Conteúdo editorial apoiado por

Um sinal positivo (e três para ter cautela) após tombo de US$ 1,3 tri em Wall Street

Depois de dois pregões que tiraram mais de US$ 1 trilhão do Nasdaq 100, bancos e gestoras divergem sobre tratar o recuo como porta de entrada ou sinal de excesso

Paulo Barros

Operador na bolsa de Nova York / Wall Street (REUTERS/Brendan McDermid)
Operador na bolsa de Nova York / Wall Street (REUTERS/Brendan McDermid)

Publicidade

As ações de tecnologia e inteligência artificial (IA) nos Estados Unidos viveram dois pregões de forte queda no início desta semana, com a terça-feira (23) concentrando o tombo. O S&P 500 caiu 1,44% e o Nasdaq Composite recuou 2,21%, em um movimento que tirou mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado do índice Nasdaq 100. O baque, puxado por semicondutores e fabricantes de memória, reacendeu entre bancos e gestoras a pergunta sobre se, depois da correção, vale a pena comprar a baixa do setor que sustenta a alta das bolsas americanas.

A explicação do tombo passa pela mecânica do mercado, afirma o JPMorgan. O banco estima que ETFs alavancados foram forçados a vender cerca de US$ 45 bilhões em ações no fechamento de terça para reajustar posições, num movimento amplificado pela forte concentração de apostas no tema.

Nesta quarta-feira (24), as bolsas operam em recuperação parcial, ajudadas pela queda de cerca de 4% do petróleo e pela expectativa em torno do balanço da Micron, a ser divulgado após o fechamento e visto como um termômetro da demanda por IA. O alívio, porém, não encerra o debate de alocação, que se divide entre quem enxerga uma porta de entrada e quem prefere cautela.

Por que parte do mercado vê oportunidade

Entre as casas mais otimistas, o argumento é que os lucros seguem firmes e que a correção barateou as ações. Para o JPMorgan, o ajuste recente abre espaço para retomada, e a liquidação serve como um “ponto de entrada melhor para adicionar exposição no restante do ano”. O banco elevou sua projeção para o S&P 500 no fim do ano para 7.800 pontos, citando lucros em alta e o ciclo de investimento em IA.

A Franklin Templeton faz leitura parecida e observa, em relatório assinado pelo estrategista Chris Galipeau, que “o mercado está mais barato hoje do que em 1º de janeiro”, já que os lucros subiram mais que os preços.

A Invesco reforça que o problema não está nos fundamentos. “A história da IA não mudou. A interpretação dos investidores, sim”, afirma o estrategista Brian Levitt, segundo o qual o recuo do petróleo, das expectativas de inflação e dos juros forma um pano de fundo favorável. Em tom semelhante, o Morgan Stanley aposta que a narrativa volta aos fundamentos fortes à medida que o risco geopolítico recua, como vem acontecendo nesta quarta.

Sinais para cautela

Do outro lado, há ao menos três alertas que os investidores precisam ter no radar.

1- Conta do investimento: a XP nota que, em algumas empresas, o capex, que é o gasto com infraestrutura, já supera 100% da receita, o que comprime o caixa, e que parte do lucro das fornecedoras vem de contratos pagos em participação acionária, e não em dinheiro, o que pode inflar os resultados.

2- Endividamento: o Bank of America calcula que as emissões de dívida ligadas a IA somam US$ 220 bilhões em 2026, alta de 62% sobre todo o ano passado, e registra em nota publicada nesta quarta que “o sentimento do investidor sobre o setor segue muito pessimista”, com o prêmio de risco das gigantes de nuvem se ampliando.

Continua depois da publicidade

3- Risco técnico: o JPMorgan, ainda que otimista, adverte que o excesso de apostas concentradas no tema convive com “alta probabilidade de um flash-crash“, uma queda relâmpago, sobretudo nos papéis de IA mais especulativos.

É preciso temer bolha?

Para a XP, a discussão sobre IA mudou de natureza. Em dezembro, a casa havia concluído que não havia bolha, porque o crescimento dos lucros justificava os preços. Agora, o foco recai sobre se o consumo de IA vai de fato se materializar no ritmo que os investimentos pressupõem. “A pergunta correta talvez seja se estamos diante de uma bolha de demanda”, afirmam os estrategistas Raphael Figueredo e Maria Irene Jordão em relatório publicado na sexta-feira (19).

Leia também: Investidor que lucrou 900% na crise de 2008 faz nova aposta contra mercado

Continua depois da publicidade

A XP separa o setor em dois grupos. De um lado estão as capital intensivas, como Microsoft, Meta, Google e Amazon, que gastam somas inéditas para construir a infraestrutura de IA. De outro, as beneficiárias desse gasto, como Nvidia, AMD e Micron, que vendem os equipamentos e capturam o ciclo de forma mais direta. A leitura da casa é construtiva, com espaço para 12 a 24 meses de investimento forte, sustentado por obras já contratadas e pela corrida entre os laboratórios de IA.

O que investidor deve fazer?

Diante do impasse, a recomendação que mais se repete entre as casas é diversificar. A Schroders, das mais cautelosas com as ações de tecnologia dos EUA, realizou lucro na exposição a tecnologia americana e ampliou a carteira para financeiras, bancos europeus e setores ligados a recursos, para reduzir a dependência do tema de IA. Franklin Templeton e Invesco seguem na mesma direção e sugerem espalhar as apostas para small caps e mercados fora dos EUA, como o Japão. Para quem quer manter exposição ao tema, a XP prefere a infraestrutura e aponta a energia elétrica como o principal gargalo do ciclo.

O consenso é que o fôlego se mantém, mas com vigilância. Enquanto estiver alocado, o investidor precisa monitorar, segundo as casas, são o consumo de IA pelas empresas, a geração de caixa das gigantes de nuvem e o tom dos executivos sobre o retorno dos investimentos nos próximos balanços – a começar pelo da Micron, dentro de algumas horas.

Continua depois da publicidade

Paulo Barros

Jornalista há mais de 15 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos