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Salim Mattar: o empresário que criou um império com locação de veículos no Brasil e saiu do governo de Bolsonaro fazendo barulho

Conheça a história do empresário brasileiro que queria ser pianista e é um dos patrocinadores do pensamento liberal no Brasil

Salim Mattar
(Crédito Washington Alves/ Agência Estado)
Nome completo:José Salim Mattar Junior
Ocupação:Empresário e co-fundador da Localiza
Local de nascimento:Oliveira, Minas Gerais
Data de nascimento:28 de novembro de 1948
Fortuna: R$ 1 bilhão (junto com seu irmão e sócio, Eugênio Pacelli Mattar, segundo estimativa da Forbes de 2016)

Quem é Salim Mattar

José Salim Mattar Júnior tinha o sonho de ser pianista, mas seu pai o dissuadiu da ideia com uma bronca pública e uma lição que o menino, então com sete anos, levou para o resto da vida.

Descendente de libaneses, Salim cresceu com a ideia de que deveria abrir seu próprio negócio. E ele faria isso em 1973, com o apoio de um sócio que o acompanharia pelo resto da vida: Antônio Cláudio Brandão Resende.

Os dois fundaram a Localiza (RENT3), empresa de aluguel de automóveis, trazendo seus respectivos irmãos, Eugênio Pacelli Mattar e Flávio Brandão Resende, para o negócio pouco tempo depois.

Da frota composta por seis fuscas usados na fundação, a Localiza cresceu para se tornar a maior empresa de aluguel de carros da América Latina, com 241.219 automóveis disponíveis para locação, no primeiro trimestre de 2020. A companhia ainda deu origem a outras três empresas: a Localiza Gestão de Frotas, a Localiza Franchising e a Localiza Seminovos.

Em 2018, Salim Mattar, conselheiro do Instituto Millenium, uma organização de divulgação do liberalismo, deixou a presidência da empresa que fundou para entrar no governo federal. Ele aceitou o convite do ministro da Economia, Paulo Guedes, para chefiar a Secretaria Geral de Desestatização, com a função de privatizar quase 700 empresas estatais, entre elas os Correios e a Telebras.

Com a pandemia do coronavírus, a agenda de desestatização que estava prevista para deslanchar em 2020 acabou paralisada. Com o desgaste, Salim Mattar pediu demissão ao ministro Paulo Guedes em 11 de agosto, encerrando, ao menos por enquanto, sua carreira na vida pública.

Família e formação

Nascido em 28 de novembro de 1948, em Oliveira, uma cidade mineira a 160 quilômetros de Belo Horizonte, com 40 mil habitantes, o jovem José Salim Mattar Júnior era um dos filhos do meio de uma família de 11 irmãos, incluindo dois de criação.

De origem libanesa, a família numerosa tinha um pequeno ritual para que os filhos pudessem fazer pedidos ao pai. “Era o momento de falar ‘eu preciso de um par de sapatos’, ‘o fulano me bateu’… Tudo que precisava, ia falar com o pai naquele momento”, contou Salim em uma apresentação na Endeavor, organização de apoio ao empreendedorismo, que chegou ao Brasil com apoio de Beto Sicupira.

Em um sábado, Salim, que era chamado de Zé e tinha cerca de 7 anos, estava no meio da fila, preparando seu discurso para o pai. Nas últimas semanas, ele tinha ido acompanhar um amigo em suas aulas de piano e, encantado, havia decidido que seria pianista. Quando chegou sua vez, o então pequeno Zé sentou-se no colo do seu pai e disse que queria estudar piano.

Zé sentiu a mão do pai apertando seu braço e entendeu que tinha falado alguma coisa errada. Tentou sair do colo do pai, mas ele não deixou e pediu que o filho repetisse em voz alta para que todos pudessem ouvir. “Eu quero estudar piano”, disse, acanhado.

Seu pai respondeu, pedindo a atenção de todos: “Ninguém nessa casa vai estudar piano. E você, Zé, vai usar a cabeça, vai estudar, vai abrir um comércio para você, vai ganhar dinheiro, comprar uma casa e vai comprar a maior radiola que tiver e todos os discos de todos os pianistas que existirem. Ok?”, contou Mattar em 2016.

