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SÃO PAULO – Por definição, os títulos públicos são considerados os investimentos menos arriscados em qualquer país, porque, mesmo que esteja sem dinheiro, um governo sempre poderá imprimir novas cédulas para honrar seus compromissos. No mercado de renda fixa, entretanto, risco menor não é sinônimo de baixa volatilidade, como na Bolsa. A maior prova disso são as NTN-B (Notas do Tesouro Nacional – Série B), os títulos do governo brasileiro atrelados à inflação, que se transformaram em xodó dos investidores.
No último ano, as NTN-B com prazos mais longos de vencimento apresentaram uma volatilidade característica dos mercados de ações e derivativos. Alguns papéis chegaram a apresentar retorno de 54% em 12 meses, ao mesmo tempo em que se desvalorizaram 8% em um único mês. Trata-se então de um investimento tarja preta, recomendado apenas a investidores com muito sangue frio?
Pelo contrário. As NTN-B que vencem daqui a 20 ou 30 anos são interessantes para milhões de investidores e costumam ser muito recomendadas por especialistas para quem deseja poupar para a aposentadoria. Mas como um investimento tão volátil pode ser ao mesmo tempo visto como ultrasseguro, a ponto de ser indicado para garantir a qualidade de vida de idosos?
Oportunidade com segurança!
Em primeiro lugar, é preciso considerar que as chances de um governo quebrar dentro de algumas décadas existem, mas são bem menores do que as de uma empresa ou banco. As NTN-B ainda oferecem um atrativo especial aos poupadores, que é a garantia de ganho real ao longo dos anos. Mesmo que a inflação dispare, o poder de compra do investidor estará garantido.
A remuneração do título é equivalente à inflação medida pelo IPCA mais uma taxa de juros, que tem sido suficiente para proporcionar um ganho real mesmo quando descontados o Imposto de Renda sobre os lucros e a taxa de custódia dos títulos.
Risco
Na verdade, só precisa se preocupar com a alta volatilidade das NTN-B o investidor que não planeja manter a posse do título até seu vencimento, já que é a flutuação do valor de mercado do papel que pode gerar ganhos (ou perdas) de 50% em um ano.
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Imagine, por exemplo, que, em determinado momento, alguém tenha comprado uma NTN-B com vencimento em 2035, por uma taxa de retorno equivalente ao IPCA mais 3% ao ano. Se os juros reais no Brasil subirem e, subitamente, os mesmos papéis passarem a pagar 4% ao ano de juros reais, esse investidor terá de aceitar, para vender o papel, um forte deságio sobre o preço pago por ele. Afinal, se os juros pagos por um título sobem, seu valor unitário cai, e vice-versa.
“Quanto mais longo o título, maior a volatilidade”, explica o gerente de renda fixa da Um Investimentos, André Mallet. “A cada mudança brusca no IPCA ou na Selic, o impacto nos papéis longos é mais forte.”
É por esse motivo que a NTN-B também pode ser encarada como um ativo especulativo por investidores que tentem se antecipar aos movimentos das taxas de juros e consigam aproveitar a forte oscilação de alguns títulos para obter ganhos de curto prazo. “Tem momentos em que você pode fazer o chamado ganho de capital, como se estivesse operando uma ação, comprando por um preço e vendendo mais caro”, afirma o economista e professor de finanças Richard Rytenband.
Para isso, entretanto, é preciso algum conhecimento do cenário macroeconômico. Acompanhar o desempenho dos indicadores e a expectativa dos agentes em relação aos principais índices de preços é tarefa essencial para quem quer ganhar com a oscilação dos títulos públicos.
No entanto, não é qualquer investidor que está preparado para tanto sobe e desce. “As NTN-B foram as estrelas dos últimos anos por conta da forte rentabilidade. É comum ver esse título caindo 4% em um mês. Será que o investidor está preparado para essa oscilação na renda fixa ”, questiona o sócio-gestor da Leme Investimentos, Paulo Petrassi.
E quem comprou para se aposentar?
Para quem comprou o título público com objetivo de longo prazo, os especialistas afirmam que é preciso pensar duas vezes antes de optar pela venda com um lucro acentuado. Ao se desfazer agora de uma NTN-B que paga IPCA mais 6% ao ano, o investidor pode ficar sem opções à altura no cenário atual.
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O diretor da Um Investimentos concorda: “Para quem comprou pensando no longo prazo, em se aposentar, é difícil sair assim. Eu ficaria com pelo menos uma parte grande em carteira”, diz. Já para o investidor que comprou com o objetivo de especular, esta pode ser a hora de embolsar os lucros e olhar para outras aplicações. “Se for um oportunista que entrou no começo do ano e está ganhando 15%, ele pode sair do título e partir para outra”, diz Petrassi.
Outros títulos
Além das NTN-B, as LTN (Letras Financeiras do Tesouro) também são títulos que costumam oscilar bastante. Para se ter uma ideia, as LTN com vencimento em 2015 acumularam rentabilidade de 23,91% no último ano. O retorno expressivo se deu por conta da queda da taxa de juros nos últimos meses.
Como a LTN é um título prefixado, o investidor “trava” a sua rentabilidade de acordo com a taxa Selic no momento da compra do título. Se ao longo do tempo a taxa recuar, como aconteceu nos últimos 12 meses, esse título passa a valer mais no mercado secundário, e por isso seu valor de mercado aumenta. O contrário pode acontecer no caso de aumento de juros.
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Já as LFT (Letras financeiras do Tesouro) costumam ter uma volatilidade menor, já que estão diretamente ligadas à taxa Selic e não possuem cupom de juros. Esses títulos normalmente são indicados para os investidores mais conservadores, que não gostam de ver rentabilidade negativa no seu portfólio. Também servem para aplicar o dinheiro da reserva de emergência, que pode ter de ser resgatado a qualquer momento, e para quem acredita que a taxa de juros da economia deve subir em breve.
Atualmente, no entanto, as LFT não têm atraído muitas pessoas. “Você vai sair de uma NTN-B e entrar nesse título para ter um rendimento de 7% ao ano ou até menos?”, pergunta Mallet. Para quem estava acostumado a um retorno de dois dígitos, realmente parece pouco.
Essa matéria foi publicada na edição 40 da revista InfoMoney, referente ao bimestre setembro/outubro de 2012. Para tornar-se um assinante da revista, clique aqui.