Já tem um tempo que a Inteligência Artificial deixou de ser tema de laboratório para se tornar protagonista das conversas de negócios. E isso inclusive nas áreas mais humanas das empresas: o RH e a liderança.
Durante o Senior Experience 2025, especialistas mostraram como a tecnologia e o comportamento se entrelaçam em uma nova era de gestão, em que reaprender, escutar e agir com propósito são as chaves para liderar com eficiência. E sem perder o fator humano.
O desafio da liderança no mundo que muda mais em 4 anos do que em 40
“O mundo de RH mudou mais nos últimos quatro anos do que nos últimos quarenta”, diz Ricardo Zambrano Salazar, sócio-fundador da Metaconsulting, ao abrir o painel sobre os cenários globais da gestão de pessoas.
Segundo ele, o ritmo da transformação tecnológica, com a chegada da IA generativa e novas formas de trabalho, exige dos líderes duas palavras fundamentais: reaprendizagem e atitude.
“As empresas precisam ler a própria cultura organizacional antes de copiar modelos de fora. É isso que permite reaprender e se adaptar”
Ele defende que a liderança precisa ser exemplo. “Atitude é convidar todos a trabalhar juntos. Isso é o que vai diferenciar as organizações e gerar crescimento real.”
IA e liderança
Zambrano lembra que a inteligência artificial já não é mais um assunto de café, mas uma realidade do dia a dia corporativo. E, para lidar com ela, curiosidade digital, análise crítica e reaprendizagem constante se tornam as novas competências dos líderes.
“A IA não substitui pessoas. As competências estão em quem sabe usar a tecnologia”
A curiosidade digital ajuda a compreender ferramentas e processos automatizados. Já o senso crítico é o que permite usar a IA como suporte de decisão, e não como substituto do julgamento humano. “A IA ajuda a processar dados e ganhar tempo, mas a decisão final continua sendo humana”, completa.
Cultura local e visão sistêmica: o fator humano segue essencial
Para Leyla Nascimento, presidente da Associação de Recursos Humanos (ABRH Brasil), a tecnologia não elimina a necessidade de sensibilidade cultural — ao contrário, a reforça.
“É preciso olhar o país em que se atua, a formação das pessoas, o contexto e a cultura local. Liderar de forma eficaz depende de entender essas nuances”
Essa visão sistêmica, segundo ela, é o que permite equilibrar o uso da IA com práticas de gestão que valorizem as pessoas e respeitem os contextos sociais e organizacionais de cada empresa.
IA como “segunda pandemia”
A comparação feita por Jorge Convers, gerente de negócios da Novasoft, chama atenção:
“A IA chegou como uma segunda pandemia, de um dia para o outro”
Ele explica que muitas empresas esperam que a IA resolva tudo sozinha, mas sem processos bem definidos, o resultado pode ser o contrário. “Algumas coisas não se solucionam com IA se não houver um processo de negócio claro”, diz o especialista.
Durante sua apresentação, Convers contou o caso de um cliente de call center com 15 mil funcionários, que usou IA para acelerar o onboarding de contratações em massa, entre 700 e 1.000 pessoas, conseguindo reduzir tempo de integração e aumentar eficiência. “O segredo foi alinhar tecnologia com processos bem estruturados”, lembra.
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O que a liderança aprende com a IA
Na palestra “Democratizando a Inteligência Artificial: do board à operação”, Bruno Gonzales, diretor da Boa Vista, mostrou como o uso estratégico da IA pode transformar não só produtos, mas também a cultura de decisão nas empresas. “A IA não é o futuro, é o presente”, afirma.
Em sua fala, Gonzales apresentou cases como Spotify e Duolingo para mostrar que a IA bem aplicada tem impacto direto em retenção, engajamento e experiência do usuário, indicadores que, por coincidência, também são os mais relevantes na gestão de pessoas.
No Spotify, por exemplo, algoritmos de Deep Learning e NLP permitiram personalizar playlists e aumentar a retenção de ouvintes em 60%. Já no Duolingo, a IA foi usada para ajustar o ritmo de aprendizado dos alunos, elevando em 12% a retenção semanal.
“O cliente não quer Inteligência Artificial, ele quer resolver um problema real com eficiência. Assim como ninguém assina o Spotify por causa do algoritmo, mas pela facilidade de descobrir boa música sem esforço”
O elo entre IA e RH: dados informam, mas propósito guia

Para Gonzales, a verdadeira vantagem competitiva está em combinar tecnologia e humanidade. A IA ajuda líderes a tomarem decisões mais rápidas e personalizadas, mas é o propósito que dá direção. “Os dados informam, mas é o propósito que guia”, cita, lembrando Simon Sinek.
Segundo ele, o papel da liderança é usar a IA como meio e não como fim. “Liderar com propósito, ética e coragem será o diferencial das empresas que souberem colocar a IA a serviço das pessoas, e não o contrário”, conclui.