Apesar de acabar com um ponto de interrogação, a resposta do pai não era uma pergunta. E Salim sabia disso. Ele entendeu o episódio como reflexo da preocupação do pai com seu futuro. Não era à toa. Seu avô tinha vindo do Líbano com 14 anos e seis dólares no bolso, mas conseguiu construir seu negócio e sua família.

A partir desse momento, seu pai passou a perguntar quase todos os dias: “O que você vai fazer quando crescer?”. O menino, obediente, respondia: “Vou abrir um negócio para mim”.

Salim chegou a ser acordado de madrugada e chamado no meio de um jogo de futebol para responder a mesma pergunta. A rotina se manteve até os seus 13 anos, quando seu pai acabou falecendo em um acidente.

Carreira e a trajetória para seu negócio

Aos 17 anos, Salim seguiu os passos de muitos outros jovens de sua cidade e se mudou para Belo Horizonte em busca de trabalho.

Ele saiu de casa com duas possibilidades: trabalhar em um banco ou em uma empresa de engenharia com 28 funcionários. Inspirado com a história dos donos do negócio, dois estagiários da Usiminas que começaram uma construtora, Salim decidiu entrar na pequena empresa e correr o risco.

Como office boy, recebeu do seu chefe, o contador da companhia, um cheque e a missão de ir a uma locadora de carros para fazer um pagamento. Era a primeira vez que o rapaz ouvia falar em aluguel de carros.

Seguindo a orientação do chefe, fez o pagamento e foi conferir o recibo, que discriminava o valor de uma diária de aluguel de carro. Ele se assustou com o valor e fez um cálculo rápido de quanto dinheiro o aluguel de um veículo renderia em um ano. Entendeu rapidamente que aquele seria um mercado interessante para cumprir a “quase promessa” que havia feito ao pai de abrir um negócio.

Seus dias mais felizes no trabalho eram os dias de pagar à locadora. Conversava com os clientes, fazia amizade com os funcionários, passava horas observando a entrada e saída dos carros, o processo para o aluguel, o check-up dos automóveis.

Dos 17 aos 22 anos, Salim trabalhou e cresceu com a construtora (que chegou a ter 6 mil funcionários), até se tornar gerente. Mas como estava em uma empresa familiar, entendeu que dificilmente faria parte do processo de sucessão. Então, decidiu ir trabalhar na rede de supermercados Epa, também fundada por um empreendedor que começou com uma mercearia na garagem de sua casa. Mas Salim não ficaria lá por muito tempo.

Salim Mattar
(Crédito: Washington Alves/ Agência Estado)

Fundação da Localiza

Em 1973, o mundo vivia uma crise no setor de petróleo. Os países árabes, organizados na Opep, aumentaram o preço do combustível em mais de 300%, em retaliação ao apoio dos Estados Unidos a Israel durante a Guerra do Yom Kipur.

Em março de 1974, o preço nominal do barril subiu de 3 para 12 dólares. Foi com esse panorama que Salim decidiu começar seu negócio.

Mas, como bom menino do interior, foi perguntar aos familiares o que achavam da ideia. Seus parentes e até sua namorada da época tentaram dissuadi-lo da ideia, afirmando que seria uma loucura começar um negócio de aluguel de carro quando corria-se o risco de não haver mais gasolina. Apenas uma pessoa comprou a ideia: Antônio Cláudio Brandão Resende, que entrou como sócio de Salim no negócio.

A Localiza, um nome pensado para ser fácil de se pronunciar em outras línguas, começou a funcionar em 1973 com seis fuscas usados – que custavam o mesmo que cinco fuscas novos – , comprados a crédito, financiados por seis financeiras diferentes.

A empresa passou pela crise do petróleo e cresceu para se tornar a líder do setor em Belo Horizonte. Mas a estrada foi cheia de obstáculos.

Os sócios trabalhavam juntos em tudo: dirigindo, consertando e até lavando os carros. Não era incomum que fossem de terno para a faculdade de administração porque precisavam levar uma noiva para o casamento depois da aula com um dos veículos da empresa. Também era frequente que um deles dormisse no escritório para conseguir oferecer locação 24 horas.

O irmão de Salim, Eugênio Pacelli Mattar, e o irmão de seu sócio, Flávio Brandão Resende, entrariam no negócio pouco tempo depois.

Em 1979, a Localiza já tinha seu plano de expansão traçado, com a compra de uma locadora em Vitória, no Espírito Santo. Mas então veio mais um choque do petróleo. Mais uma vez, amigos aconselharam Salim e seu sócio a desistirem da expansão. Mas a dupla manteve a estratégia – que se provou acertada.

