Em 2013, ao assumir a defesa do então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a Operação Lava Jato, Cristiano Zanin tornou-se um dos nomes mais comentados da cena política e jurídica do Brasil.
Até então, o jovem advogado não tinha experiência na área penal. Especialista em Direito Processual, sua carreira vinha sendo construída na advocacia empresarial, com foco em grandes litígios. A falência da Transbrasil e a recuperação judicial da Varig, ambas no início dos anos 2000, estão entre seus primeiros casos de repercussão nacional.
Na sabatina para o STF, seu perfil técnico foi elogiado inclusive por opositores, e a aprovação no Senado foi tranquila: 58 votos favoráveis e 18 contrários. Por outro lado, alguns congressistas apontaram como lacuna a falta de especialização em Direito Penal, já que há muitos casos criminais na última instância da Justiça. A proximidade com o presidente Lula também gerou questionamentos sobre um possível alinhamento político automático com o governo — o que, até o momento, não se confirmou.
Logo no início de sua atuação, Zanin mostrou-se conservador em relação a alguns temas sociais. Votou contra a descriminalização do porte de maconha para uso pessoal e contra a equiparação de ofensas contra a comunidade LGBTQIA+ à injúria racial. Se, por um lado, essa postura gerou desconforto entre setores progressistas, por outro reforçou sua independência política nas primeiras decisões como integrante da Corte.
Cristiano Zanin integra a Primeira Turma do STF, responsável pelo julgamento dos supostos envolvidos na tentativa de golpe de Estado. É relator da denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Jair Bolsonaro.
Quem é Cristiano Zanin: origem e formação
Cristiano Zanin Martins nasceu em 15 de novembro de 1975, em Piracicaba, interior de São Paulo, em uma família de classe média. É casado com a também advogada Valeska Teixeira Zanin Martins, com quem tem três filhos.
Em 1994, ingressou no curso de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), graduando-se em 1999. Logo depois, especializou-se em Direito Processual Civil na mesma instituição e foi professor de Direito Civil e Processual Civil na Faculdade Autônoma de Direito (FADISP).
Trajetória profissional
Após formado, Zanin estagiou em escritórios de advocacia até que, em 2004, tornou-se sócio de Roberto Teixeira, pai de Valeska, sua futura esposa.
Amigo pessoal de Lula desde os anos 1970, Teixeira era conhecido por sua experiência em causas ligadas ao setor industrial e por atuar ao lado do PT em diversas negociações jurídicas e empresariais.
Ao lado do sócio, Zanin passou a atuar em grandes litígios empresariais. Entre os casos de maior repercussão estão a falência da Transbrasil, a recuperação judicial da Varig, a revisão do acordo de leniência no caso JBS e processos envolvendo a empresa de telecomunicações Oi.
Sua experiência em causas empresariais complexas o levou, em janeiro de 2023, a representar a Americanas contra o BTG Pactual, que, assim como outros credores, contestava a recuperação judicial e buscava o bloqueio dos ativos da companhia.
Defesa de Lula na Lava Jato
A relação de confiança entre Lula e Roberto Teixeira abriu caminho para que Cristiano Zanin e sua esposa assumissem papel central na defesa do petista.
O fato de advogados com histórico empresarial liderarem a defesa criminal causou estranheza. Entre aliados de Lula, a principal preocupação era a falta de experiência técnica na área penal. Além disso, houve atritos com outros advogados de peso que também atuavam no caso, devido a divergências estratégicas.
Um exemplo foi o do ex-ministro do STF Sepúlveda Pertence, que defendia uma linha conciliatória, focada em erros processuais. Em 2018, quando Lula foi preso em Curitiba, Pertence sugeriu buscar um acordo para que a pena fosse cumprida em casa.
A proposta confrontou a postura combativa de Zanin, que via a prisão domiciliar como uma forma indireta de legitimar a condenação. Desde o início, sustentou publicamente que Lula era vítima de lawfare — uso do sistema legal para perseguir adversários políticos.
Boa parte da comunidade jurídica criticou essa linha de defesa, considerando-a mais política do que técnica. No entanto, em 2019, a divulgação das mensagens da Vaza Jato trouxe elementos que reforçaram as acusações de perseguição política, resultando na anulação das condenações que levaram Lula à prisão.
Indicação ao STF e atuação na corte
Em junho de 2023, o presidente Lula indicou Cristiano Zanin para substituir o ministro Ricardo Lewandowski no STF.
A indicação foi criticada por alguns setores, que a viram como retribuição pessoal. Por outro lado, recebeu apoio de juristas que destacaram sua experiência em processos complexos e na defesa de garantias constitucionais.
O criminalista José Roberto Batochio, que também integrou a defesa de Lula, ressaltou o pioneirismo de Zanin na tese de lawfare no Brasil — “algo que só anos depois foi reconhecido até por instâncias internacionais”, afirmou.
Durante a sabatina no Senado, que durou mais de oito horas, Zanin foi cauteloso e evitou declarações polêmicas. Ao ser questionado sobre temas sociais sensíveis, como aborto, drogas e uniões homoafetivas, afirmou que todo julgamento deve seguir a Constituição e as leis, e que opiniões pessoais devem ficar em segundo plano.
Reforçou ainda seu compromisso com as leis brasileiras e com a democracia, afirmando: “O meu lado sempre foi o mesmo: o lado da Constituição, das garantias, do amplo direito de defesa, do devido processo legal. Para mim, só existe um lado; o outro é barbárie, é abuso de poder.”