de incoerência política e de disfunção em Washington, o governo da China mostrou atitudes ao redefinir o seu papel no ambiente externo, também estabelecendo novas regras internamente e desenvolvendo uma estratégia de investimento e comércio global mais efetiva com o resto do mundo, usando empresas de tecnologia chinesas para promover os interesses do Estado.

Assim, Pequim investe e amplia a sua influência através de uma promissora não-interferência na vida política e econômica de outros países, que agora são mais propensos a se alinhar e a imitar a China.

“O ambiente empresarial global deve se adaptar a novos conjuntos de regras, padrões e práticas. Enquanto isso, o conflito entre os EUA e a China, particularmente no comércio, será mais provável em 2018”, avaliam os consultores.

2. “Acidentes”

Sim, esse é um grande risco para 2018, com a Eurasia usando esse termo para se referir a conflitos internacionais. A consultoria lembra que não houve uma grande crise geopolítica desde o 11 de setembro e nenhuma criada pelos governos desde a crise dos mísseis cubanos. Mas agora há muitos lugares em que um erro de cálculo ou julgamento pode provocar graves conflitos internacionais.

O risco mais provável vem da concorrência de um conflito cibernético, a tensão na Coréia do Norte, os conflitos no campo de batalha na Síria, a crescente tensão entre Rússia e os EUA e a dispersão de combatentes do Estado islâmico da Síria e do Iraque.

3. Guerra fria tecnológica

A maior luta do mundo relacionada ao poderio econômico se baseia no desenvolvimento de novas tecnologias de informação. Os EUA e a China competirão para dominar a inteligência artificial e a “supercomputação”, e irão se esforçar para dominar o mercado na África, na Índia, no Brasil e mesmo na Europa, onde os governos devem decidir em quem confiar e, consequentemente, que produtos e padrões aceitarão. 

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“A fragmentação dos bens móveis de tecnologia cria risco de mercado e de segurança, particularmente porque as empresas nacionais combatem vírus globais”, apontam os consultores.

4. México

Enquanto o Brasil é citado discretamente na lista de riscos globais, o México, que também enfrentará eleições no ano que vem, ganhou um tópico especial sobre os riscos. “2018 será um momento decisivo para o México, uma vez que a renegociação do NAFTA vem à tona e os eleitores escolhem um novo presidente. O colapso das negociações do NAFTA não mataria o acordo, mas a incerteza sobre o futuro prejudicaria desproporcionalmente a economia mexicana, dada a profunda dependência do país no comércio dos EUA”, aponta a Eurasia.

Além disso, os analistas apontam que a raiva pública sobre o atual governo está alta graças a casos de corrupção de nomes importantes na política, além da situação sobre o tráfico e também por conta do do crescimento lento. A demanda por mudanças favorece Andrés Manuel Lopez Obrador, que representa uma ruptura fundamental com as políticas econômicas favoráveis ??aos investidores nos últimos anos, particularmente para o setor de energia.

5. Relação entre EUA e Irã

O acordo nuclear do Irã provavelmente sobreviverá a 2018, mas há uma chance substancial de que haja mais problemas sobre o assunto, aponta a Eurasia. Vale lembrar que Donald Trump decidiu em outubro não validar o pacto nuclear com o Irã, e deixou o futuro do acordo nas mãos do Congresso.

Segundo a Eurasia, se o acordo nuclear falhar, o Irã impulsionará o seu programa nuclear e a ameaça de ataques nos EUA e/ ou em Israel aumentará novamente a região, elevando os preços do petróleo.

6. A erosão das instituições

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As instituições que apoiam e sustentam sociedades pacíficas e prósperas – governos, partidos políticos, tribunais, meios de comunicação e instituições financeiras – continuam a perder a credibilidade pública. E é da credibilidade que depende a sua legitimidade.

