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Trabalhar mais ou arriscar?

Queda dos juros traz à tona um dilema para quem está poupando para se aposentar: é melhor tomar um risco maior ao investir ou trabalhar (e contribuir) por mais anos?

Aposentadoria - Preocupado
(Getty Images)

SÃO PAULO - Uma decisão anunciada no final do ano passado pelo governo federal colocou em evidência uma questão com a qual todos os brasileiros terão de aprender a lidar daqui em diante. Com a queda dos juros e dos retornos das aplicações de renda fixa, ou os poupadores conseguem garimpar bons investimentos em um universo de aplicações com maior risco ou terão de guardar mais dinheiro durante mais tempo para conseguirem se aposentar com uma renda satisfatória.

A medida, anunciada pelo Conselho Nacional de Previdência Complementar (CNPC) no final de novembro, vale apenas para os fundos de pensão restritos a funcionários de determinadas empresas, mas serve de alerta para todos os demais poupadores, que terão o mesmo problema. O CNPC decidiu reduzir, de forma gradual, a meta atuarial dos fundos de pensão de 6% para 4,5% ao ano acima da inflação. Se por um lado os gestores não precisarão correr riscos exagerados para atingir suas metas, o outro lado da moeda é que o dinheiro dos contribuintes vai render menos nos próximos anos. A pressão sobre o caixa das empresas foi a explicação para a mudança, que só vale para planos de aposentadoria com benefício definido (BD, no jargão do mercado). O líder de investimentos da consultoria Mercer, François Racicot, explica que, nesses casos, quando as metas atuariais não são atingidas, as empresas patrocinadoras precisam colocar dinheiro do próprio caixa para que os beneficiários do plano consigam receber o que lhes foi prometido no passado como aposentadoria. No caso do plano de contribuição definida (CD), a empresa é quem determina a meta a ser seguida e não tem obrigação de alcançá-la - apenas auxilia na contribuição do funcionário, que aplica uma porcentagem do seu salário mensalmente. E diferentemente do plano BD, o participante do CD se aposenta com um montante de dinheiro e decide o que fazer com ele. “Nesse modelo, você não tem uma garantia de aposentadoria, e sim um saldo para ser utilizado”, aponta o sócio da Aditus Consultoria Alan Infante.

Mudança de comportamento
Diante de uma Selic a 7,25% ao ano, não são apenas os investidores de fundos de pensão que deverão mudar sua postura. “A meta atuarial é apenas um reflexo do ambiente que estamos vivenciando hoje, com taxas de juros mais baixas”, diz Racicot.

Agora, é preciso montar uma carteira mais diversificada para conseguir um bom retorno.Gostem de risco ou não, os investidores terão de manter no radar o mercado de ações se quiserem obter um retorno representativamente maior que a Selic ou o CDI. Para os mais conservadores, uma boa opção para incluir na carteira pode ser as ações de empresas com fluxo de caixa constante e bom histórico de distribuição de dividendos.

“Outra boa alternativa são as small caps, tanto para os fundos de pensão como para os investidores de maneira geral”, sugere o presidente do fundo Paraná de Previdência Multipatrocinada, Renato Follador. Nesse caso, entretanto, o investidor deve ter em mente que o risco de a aplicação não apresentar os resultados esperados é maior. “No que diz respeito à renda fixa, papéis privados como debêntures e FIDCs [fundos que investem em crédito privado] também são interessantes, mas são um pouco mais caros. Fundos imobiliários são outra alternativa para diversificar”, diz Follador.

Já os títulos públicos do Tesouro Direto, aplicações nas quais os fundos costumavam investir de maneira maciça, continuam uma boa alternativa para uma carteira diversificada, mas é preciso ter cautela, pois os papéis da dívida pública não terão mais retornos tão altos como antes. “Acabou o milagre brasileiro de ter ganhos estratosféricos aplicando nos títulos públicos. O investidor vai ter que partir para a economia real, vai ter que arriscar mais”, afirma Follador. Se investir em ativos mais arriscados implica no risco de perda em algum momento, ficar parado tampouco é uma boa opção. Quem investir apenas em papéis de baixíssimo risco muito provavelmente terá o dinheiro remunerado por um índice inferior à inflação – perdendo poder de compra ao longo dos anos, portanto. Nos últimos meses, o IPCA já vem batendo o retorno líquido de aplicações como a nova poupança ou os fundos DI.

Iniciar a poupança mais cedo ou separar um percentual maior da renda para garantir a aposentadoria também são possibilidades que o investidor terá de analisar . “O participante do fundo precisa se questionar se a quantia contribuída é suficiente para ele ter uma boa aposentadoria. Atualmente, a maioria contribui com o mínimo ou com muito pouco, mas pode ser preciso aumentar os aportes”, diz Infante. Caso não tomem uma decisão dolorosa agora, muitos poupadores terão de trabalhar por mais tempo no futuro.

Impacto no bolso
O educador financeiro e fundador da Academia do Dinheiro, Mauro Calil, calculou quanto o investidor deixará de receber com a redução da meta atuarial dos fundos de pensão de 6% para 4,5% ao ano, considerando uma inflação anual média de 5%.Suponha que uma pessoa aplique R$ 500 mensalmente no fundo de pensão de sua companhia. Com a meta atuarial em 6%, ele conseguiria acumular R$ 80.442 em 10 anos. Já com a nova meta estabelecida pelo CNPC, Antônio precisaria aplicar R$ 537,90 para conseguir o mesmo resultado.

Se aumentarmos o período de contribuição para 25 anos, considerando que a pessoa aplique a mesma quantia (R$ 500), ele teria obtido R$ 328.888 com a meta atuarial em 6%. Com a nova meta, para juntar o mesmo montante, seria necessário que ele aumentasse seus aportes para R$ 613,02 por mês, uma diferença de quase 23% a mais.

E se estendermos o tempo para 35 anos, a diferença ao investir com uma meta de 6% e de 4,5% sobe para 35,42%. Enquanto no primeiro caso ele estaria investindo os mesmos R$ 500, no segundo essa quantia seria de R$ 677,09 mensais.

 

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