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Qual é o melhor ETF de renda fixa diante da alta dos juros? Com 7 opções na B3, analistas apontam os mais indicados para cada estratégia

Fundos replicam índices focados tanto em papéis pré e pós-fixados, quanto nos atrelados à inflação, com taxa de administração de no máximo 0,30%

Por  Katherine Rivas -

Enquanto o Banco Central deixa pistas de que o fim do ciclo de alta da Selic está próximo – com a taxa provavelmente chegando ao patamar de 12,75% ao em maio – agentes do mercado que temem os riscos de uma inflação mais duradoura projetam os juros básicos em 13,75% no final de 2022, após a divulgação da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

No patamar atual, a taxa Selic já se encontra no seu maior nível desde abril de 2017, quando os juros chegaram a 12,25% ao ano.  Por outro lado, a inflação parece não dar trégua. Segundo o último Relatório Focus, as projeções do mercado para o IPCA em 2022 são de 6,59%, praticamente o dobro da meta do Banco Central que é de 3,5%.

Enquanto o Banco Central tenta encontrar o nível certo de juros para controlar a inflação, a renda fixa reconquista seu espaço entre os investidores. E nessa toada, até mesmo ativos que ficaram um pouco esquecidos nos últimos três anos, quando os juros chegaram a alcançar o menor patamar da história, de 2% ao ano, começam a ganhar adeptos. É o caso dos ETFs de renda fixa.

Na Bolsa brasileira existem sete ETFs (fundos de índice com cotas negociadas no pregão) focados em estratégias de renda fixa. Destes, cinco replicam índices de dívida pública com títulos indexados à inflação, um garante exposição a ativos prefixados e outro permite uma exposição a contratos futuros de DI, com vencimento atualmente em 2025.

Segundo o último Boletim mensal de ETFs da B3, os fundos de índice de renda fixa reuniam até fevereiro 7.578 investidores, um número pequeno em comparação com o universo de 529.352 investidores que atualmente utilizam fundos de índices para diversificar as carteiras.

As estratégias de cada um deles são distintas e permitem acompanhar diferentes movimentos do mercado de renda fixa. Os mais numerosos são os ETFs que acompanham papéis atrelados à inflação, e entre eles há tanto opções focadas em juros de curto quanto de longo prazo. Existem ainda ETFs que replicam índices compostos por papéis prefixados e outros que mesclam títulos pré e pós-fixados. Qual será o melhor ETF para investir no cenário atual, de inflação e juros elevados? Confira as recomendações dos especialistas:

FIXA11 para mesclar pré e pós-fixados

Para o investidor que busca exposição tanto a juros prefixados e quanto a títulos públicos atrelados à Selic, existe o ETF FIXA11, da Mirae Asset Management. O fundo de índice foi o primeiro de renda fixa a estrear na B3, no ano de 2018, após mudanças regulatórias.

O ETF replica o desempenho do índice S&P/BM&F Índice de Futuros de Taxa de Juros – DI 3 anos.  Felipe Pascowitch, head de investimentos da Mirae Asset, explica que a cesta de ativos do ETF está composta por contratos futuros de taxa média de depósitos interfinanceiros de um dia (DI1), com vencimento em janeiro de 2025, garantindo ao investidor uma exposição nos juros prefixados no período de até três anos.

Na cesta de ativos também é possível encontrar títulos do Tesouro Selic e operações compromissadas lastreadas em títulos públicos. A cesta é rebalanceada semestralmente, em junho e dezembro, negociando novos contratos de DI1 para o próximo vencimento e com exposição máxima de três anos

A taxa de administração é de 0,30% ao ano. Atualmente o fundo possui 751 cotistas, dos quais 700 são pessoas físicas.

Para Luciana Ikedo, assessora de investimentos e sócia do escritório RV4 Investimentos, este ETF seria uma das opções mais interessantes de acordo com o cenário atual de juros e inflação. Ela destaca que por ter um prazo curto, o investidor está sujeito a menos oscilações no retorno. Ao mesmo tempo, os títulos do Tesouro Selic presentes na cesta de ativos permitem que o investidor se beneficie do cenário atual com a taxa básica ainda subindo.

No entanto, por possuir uma parcela de exposição a títulos prefixados – que se desvalorizam quando as taxas de juros sobem – o FIXA11 apresenta desempenho ruim em 2022. Neste ano, até 21 de março, o ETF recua 1,59%, enquanto o CDI avança 2,03%.

“A subida dos juros fez com que os prêmios [dos títulos de renda fixa] caíssem. Se o fim do aperto monetário estiver próximo, e a curva futura se reverter, pode ser um bom momento”, diz Luciana. “A curva de juros já contempla inúmeras altas na Taxa Selic, o que neste momento pode beneficiar uma alocação para este tipo de produto”, complementa Pascowitch.

B5P211 para títulos de inflação de prazo curto

Para o investidor que ainda prefere prazos curtos, mas com exposição à inflação e a possibilidade de obter um ganho real, os especialistas apontam o ETF B5P211 como alternativa.