“Em 2018, o populismo aparente no voto de Brexit e as eleições de Trump criaram um populismo tóxico e antiestablishment nos países em desenvolvimento. A turbulência política resultante e a mudança para o autoritarismo em alguns países, tornarão as políticas econômica e de segurança menos previsíveis”, avalia a consultoria, que cita o Brasil como um dos casos em que isso pode acontecer. 

7. Protecionismo 2.0

Esse fator se relaciona ao item anterior. Segundo a Eurasia, o aumento dos movimentos antiestablishment nos mercados desenvolvidos forçou (em alguns casos, habilitou) os políticos a mudarem a sua abordagem e apontarem que o comércio é um jogo de “soma zero” e agir como se estivessem fazendo algo sobre os “empregos perdidos”.

“Como resultado, as paredes estão subindo”, aponta a Eurasia. Segundo a consultoria, o protecionismo 2.0 cria barreiras na economia digital e nas indústrias intensivas em inovação, não apenas na indústria e na agricultura. As barreiras incluem medidas “atrasadas”, tais como subsídios e cotas de “conteúdo nacional”. 

8. Reino Unido

A Grã-Bretanha enfrenta as negociações de Brexit e o risco de turbulências políticas domésticas. Com relação ao Brexit, o princípio de que “nada está acordado até que tudo esteja de acordo” incentivará intermináveis ??lutas sobre os detalhes entre os dois lados da disputa.

Sobre a política doméstica, o gerenciamento da Brexit pode custar o emprego da primeira-ministra Theresa May.  Se assim for, provavelmente ela será substituída por uma figura mais dura, complicando significativamente as negociações do Artigo 50 (que estabelece a “cláusula de retirada” da União Europeia). Uma alternativa é o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, poder substituí-la depois de novas eleições, criando riscos para as negociações do Artigo 50 e também para a política econômica doméstica.

9. Políticas de identidade no sul da Ásia

A política de maior identidade no sul da Ásia emerge de várias formas: o islamismo, o sentimento anti-chinês e anti-minoritário, e um nacionalismo intenso na Índia.

“O islamismo em partes do Sudeste Asiático alimenta formas locais de populismo, mais proeminentes na Indonésia e na Malásia. O ressentimento dos chineses étnicos, que detêm uma proporção desproporcional de riqueza em vários países, teve uma forte reação recentemente, particularmente na Indonésia. A perseguição da minoria muçulmana Rohingya de Myanmar desencadeou uma crise humanitária. Na Índia, o risco é que o uso pelo primeiro-ministro Narendra Modi do nacionalismo hindu para consolidar o apoio antes das eleições de 2019 poderia influenciar os elementos radicalizados da sociedade que querem atingir muçulmanos e hindus de castas inferiores”, afirma a consultoria.

10. A segurança da África

Em 2018, o “espalhamento” da instabilidade de países periféricos e instáveis do continente, como Mali, Sudão do Sul e Somália, afetará os países principais de África, como Costa do Marfim, Nigéria, Quênia, Etiópia.

As principais ameaças provêm da militância e do terrorismo. “Os perigos colocados por Al Shabaab na África Oriental e Al Qaeda na África Ocidental não são novos, mas é provável que se intensifiquem. Os parceiros estrangeiros que ajudaram a estabilizar os governos fracos no passado estão distraídos. O Quênia, a Nigéria, o Uganda e a Etiópia enfrentam maiores custos de segurança em um momento em que seus governos precisam reduzir os gastos e os ataques prejudicam o sentimento dos investidores estrangeiros”, apontam os analistas políticos.

Parece risco, mas não é…

A Eurasia tambem sempre aponta todos os anos alguns temas que “parecem ser riscos relevantes”, mas que na verdade não são, os chamados “red herrings”. Para 2018, os analistas apontam que um cenário em que Trump perderia apoio e sua gestão fosse sitiada teria um impacto limitado para que houvesse políticas desestabilizadoras. Ao lado desse cenário, está o conflito político da Venezuela, que parece “congelado no momento, uma vez que o presidente Nicolás Maduro se mostra surpreendentemente resiliente”, conclui a consultoria.