Nos anos seguintes, a rede se expandiu com a aquisição de pequenos concorrentes pelo país. Em 1981, a Localiza já era líder nacional, presente em 11 capitais – mas ainda não tinha colocado os pés em São Paulo e no Rio de Janeiro. “Tomamos a sopa pela borda, quando chegamos no Rio e em São Paulo, já éramos líderes”, explicou o mineiro Salim.

Em 1984, a Localiza abriu franquias, dando início a um processo de expansão mais rápido e robusto, o que ampliou ainda mais sua presença no mercado.

Seis anos depois, transformou um problema em oportunidade, criando a Localiza Seminovos. Comprando os carros direto na fábrica, a Localiza tinha 25% de desconto. Assim, quando os vendesse, podia colocar o preço médio do mercado que ainda teria lucro. Como a locadora precisava renovar frequentemente sua frota, para reduzir custos com manutenção e manter sua reputação com os clientes, a empresa se desfazia de sua frota com frequência e acabava pagando caro a intermediários para fazer a venda.

Eliminando os intermediários, a Localiza criou um negócio novo que, em 2020, contava com 124 lojas próprias e vendeu, só em 2019, 147.915 veículos, o que o tornou a maior revenda de carros da América Latina.

Em 1997, com a necessidade de capitalizar a empresa, a Localiza estava prestes a fazer uma operação de private equity com um fundo americano, que investiria US$ 50 milhões em troca de um terço das ações da companhia. Mas, mais uma vez, antes de fechar o negócio, Salim foi ouvir a opinião de amigos empresários. De novo, ouviu que não deveria seguir adiante.

Quase convencido a desistir do negócio, Salim fez uma conta de “libanês”: depois de mais de 20 anos de negócio, a empresa havia acumulado um patrimônio de US$ 40 milhões. Assim, ele ganharia em “um dia” mais do que havia conseguido em mais de 20 anos.

Capitalizado, foi o momento de criar uma nova companhia, a Localiza Gestão de Frotas, uma divisão de negócios especializada no aluguel, gerenciamento e terceirização de frotas de empresas.

Em 2005, a empresa deu outro passo importante: abriu seu capital e recebeu R$ 184 milhões no IPO na Bolsa de São Paulo.

Dois anos mais tarde, a Localiza (RENT3) seguiu um rumo diferente, comprando a subsidiária brasileira da americana Hertz, por R$ 337 milhões. A negociação foi aprovada pelo Cade e deu origem a uma parceria que iria durar 20 anos.

Com o negócio, a brasileira adotou em suas agências o nome Localiza Hertz, ampliando a rede de atendimento para mais de 10 mil agências, em 2 mil cidades de 150 países. Em 2020, a Localiza é avaliada em quase R$ 40 bilhões.

Salim Mattar seguiu como presidente da companhia até 2013, quando deixou seu irmão, Eugênio, na direção e ficou com o comando do Conselho de Administração até o final de 2018.

No ano seguinte, com a posse de Jair Bolsonaro, Salir Mattar assumiu a chefia da Secretaria de Desestatização e Desinvestimento.

O rumo político

Salim Mattar é um dos maiores patrocinadores do pensamento liberal econômico no Brasil.

Ele conheceu o liberalismo quando tinha 16 anos e era um estudante na sua terra natal. Um professor do cursinho noturno de contabilidade passou como lição de casa a leitura de A Riqueza das Nações, de Adam Smith. O segundo contato veio no ano seguinte, quando conheceu a obra do economista austríaco Friedrich Hayek. Entusiasmado, Salim tomou para si a missão de disseminar as ideias liberais pelo Brasil.

Na década de 1980, ele financiou a tradução do livro a Revolta de Atlas, obra de ficção que virou um manifesto do pensamento liberal em todo o mundo, e foi um dos fundadores do Instituto Liberal. Em 2000, foi um dos fundadores do Instituto Millenium, uma think tank do liberalismo econômico.

Mais tarde, bancou o projeto “Liberdade na Estrada”, do Instituto Ordem Livre, que promoveu palestras com intelectuais liberais de direita em universidades espalhadas por todo o país.

Na política, Salim costuma ter voz ativa publicamente, em meio a um empresariado brasileiro que normalmente prefere ficar nos bastidores.

