Tesouro Direto: taxas avançam com CPI acima do esperado e com mercado precificando decisão do Fed

Prefixados oferecem até 11,98%; ganho real dos papéis de inflação chega a 5,95%

Bruna Furlani Katherine Rivas

(Getty Images)
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As taxas dos títulos públicos avançam na tarde desta terça-feira (13).  Nos prefixados, as taxas sobem até 27 pontos-base, já nos papéis de inflação a alta nas taxas chega a 9 pontos-base.

Segundo Igor Cavaca, gestor da Warren Asset Management, hoje houve uma alta generalizada nas curvas de juros por conta da divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, que veio acima do esperado.

O CPI americano avançou 8,3% em agosto na base anual e 0,1% na comparação mensal. Segundo consenso Refinitiv, o mercado esperava uma deflação de 0,1% na base mensal e alta de 8,1% na anual.

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“Como consequência, o mercado passou a precificar uma elevação maior dos juros na próxima reunião do Federal Reserve (Fed, banco central americano), o que vem impactando negativamente os ativos de risco no mundo e os ativos soberanos brasileiros”, avalia Cavaca.

A volatilidade provocada pelo indicador foi tão forte que as negociações do Tesouro Direto chegaram a ser suspensas rapidamente mais cedo, por volta das 10h.

Na visão do gestor da Warren Asset Management, uma alta adicional dos juros pelo Fed poderia forçar o Banco Central brasileiro a elevar a Selic mais uma vez na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), que deve acontecer na próxima semana.

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A plataforma de monitoramento do CME Group aponta que as expectativas no mercado financeiro de que os juros do Federal Reserve superem 4% até o fim deste ano cresceram após divulgação do CPI.

A ferramenta aponta para 47,5% de chance de que a taxa básica termine o ano na faixa entre 4,00% e 4,25%, de 20,1% antes do dado. Indica ainda 19,8% de probabilidade de que os juros atinjam o intervalo de 4,25% a 4,50% até dezembro, e 2,3% de que chegue ao nível de 4,50% a 4,75%. Atualmente, as Fed Funds estão entre 2,25% e 2,50%.

Na cena local, números de atividade no Brasil completaram a agenda desta terça-feira. Hoje, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o setor de serviços cresceu 1,1% em julho, acima do esperado pelo mercado.

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Dentro do Tesouro Direto, a maior alta era no prefixado de médio prazo. O Tesouro Prefixado 2029 oferecia às 15h24 um retorno anual de 11,82%, acima dos 11,55% vistos na sessão anterior.

Já o Tesouro Prefixado 2025 e o Tesouro Prefixado 2033, com juros semestrais, apresentavam uma rentabilidade anual de 11,98% e 11,95%, respectivamente, superior aos 11,74% e 11,69% oferecidos na véspera.

Nos títulos atrelados à inflação, as taxas subiam entre 7 e 9 pontos base. O maior ganho real registrado nesta sessão era de 5,95%, do Tesouro IPCA+ 2055.

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Confira os preços e as taxas de todos os títulos públicos disponíveis para compra no Tesouro Direto na tarde desta terça-feira (13), na volta dos negócios: 

Fonte: Tesouro Direto

CPI

Na avaliação de especialistas ouvidos pelo InfoMoney, os dados de inflação americana reforçaram a aposta de que o Fed terá que elevar o juro em 0,75 ponto na reunião da próxima semana.

“Praticamente tirou qualquer dúvida sobre a chance (de o Fed) desacelerar o ritmo. Cria inclusive uma dúvida para reunião de novembro”, afirmou Gustavo Cruz, estrategista da RB investimentos.

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Segundo o especialista, 83% do mercado estava prevendo uma alta de apenas 0,5 ponto percentual (p.p.) para a reunião de novembro e apenas 7,3% apostavam numa alta de 0,75 ponto (ou 75 pontos-base), mas essa parcela deve aumentar nas próximas semanas.

Para Fabio Fares, especialista em análise macro da Quantzed, o mercado vai colocar “prêmio na curva”, uma vez que a inflação segue persistente em diversos setores, com exceção da energia, por causa da diminuição do preço da gasolina.

“Acredito que vamos começar a ter precificação de alta de 75 pontos-base nos juros pelo Fed na semana que vem, além de mais uma alta de 75 pontos-base em novembro, levando os juros para o fim do ano entre 4,25% e 4,5%”, diz.

Fares defende que a inflação está se mostrando muito mais persistente do que o Fed imaginava e que Jerome Powell, presidente do banco central americano já havia afirmado que eles seguiriam firmes com o objetivo de controlar a inflação.

Serviços

O foco do noticiário doméstico está nos dados de atividade do setor de serviços, que avançou 1,1% em julho. Esse foi o terceiro resultado positivo seguido.

O volume de serviços mostrou expansão de 6,3% frente a igual período de 2021. Os resultados vieram melhor do que o esperado pelo mercado, pois o consenso Refinitiv estimava alta de 0,5% na comparação mensal e de 5,8% na anual.

Segundo Rodrigo Lobo, gerente da pesquisa, o setor de serviços chegou ao ponto mais alto desde novembro de 2014, com o crescimento de julho.

“Essa retomada de crescimento é bastante significativa e é ligada aos serviços voltados às empresas, como os de tecnologia da informação e o de transporte de cargas, que têm um crescimento expressivo e alcançam, em julho, os pontos mais altos das suas respectivas séries”, diz Lobo. “Então o que traz o setor de serviços a esse patamar é o dinamismo desses dois segmentos”.

O resultado positivo foi disseminado por três das cinco atividades investigadas pela pesquisa, com destaque para os transportes (2,3%) e informação e comunicação (1,1%), que exerceram as principais influências positivas sobre o índice em julho.

O setor de transportes acumulou ganhos de 3,9% nos três últimos meses e, em julho, e foi influenciado principalmente pelos bons resultados de atividades como gestão de portos e terminais e concessionárias de rodovias.

Pesquisas e Lula

Já na cena política, a menos de três semanas do primeiro turno, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliou a distância sobre seus adversários na disputa pelo Palácio do Planalto, segundo pesquisa divulgada pelo Ipec ontem (12). 

O levantamento, realizado entre os dias 9 e 11 de setembro, mostrou Lula com 46% das intenções de voto − oscilação positiva de 2 pontos percentuais em comparação com o último levantamento feito uma semana atrás. Já o presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição, manteve os 31% da pesquisa anterior. A margem máxima de erro estimada é de 2 pontos para cima ou para baixo.

Em entrevista à CNN Brasil ontem (12), Lula não falou que irá rever privatizações no caso de ser eleito presidente este ano, apesar de já ter dito, em momentos anteriores, que pretendia impedir a privatização de empresas como a Eletrobras e os Correios.

“Eu não falei em rever privatização”, afirmou o candidato, ao ser questionado sobre falas anteriores. “Eu vou ganhar as eleições, eu preciso tomar pé da situação. Eu preciso saber que a necessidade primária é dar comida para esse povo.”

Na entrevista, Lula defendeu ainda que a agricultura é “indispensável” para o país, e disse que parte do agronegócio é responsável e sabe que é “preciso respeitar o meio ambiente porque senão o Brasil vai ser cobrado depois.”

“Essa gente vai continuar trabalhando e ganhando dinheiro com a gente”, defendeu Lula, ao mesmo tempo em que afirmou que o problema de parte do agronegócio com um eventual novo governo é porque “sabem que em um governo do PT não vai ter desmatamento na Amazônia.”