Quando Renan Santos apareceu pela primeira vez no centro do debate político nacional, seu nome raramente ocupava os holofotes. Enquanto figuras como Kim Kataguiri se tornavam rostos conhecidos do Movimento Brasil Livre (MBL), ele preferia atuar nos bastidores, coordenando estratégias, organizando manifestações e estruturando o crescimento do grupo pelo país.
Mais de uma década depois, o articulador decidiu trocar os bastidores pela linha de frente. Aos 42 anos, Renan disputará pela primeira vez um cargo eletivo, como candidato à Presidência da República pelo Partido Missão.
A candidatura foi oficializada no início de julho, durante a convenção nacional da legenda. Renan também preside o partido, criado a partir da estrutura política construída pelo MBL e registrado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2025. O objetivo é ocupar um espaço que, segundo ele, não é representado nem pelo PT nem pelo bolsonarismo.
Natural da cidade de São Paulo, Renan Antônio dos Santos nasceu em 14 de fevereiro de 1984. Músico e ex-estudante de Direito da Universidade de São Paulo (USP), entrou para a política sem passar pelos caminhos tradicionais das disputas eleitorais. Sua trajetória começou nas ruas.
Estrategista por trás do MBL

Renan foi um dos fundadores do Movimento Brasil Livre em 2014, quando um grupo de jovens liberais passou a organizar manifestações contra o governo da então presidente Dilma Rousseff (PT).
Naquele momento, o MBL se apresentava como um movimento suprapartidário, defensor da Operação Lava Jato, da redução do tamanho do Estado e de pautas econômicas liberais. Rapidamente, tornou-se um dos principais articuladores dos protestos que culminaram no impeachment de Dilma, em 2016.
Enquanto Kataguiri se consolidava como principal porta-voz do grupo, Renan assumia a coordenação política e organizacional. Coube a ele estruturar diretórios, mobilizar apoiadores e desenhar campanhas que transformaram o MBL em uma das organizações políticas mais influentes da direita na década passada. O movimento também serviu como plataforma para lançar diversos candidatos ao Legislativo.
Do movimento ao partido

Depois de anos apoiando candidaturas de diferentes legendas, integrantes do MBL concluíram que precisavam de um partido próprio para disputar espaço nacional. O resultado foi o Partido Missão. Renan assumiu a presidência da legenda e passou a conduzir o projeto de transformá-la em uma força política nacional.
A estratégia repete parte da fórmula utilizada pelo MBL. Com pouco tempo de televisão e uma estrutura partidária menor que a dos grandes concorrentes, a campanha concentra esforços nas redes sociais, em vídeos de grande circulação e em agendas presenciais fora dos grandes centros urbanos.
“Terceira via”
Renan define sua candidatura como uma alternativa à polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Nos últimos meses, passou a direcionar críticas aos dois grupos.
Do PT, contesta a política econômica e o aumento dos gastos públicos. Do bolsonarismo, afirma que o movimento abandonou a agenda liberal e de combate à corrupção que ajudou a levá-lo ao poder em 2018.
Essa estratégia ficou mais evidente depois da crise envolvendo o Banco Master. Renan intensificou os ataques a Flávio Bolsonaro e tentou atrair parte do eleitorado de direita insatisfeito com o desempenho do senador nas pesquisas.
Levantamentos divulgados desde maio colocam o candidato do Missão entre os nomes mais competitivos fora dos dois principais blocos da disputa. Em alguns cenários, ele aparece numericamente à frente de Ronaldo Caiado (PSD).
“Milei brasileiro”

Aliados costumam comparar Renan ao presidente argentino Javier Milei. A semelhança é baseada menos nas propostas específicas e mais na estratégia política. Assim como Milei antes de chegar à Casa Rosada, Renan aposta em um discurso de enfrentamento ao sistema político, defesa do liberalismo econômico, redução do Estado e comunicação fortemente ancorada nas redes sociais.
O próprio candidato tem feito referências frequentes ao presidente argentino em discursos e entrevistas. A comparação, porém, encontra resistências até entre aliados de Milei, que mantêm proximidade com o grupo político de Jair Bolsonaro.
Na economia, Renan propõe reduzir gastos públicos, realizar uma reforma administrativa, rever programas sociais e diminuir o peso do Estado sobre a economia. Na segurança pública, defende endurecimento das penas, ampliação dos presídios de segurança máxima, fortalecimento do combate às facções criminosas e maior controle das fronteiras.
Também defende mudanças em políticas sociais, com foco na inserção dos beneficiários no mercado de trabalho, além da regularização urbanística de comunidades, proposta apresentada pela campanha como um programa de “desfavelização”.