Em 2002, a Localiza doou R$ 315 mil à primeira campanha de Aécio Neves ao governo de Minas. Nas eleições de 2014, Salim chegou a gravar um vídeo de apoio a Aécio e doou R$ 1,5 milhão para a direção nacional do PSDB e mais R$ 45 mil para a do DEM. Outros R$ 205 mil foram destinados a quatro candidatos do DEM, PP e PSDB.

Nas eleições de 2016, foi convidado para se candidatar ao cargo de prefeito de Belo Horizonte, pelo Partido Novo, recém criado. Recusou o convite, mas passou a atuar como um “conselheiro” da sigla.

Nas eleições seguintes, de 2018, Salim foi o maior doador do partido e chegou a ser cotado para candidatar-se ao governo de Minas Gerais, mas se recusou, porque sua empresa passava por um momento de transição.

Quem assumiu a vaga foi Romeu Zema, que seria eleito governador, que recebeu doação de R$ 700 mil de Mattar para a campanha e ainda contou com seu apoio para conversar com outros empresários e arrecadar mais.

Ainda nas últimas eleições, Mattar se destacou como o quarto maior doador de campanha.

Foram mais de R$ 2,8 milhões para 30 candidaturas dos seguintes partidos: Novo (R$ 1,4 milhão), DEM (R$ 650 mil), PSDB (R$ 500 mil), PSB (R$ 100 mil), DC (R$ 50 mil), PTB (R$ 50 mil), PSC (R$ 50 mil), PHS (R$ 25 mil) e PSL (R$ 20 mil). Entre os 30 contemplados pelas doações estão Kim Kataguiri (DEM) e membros do governo Bolsonaro como o ministros da Cidadania, Onyx Lorenzoni (DEM), e do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Novo) – e os relatores da reforma trabalhista na Câmara, Rogério Marinho (PSDB), e no Senado, Ricardo Ferraço (PSDB) e o presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM).

O convite para integrar o governo

Salim conhece Paulo Guedes desde a década de 1990. Cofundador do Pactual, o então banqueiro foi responsável pela abertura de capital da Localiza, em 2005. Logo em seguida, Salim convidou Guedes para integrar o Conselho de Administração da locadora, cargo que Guedes ocupou por três anos. Em 2018, seria a vez de Guedes fazer um convite.

Com a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, Paulo Guedes chamou Salim Mattar para assumir a Secretaria de Desestatização e Desinvestimento, com a missão de privatizar mais de 600 estatais.

Durante o período em que ficou à frente da secretaria, Salim constantemente reclamava em entrevistas sobre a lentidão dos processos de desestatizações. “O processo dura 11 meses no setor público. No setor privado, é possível vender uma empresa em 75 dias. Estamos buscando um atalho”, disse, em entrevista.

Os planos eram de arrecadar quase R$ 1 trilhão com as privatizações, reduções e vendendo a participação do BNDES e outros bancos públicos em empresas privadas.

Onyx Lorenzoni, Tarcisio Gomes de Freitas e Salim Mattar
Os ministros da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e o da Infraestrutura, Tarcisio Gomes de Freitas e o Secretário Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados, Salim Mattar, durante entrevista à imprensa no Palácio do Planalto. (Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil)

Mas Salim frustrou-se com a impossibilidade de privatizar as maiores estatais, como Banco do Brasil, Caixa Econômica, Petrobras (chamados de “jóias da Coroa”) e até mesmo os Correios – que precisam de uma lei específica para serem privatizados. Nem mesmo as três empresas que estavam em sua lista como prioridades, o Serpro, a Dataprev e a Casa da Moeda, puderam ser privatizadas.

Criticando o establishment político, Salim pediu para deixar o governo em 11 de agosto de 2020.

Outras rotas

Salim Mattar também possui ações e passou por cargos de direção em outra companhia: a Pottencial Seguradora.

Os irmãos Salim e Eugênio entraram na composição acionária da empresa em 2013 e levaram para a companhia o conhecimento de mercado para expansão.

Salim ocupava a presidência do conselho da Pottencial em 2018, quando aceitou o convite para integrar o governo e deixou o cargo.

Além da empreitada pelo setor de seguros, Salim também é sócio e administrador do Haras Sahara e acionista da Omni Táxi Aéreo.

Para saber mais