Ele replica o índice IMA-B 5 P2 da Anbima, que reúne na sua composição títulos do Tesouro IPCA+ e Tesouro IPCA+ com juros semestrais, com vencimentos em até cinco anos. Tais títulos pagam ao investidor a variação da inflação mais uma taxa de juros prefixada.

Luciana Ikedo explica que a renda fixa possui uma tributação regressiva que vai de 22,5% até 15%, a depender do tempo em que ficam alocados os recursos. No caso do ETF, que se expõe a títulos de curto prazo, existe um mecanismo chamado Prazo Médio de Repactuação, por meio do qual o rendimento médio de todos os títulos que integram a carteira deve ser de no mínimo dois anos para garantir a tributação mínima do Imposto de Renda de 15%. “O ETF sempre terá na carteira títulos com prazo superior a 720 dias para garantir a menor alíquota”, diz.

Na sua cesta de ativos, o ETF reúne cinco títulos Tesouro IPCA+ com vencimentos entre 2022 e 2027. O rebalanceamento da cesta é mensal e a taxa de administração é de 0,20% ao ano. O B5P211 é gerido pelo Itaú Asset e conta com 1.022 cotistas.

Por se tratar de um ETF que investe em títulos atrelados à inflação de curto prazo, os especialistas consultados pelo InfoMoney destacam que a volatilidade tende a ser menor do que a de papéis de prazo maior.

Luiz Felippo, sócio da Nord Research, afirma que títulos de curto prazo são mais dependentes da política monetária local e da inflação brasileira, o que poderia trazer ganhos ao investidor. Isso se nota pela rentabilidade neste ano. Segundo dados da Economatica, o B5P211 acumula valorização de 3,55% em 2022, até 21 de março, enquanto o índice IMA-B 5 P2 avançou 2,77% no mesmo período.

Apesar disso, Felippo reforça os riscos de se expor à dívida pública atrelada à inflação neste momento e não recomenda a compra do ETF. Já Luciana Ikedo considera o ativo como a escolha mais eficiente entre os que seguem índices IMA-B.

IMAB11 e IMBB11 para títulos de inflação de prazos variados

Para quem não gosta de extremos e prefere uma alocação equilibrada, que garanta exposição simples a uma cesta de títulos Tesouro IPCA+ de diversos vencimentos, existem os ETFs IMAB11, do Itaú Asset Management, e o IMBB11 do Bradesco Asset Management, com taxas de administração de 0,25% e 0,20%, respectivamente.

Luciana Ikedo explica que estes fundos de índice replicam o desempenho do índice IMA-B, desta forma investem em títulos do Tesouro IPCA+ e Tesouro IPCA+ com juros semestrais, de curto e longo prazo. Na cesta de ativos destes ETFs é possível encontrar 15 títulos Tesouro IPCA+ com vencimentos entre 2022 e 2060, com destaque para o Tesouro IPCA+ 2024 que é a maior posição em ambas as carteiras.

O rebalanceamento destas cestas de ativos ocorre mensalmente.

A discrepância entre ambos ETF é mais perceptível no número de cotistas. Enquanto o IMAB11, do Itaú, é o ETF de renda fixa com maior número de investidores – 5.100 cotistas – o ETF IMBB11 do Bradesco possui apenas 115 cotistas.

Renato Eid Tucci, superintendente de Estratégia Beta e Integração ESG da Itaú Asset, explica que pesa o fator educacional na hora de atrair investidores. O IMAB11 foi o único dos ETFs de renda fixa do Itaú a ter oferta pública, além de envolver um forte trabalho de conscientização por ter nascido dentro de uma iniciativa do Itaú em parceria com o Tesouro Nacional e o Banco Mundial para desenvolver o mercado.

Já o IMBB11, do Bradesco, chegou ao mercado meses depois do concorrente, mas não conseguiu atrair o mesmo número de cotistas, mesmo com uma taxa mais baixa. Roberto Lucchesi, gestor de indexados da Bradesco Asset Management, atribui o movimento às taxas de juros historicamente baixas que acabaram afastando alguns investidores.

“Nossos ETFs têm a menor taxa de administração do segmento, de 0,20%, e um descolamento menor do índice no mercado secundário”, destaca.

Especialistas consultados pela reportagem, também reforçam a importância de ter uma taxa de administração baixa para garantir um retorno não muito distante do índice replicado. Segundo Luciana Ikedo, quanto menor o custo, melhor.

Quando comparados os desempenhos, no acumulado de 2020 até 21 de março de 2022, o IMAB11 valorizou 5,97%, enquanto o IMBB11 subiu 5,14%, segundo dados da Economatica. No mesmo período, o IMA-B teve um retorno de 5,84%, de acordo com a Comdinheiro.

IB5M11 e B5MB11 para títulos de inflação longos

Existe também a possibilidade do investidor se expor à dívida pública atrelada à inflação de longo prazo, por meio dos ETFs IB5M11 e B5MB11, com taxa de administração de 0,25% e 0,20%, respectivamente.

