O Partido Novo oficializou nesta segunda-feira (27), em convenção nacional realizada em Brasília, a candidatura de Romeu Zema à Presidência da República. Empresário e ex-governador de Minas Gerais por dois mandatos, ele disputará o Palácio do Planalto pela primeira vez, após consolidar sua projeção nacional à frente do estado.
Aos 61 anos, Zema chega à eleição de 2026 defendendo uma plataforma liberal na economia, com redução do tamanho do Estado, privatizações e reformas administrativas. Nos últimos meses, também passou a investir em um discurso mais contundente contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e a tentar se apresentar como uma alternativa tanto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto ao senador Flávio Bolsonaro (PL).
Do Grupo Zema à política
Natural de Araxá, no Triângulo Mineiro, Romeu Zema Neto é formado em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Bisneto de Domingos Zema, fundador do Grupo Zema, construiu sua carreira no conglomerado familiar, que atua nos setores de varejo, concessionárias, distribuição de combustíveis e serviços financeiros.
Ele assumiu a administração do grupo no início da década de 1990 e permaneceu na empresa até decidir ingressar na política. Divorciado e pai de dois filhos, foi filiado durante quase duas décadas ao antigo PR, legenda que posteriormente deu origem ao atual PL, antes de migrar para o Novo, em 2018.
Vitória inesperada

Sem experiência em cargos eletivos, Zema estreou na política na eleição de 2018. Naquele ano, derrotou nomes tradicionais da política mineira, como o então governador Fernando Pimentel (PT) e o ex-governador Antonio Anastasia (PSDB), tornando-se governador de Minas Gerais.
Sua gestão ficou marcada pela defesa do ajuste fiscal, redução de despesas, privatizações e enxugamento da máquina pública. Em 2022, foi reeleito ainda no primeiro turno, resultado que ampliou seu protagonismo nacional e fortaleceu seu nome para a disputa presidencial.
Aliados costumam lembrar que, na campanha de 2018, Zema saiu de cerca de 3% das intenções de voto para vencer a eleição. O episódio é usado como argumento para sustentar que sua candidatura ainda pode crescer durante a campanha presidencial, apesar do desempenho discreto nas pesquisas nacionais até agora.
Distanciamento do bolsonarismo

Embora tenha apoiado Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022, Zema passou a adotar uma estratégia de maior independência em relação ao campo bolsonarista.
O movimento ficou mais evidente após as revelações envolvendo o Banco Master. Em maio, o ex-governador afirmou que as negociações entre Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro representavam “um tapa na cara do brasileiro” e disse que as explicações apresentadas pelo senador “não foram convincentes o suficiente”.
A declaração foi interpretada por aliados e adversários como uma tentativa de ocupar parte do eleitorado de direita descontente com o desempenho de Flávio Bolsonaro. O gesto, porém, provocou incômodo entre dirigentes do Novo em estados como Paraná e Santa Catarina, que mantêm alianças regionais com o PL.
Os adversários também passaram a explorar contradições da estratégia. Entre elas, a doação de R$ 1 milhão feita por Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, ao Novo durante a campanha de 2022. Outro ponto frequentemente citado é a concessão de incentivos fiscais à Eletrozema, empresa da família do ex-governador, enquanto ele ainda comandava Minas Gerais.
Críticas ao STF

Além de mirar o governo federal, Zema incorporou críticas ao Supremo Tribunal Federal como um dos pilares de sua campanha. O candidato afirma que o tribunal extrapolou suas funções constitucionais e defende mudanças estruturais na Corte. Em declarações recentes, classificou ministros como “intocáveis” e afirmou que alguns deles poderiam cair como “árvores podres”, em referência à necessidade de renovação do Supremo.
Entre as propostas defendidas pelo Novo estão o fim das decisões monocráticas, alterações nos critérios para indicação de ministros e regras mais flexíveis para abertura de processos de impeachment contra integrantes dos tribunais superiores.
Antes de concentrar críticas em Flávio Bolsonaro, Zema também direcionou ataques aos ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, após as revelações envolvendo o Banco Master.
Agenda liberal
Na economia, Zema mantém a plataforma que marcou sua passagem pelo governo mineiro. Entre as principais propostas estão privatizações, redução de gastos públicos, reforma administrativa, mudanças na Previdência e combate aos chamados supersalários do funcionalismo.
O ex-governador também afirma que pretende privatizar a Petrobras caso seja eleito. Sua proposta prevê transformar a estatal em uma corporation, modelo em que a empresa deixa de ter um controlador definido e passa a ter capital pulverizado entre diferentes acionistas. Segundo ele, a medida reduziria a influência política sobre a companhia.
Outra promessa é reformular programas sociais para incentivar a entrada dos beneficiários no mercado de trabalho.
Vice ainda indefinido
O Novo ainda não definiu quem será o candidato a vice-presidente na chapa.
Nos últimos dias, Zema confirmou que pretende conversar com o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa, nome cogitado pelo partido para compor a candidatura. A definição deverá ocorrer até o prazo final das convenções partidárias, em 5 de agosto.
A candidatura presidencial de Zema representa uma mudança de escala para um político que construiu sua imagem como gestor do setor privado e administrador estadual.
Nos últimos meses, o ex-governador intensificou viagens pelo país e passou a adotar um discurso mais combativo, em uma tentativa de ampliar sua presença no debate nacional e disputar espaço entre os dois principais polos da eleição.
Até agora, porém, esse movimento ainda não se refletiu nas pesquisas eleitorais. Mesmo após o desgaste enfrentado por Flávio Bolsonaro, Zema não conseguiu absorver parte desse eleitorado e segue buscando transformar a visibilidade conquistada em Minas Gerais em competitividade nacional.