Tarcísio de Freitas (Republicanos) chegou à sua primeira disputa eleitoral como um nome praticamente desconhecido do eleitorado paulista. Carioca, engenheiro militar e ex-ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro, foi escolhido em 2022 para liderar a candidatura do então presidente ao governo de São Paulo.
Quatro anos depois, disputa a reeleição como um dos principais nomes da direita nacional e com níveis de aprovação que sustentam sua posição no Palácio dos Bandeirantes. Levantamento do Datafolha indica que 63% dos eleitores aprovam sua gestão.
Apesar do desempenho positivo na aprovação, a percepção sobre entregas é mais dividida. Para 46% dos entrevistados, o governador fez menos do que poderia no primeiro mandato. Segurança pública e saúde aparecem como as principais preocupações da população, mesmo com a agenda de infraestrutura, concessões e privatizações no centro da gestão.
Aos 51 anos, Tarcísio tenta consolidar a imagem de gestor técnico, construída ao longo da carreira no governo federal e reforçada em São Paulo. A principal marca de sua administração foi a privatização da Sabesp, concluída em 2024. O Estado manteve participação minoritária e poder de veto em decisões estratégicas.
A operação foi defendida pelo governo como essencial para acelerar a universalização do saneamento até 2029 e viabilizar cerca de R$ 66 bilhões em investimentos. A medida, no entanto, enfrentou resistência de sindicatos, movimentos sociais e partidos de oposição, que questionaram impactos sobre tarifas e qualidade do serviço.
Formação militar e trajetória no setor público
Nascido no Rio de Janeiro em 19 de junho de 1975, Tarcísio Gomes de Freitas ingressou na carreira militar, formando-se em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras. Depois, graduou-se em Engenharia Civil pelo Instituto Militar de Engenharia.
Também acumulou especializações em gestão de projetos e engenharia de transportes, além de ter participado de missão de paz da ONU no Haiti entre 2005 e 2006.
Em 2008, deixou o Exército como capitão e ingressou na Controladoria-Geral da União. A ascensão a cargos de maior relevância ocorreu no governo Dilma Rousseff, quando assumiu a diretoria-executiva do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes Dnit.
Posteriormente, atuou como secretário do Programa de Parcerias de Investimentos no governo Michel Temer, experiência que o aproximou de projetos de concessões e privatizações.
Ministério da Infraestrutura e projeção nacional
Com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, Tarcísio foi convidado para comandar o Ministério da Infraestrutura, mesmo sem filiação partidária. À frente da pasta, ganhou projeção nacional ao liderar uma ampla agenda de concessões. Durante sua gestão, mais de 80 ativos foram leiloados, incluindo aeroportos, portos, ferrovias e rodovias, com previsão de mais de R$ 100 bilhões em investimentos privados.
O ritmo acelerado de leilões lhe rendeu apelidos como “Tarcisão do Asfalto”, em referência à atuação em obras e infraestrutura. Ao mesmo tempo, sua gestão também enfrentou críticas sobre a qualidade das rodovias federais, que apresentaram piora em avaliações técnicas no período.
Mesmo alinhado ao governo Bolsonaro, Tarcísio buscou construir uma imagem mais pragmática. Durante a pandemia, defendeu a vacinação contra a Covid-19, em contraste com posições do então presidente.
A entrada na política eleitoral
A candidatura ao governo de São Paulo em 2022 foi uma escolha direta de Jair Bolsonaro, que buscava um nome competitivo no maior colégio eleitoral do país.
Inicialmente resistente, Tarcísio avaliava que sua origem fora de São Paulo e a força do PSDB no interior poderiam dificultar sua viabilidade eleitoral. A polarização nacional, no entanto, mudou o cenário.
No primeiro turno, recebeu 9,8 milhões de votos e terminou à frente de Fernando Haddad PT. No segundo turno, venceu com 55,27% dos votos válidos, encerrando quase três décadas de domínio tucano no estado. A vitória consolidou sua posição como um dos principais nomes da direita e potencial sucessor político de Bolsonaro.
Privatizações, obras e modelo de gestão
No governo paulista, Tarcísio manteve a estratégia de ampliar a participação privada em serviços públicos. Além da Sabesp, avançou em concessões de rodovias, ferrovias e projetos de mobilidade urbana. Entre os principais projetos está a concessão do trecho norte do Rodoanel, com investimentos estimados em R$ 3,4 bilhões, além da continuidade de obras como a Linha 6-Laranja do metrô.
O governo também afirma ter retomado ou concluído milhares de obras e recuperado cerca de 6,5 mil quilômetros de rodovias no primeiro ano de gestão.
Outra iniciativa em andamento é a transferência da sede administrativa do governo para a região central de São Paulo, com o objetivo de requalificar a área dos Campos Elíseos.
Segurança pública e aumento da letalidade
A segurança pública se tornou um dos principais eixos — e também um dos pontos mais controversos — da gestão. O governo adotou uma política mais dura no enfrentamento ao crime organizado e flexibilizou regras sobre o uso de câmeras corporais por policiais militares.
Dados do Ministério Público indicam aumento expressivo da letalidade policial no estado. O número de mortes provocadas por policiais quase dobrou entre 2022 e 2024, passando de 355 para 702 casos. Em 2025, a tendência de alta continuou, com registros acima do período anterior. Em parte das cidades paulistas, forças policiais passaram a responder por uma parcela relevante das mortes violentas.
O governo argumenta que as ações são necessárias para conter o avanço de facções criminosas e proteger agentes de segurança. Já entidades de direitos humanos cobram maior controle e transparência nas operações.
Relação com Bolsonaro e cenário político
Mesmo no comando do governo paulista, Tarcísio mantém forte ligação política com Jair Bolsonaro, embora adote postura mais moderada em temas institucionais e econômicos, principalmente no apoio do sucessor do ex-presidente, o senador e candidato ao Planalto, Flávio Bolsonaro (PL).
Sua capacidade de dialogar com diferentes setores — do empresariado a partidos de centro — ajudou a consolidar sua imagem de gestor e alimentou especulações sobre uma possível candidatura presidencial em 2026. O governador, no entanto, afirma que seu foco é a reeleição em São Paulo.
A estratégia eleitoral combina a associação com o bolsonarismo e a defesa de resultados administrativos, repetindo a fórmula que o levou à vitória em 2022.
Agora, com maior conhecimento do eleitorado paulista, Tarcísio entra na disputa buscando transformar aprovação em continuidade de mandato — enquanto a oposição tenta explorar desafios em áreas como saúde, segurança e percepção de entrega do governo.