Ambos replicam o índice IMA-B5+ da Anbima. No entanto, esta é uma das alternativas não recomendadas pelos especialistas.

Isso porque quanto maior o prazo de vencimento, maior a volatilidade e menor a previsibilidade de retorno do investimento. Luiz Felippo, da Nord Research, destaca que o País vive um cenário econômico desafiador. No âmbito local, as eleições presidenciais podem acabar afetando o rumo da política fiscal, trazendo incerteza para títulos públicos longos.

Já na seara internacional, o ciclo de alta dos juros americanos para controlar a inflação também preocupa e pode acabar pressionando a curva de juros longa no Brasil. “Tem títulos longos entregando retornos reais elevados de 6% ao ano, mas ainda é preciso cautela”, aponta Felippo.

Já Luciana Ikedo destaca que este tipo de ETF, com uma cesta de longo prazo, pode servir para objetivos longos como aposentadoria. No entanto é importante levar em conta a volatilidade. Outro fator que ela destaca é que os ETFs de renda fixa sofrem marcação a mercado.

O IB5M11 e o B5MB11 reúnem na sua cesta de ativos títulos Tesouro IPCA+, com e sem juros semestrais, com vencimento igual ou superior a cinco anos. “Isso significa que a duration ou prazo médio para o investidor receber o dinheiro seria acima de cinco anos”, aponta Felippo.

Ambos os ETFs investem em dez títulos públicos com vencimentos que vão de 2027 até 2060. A maior concentração está no Tesouro IPCA+ 2050.  O rebalanceamento da cesta de ativos é mensal.

O IB5M11 tem 1.434 cotistas e o B5MB11 tem 65 cotistas. Compare os desempenhos dos ETFs:

 

Menos atrativo, IRFM11 para investir em prefixados

Ainda entre os ETFs de renda fixa está o IRFM11, do Itaú, que permite ao investidor ter exposição a uma cesta de títulos públicos prefixados – com e sem juros semestrais. A carteira do ETF tem um prazo médio de vencimento igual ou superior a dois anos

O ETF acompanha o índice IRF-M P2 da Anbima, que é rebalanceado mensalmente. Na cesta de ativos é possível encontrar 16 títulos Tesouro Prefixado com vencimentos entre 2022 e 2033. O maior peso da carteira é o Tesouro Prefixado 2024, com 18,24% de participação.

A taxa de administração do IRFM11 é de 0,20% ao ano. Atualmente o ETF tem 299 cotistas.

Entre todos as alternativas citadas na reportagem, os especialistas consultados pelo InfoMoney consideram o IRFM11 a menos atrativa. Isso porque em um cenário de alta de juros, títulos prefixados podem trazer um desempenho ruim ao investidor, caso a Selic suba acima da taxa prefixada oferecida. Considerando o prazo médio de vencimento superior a dois anos, seria uma escolha arriscada. Em 2022, por exemplo, o IRFM11 tem rentabilidade negativa de 0,44%, segundo dados da Economatica.

Cadê os investidores?

Os ETFs de renda fixa ainda engatinham quando o assunto é atrair investidores. Mas o que justifica o baixo interesse?

Segundo os gestores, pesa o fato de que os lançamentos destes ETFs aconteceram principalmente em 2019, período em que os juros estavam em queda – aprofundada em 2020, como consequência da pandemia de coronavírus.

Segundo Roberto Lucchesi, gestor de indexados da Bradesco Asset Management, as taxas de juros baixas fizeram os investidores procurar outras alternativas com retornos maiores, como a renda variável local e internacional, o que justificaria a pouca liquidez e o fluxo de investimento menor nos ETFs de renda fixa.

Com a Selic atualmente em 11,75% ao ano, Lucchesi acredita que esta realidade pode mudar. “Dada a volta ao nível das taxas de juros reais próximo a 6% ao ano, esse tipo de investimento passa a ser atrativo para capturar os possíveis prêmios, além da preservação de patrimônio da inflação”, afirma o gestor da BRAM.

Ele aponta também alguns movimentos feitos pela B3 para aumentar a liquidez dos ativos, como permitir que ETFs de renda fixa sejam aceitos como margem de garantia a partir de 2020 e a possibilidade de utilizá-los em operações de aluguel ou empréstimo.

“Isso pode melhorar a atuação dos formadores de mercado e abre possibilidades para novas estratégias de investimento como venda, hedge e arbitragem”, avalia Lucchesi.

Para Renato Eid Tucci, superintendente de Estratégia Beta e Integração ESG da Itaú Asset, o processo de diversificação do investidor na Bolsa é recente e ainda muito focado em estratégias de volatilidade. Ele avalia que ainda causa um certo estranhamento a ideia de investir em renda fixa no pregão, o que justificaria a baixa procura pelos ETFs do segmento.

“Para o investidor que busca receber cupom os ETFs não seriam uma boa alternativa, mas para aqueles que não esperam pelo cupom e procuram uma estratégia diversificada com baixo custo, ETFs são muito eficientes”, destaca.

 

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