Remessas com cripto disparam na Venezuela com o agravamento da crise migratória

No ano passado, os venezuelanos receberam mais de US$ 5,4 bi em remessas, constituindo pelo menos 6% do PIB

Bloomberg

(Foto: Bloomberg)
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À medida que a Venezuela se recupera de uma das crises econômicas mais terríveis da sua história, mais famílias recorrem a uma tábua de salvação não convencional: a criptomoeda.

As remessas, ou pagamentos em dinheiro de parentes que vivem no exterior, são tradicionalmente enviadas através de bancos internacionais ou empresas financeiras de varejo, como Western Union ou MoneyGram, muitas vezes sobrecarregadas com altas taxas de transação de até 7%. Com a volatilidade do bolívar e uma série de restrições governamentais, e as transferências que levam até três dias úteis para serem concluídas, a velocidade muitas vezes dá vantagem aos criptoativos.

Na última década, a Venezuela tornou-se uma das principais nações dependentes de remessas na América do Sul. Após a crescente crise migratória que o país enfrentou, cerca de 30% das famílias venezuelanas começaram a receber remessas, de acordo com um estudo do think tank Diálogo Interamericano. A quantia transmitida via cripto possivelmente atingiu o recorde de 9% no ano passado, de acordo com dados da empresa de análise de blockchain Chainalysis.

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Mais de 7,7 milhões de migrantes e refugiados fugiram da Venezuela na última década, de acordo com a Plataforma de Coordenação Interinstitucional para Refugiados e Migrantes do país. Para colocar isso em perspectiva, 6 milhões de pessoas deixaram a Ucrânia desde 2022 e mais 5 milhões fugiram da Síria desde 2011.

Nos últimos dois anos, a população imigrante venezuelana dos Estados Unidos cresceu exponencialmente, com quase 300 mil migrantes chegando aos EUA no ano passado. O êxodo pesou sobre cidades como Nova York e Chicago, aumentando as expectativas de que a imigração poderia ser um dos principais fatores decisivos para as eleições presidenciais dos EUA.

O próximo passo para muitos imigrantes depois de se instalarem é ajudar aqueles que deixaram para trás. No ano passado, os venezuelanos receberam mais de US$ 5,4 bilhões em remessas, constituindo pelo menos 6% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o Diálogo Interamericano. Isso é quase 75% superior ao valor enviado em 2021. Pouco mais de US$ 461 milhões das remessas em 2023 foram por meio de criptomoedas.

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“O número de migrantes venezuelanos que enviam remessas aumentou 50-60%”, disse Manuel Orozco, diretor do programa de Migração, Remessas e Desenvolvimento do Diálogo Interamericano. “Não é uma percentagem mais elevada porque o resto dos migrantes ainda não tem condições de enviar dinheiro.”

Remessa com memecoin

No caso de Paola Moncrieff, um dos seus objetivos quando se mudou para os EUA em 2018 era encontrar um emprego que lhe permitisse juntar dinheiro para ajudar os seus familiares no seu país de origem. Depois de se estabelecer em Austin, no Texas, ela começou a enviar grana por meio da rede de pagamentos digitais Zelle para um doleiro, mas sua forma favorita de transferir fundos – especialmente para seus primos mais jovens e mais experientes em tecnologia – é por meio de cripto.

Para fazer isso, ela compra a memecoin Dogecoin (DOGE) na exchange Coinbase, que tem as taxas de transferência mais baixas que ela encontrou, em comparação com outras criptomoedas ou stablecoins que têm tarifas mais altas nas plataformas dos EUA.

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Na Venezuela, seus primos usam a Binance para transferir Dogecoin para Tether (USDT), uma stablecoin que busca manter uma relação de um para um com o dólar. Uma vez que o dinheiro está em criptos, eles podem usá-lo como preferirem: convertê-lo em bolívares ou dólares, ou gastá-lo em uma das poucas empresas do país que aceitam criptoativos.

“Antes eu só podia contar com minha cambista e era muito difícil quando ela não tinha bolívares, mas agora essa forma através da criptos resolveu muitos dos meus problemas”, disse Paola, que aprendeu a fazer isso graças ao marido de sua prima, que jogava games baseados em blockchain durante a pandemia e entendia de tokens não fungíveis (NFTs).

“Se eu precisar dar dinheiro rapidamente para minha tia ou minha avó para alguma emergência e sei que minha cambista não tem dinheiro, peço para meus primos ajudarem e envio criptomoedas, e eles depositam o dinheiro na conta dela.”

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Embora cripto seja atraente no cenário de remessas da Venezuela, esse método de envio ou recebimento de fundos está repleto de riscos. Os preços das criptos flutuam descontroladamente, o que significa que o valor recebido pode variar significativamente do valor enviado. As incertezas regulatórias acrescentam outra camada de riscos.

As plataformas peer-to-peer (P2P) tornaram-se populares para os venezuelanos que desejam converter fundos criptos recebidos em bolívares. Eles têm a opção de trocar ativos digitais a taxas de mercado, muitas vezes contornando os controles cambiais oficiais. E apesar das questões regulatórias da Binance nos EUA, ela continua sendo a exchange mais popular para venezuelanos e migrantes em muitos lugares do mundo.

“Você não sabe com quem está falando quando faz trocas peer-to-peer”, disse Enrique De Los Ríos, consultor de criptomoedas na Venezuela. “Eles poderiam lhe dar notas de dólar falsas, poderiam lhe dar dinheiro que usaram para vender um carro roubado ou cometer qualquer outro crime, não há nenhuma entidade da qual você possa garantir isso.”

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A migração massiva surge na sequência de um grande colapso econômico, marcado por uma inflação descontrolada e por uma escassez generalizada de alimentos e medicamentos.

Foi isso que motivou a mudança de Carlos Espinoza para a Argentina em 2018. Espinoza – cujo nome foi modificado para a segurança de sua família – usou criptos por muitos anos antes de migrar. Agora ele está enviando remessas comprando Tether na Binance e depositando-as em bolívares em sua conta bancária na Venezuela, a qual seus pais têm acesso.

“Esta é a maneira mais fácil que encontrei de enviar dinheiro para minha família e também de economizar em outra moeda atingida pela hiperinflação”, disse Espinoza. “Felizmente, meu trabalho atual me paga em dólares, mas quando eu ganhava a vida com pesos argentinos, eu fazia a conversão deles para cripto para que não perdessem valor.”

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