Sob novo comando

Por que o México destoou de outros mercados latino-americanos em 2019?

Investidores têm se entusiasmado com as reformas promovidas pelo presidente López Obrador e com o processo de redução dos juros no país

(Pixabay)

SÃO PAULO – A guerra comercial entre Estados Unidos e China, que chegou à primeira fase de um acordo neste mês, e as tensões que eclodiram de forma inesperada na América Latina, especialmente no Chile, deixaram o ambiente para investimentos na região bastante turbulento nos últimos meses, com repercussões nos mercados de moedas e de Bolsa.

Um país, contudo, parece ter passado de certa forma ileso pelos eventos em países vizinhos e reinado com destaque em diversas carteiras de gestores: o México.

De olho nas mudanças em curso no país, governado pelo líder de esquerda Andrés Manuel López Obrador, que assumiu a presidência em dezembro de 2018, investidores têm se entusiasmado com as reformas promovidas e, principalmente, com as oportunidades de ganhos por meio do processo de redução de juros implementado pelo banco central (o Banxico).

Com uma flexibilização monetária iniciada em agosto, a taxa de juros mexicana já foi cortada de 8,25% para os atuais 7,25%, e analistas acreditam que há espaço para cair ainda mais.

“O México talvez seja, das histórias positivas, a mais interessante do ano na América Latina”, diz Giovani Silva, CIO da gestora BlueLine. Para ele, o México apresenta fragilidades importantes, que podem atuar como gatilhos para investimentos, assim como pontos positivos, que apontam para uma melhora da economia. O ciclo de queda dos juros lembra, em parte, a trajetória no Brasil, iniciada em 2016.

Entre os aspectos favoráveis, Silva chama atenção para a desaceleração da inflação – que passou de 4,37% ao ano, em janeiro, para 2,97%, em novembro –, que abre espaço para novas quedas dos juros e, consequentemente, para a retomada do crescimento.

Ele também destaca a melhora da situação do fluxo de caixa da estatal petroleira Pemex, o que teria afastado o risco de rebaixamento da classificação de risco de crédito no curto prazo; a maior austeridade fiscal implementada pelo governo; e a expectativa de redução da interferência no setor privado, depois do cancelamento no ano passado de um contrato para construção de um novo aeroporto no país, com orçamento da ordem de US$ 13 bilhões.

“Há uns seis meses estamos mais otimistas”, diz Silva. “As coisas negativas estão parcialmente endereçadas, com austeridade fiscal, juros muito altos, melhora das contas externas e alta popularidade do presidente, que começou como um patinho feio e está terminado o ano numa posição muito mais interessante, do ponto de vista de percepção do investidor.”

A BlueLine gosta dos mercados de câmbio e juros mexicanos, e espera que a taxa básica encerre o ciclo de queda próxima a 5,5% ou 5% ao ano.

Ainda há espaço para ganhos?

A Truxt Investimentos também tem acompanhado de perto o movimento mexicano, mas decidiu reduzir a alocação nas últimas semanas, de olho na maior cautela do banco central para conduzir os cortes de juros e também no aumento do salário mínimo, de 20%, a partir de janeiro de 2020.

Fábio Bichmacher, gestor da Truxt Investimentos, assinala que o aumento exerce hoje um risco para a política monetária, diante de seu impacto sobre a inflação.

No outro sentido, a assinatura de um novo acordo de livre-comércio com os Estados Unidos e o Canadá neste mês, em substituição ao Nafta, é apontado pelo gestor como um fator positivo para o país, assim como a melhora do ambiente para mercados emergentes, em meio à trégua da guerra comercial sino-americana.

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Da mesma forma, a fraqueza da economia tende a contrabalançar a pressão exercida pelo novo patamar do salário mínimo na inflação – a Truxt espera uma queda de 0,1% do PIB mexicano em 2019.

“Acreditamos que esses fatores vão compensar o aumento do salário mínimo, mas o banco central deverá ser mais cauteloso no curto prazo. Víamos o risco de o BC acelerar o ritmo de cortes para 50 pontos-base, mas agora esperamos reduções de 25 pontos”, diz Bichmacher.

Desde o início do processo de corte de juros, o Banxico tem adotado reduções de 0,25 ponto percentual na taxa e, em dezembro, quando os juros passaram de 7,50% para 7,25% ao ano, não foi diferente.

Juros de 5% a caminho?

Embora com menor exposição ao mercado, a Truxt segue com alocação em renda fixa, especialmente na parte curta da curva de juros, isto é, nos papéis com vencimentos menores. A gestora espera que a taxa básica de juros do México caia para perto de 5% ao ano.

“Nosso cenário indica que o México não consegue crescer e tem um nível de juro nominal muito mais alto que o de países similares. O banco central tem que cortar risco, mas está numa fase bem conservadora. Mas como o país não está crescendo, dá para fazer mais”, destaca José Tovar, CEO da Truxt.

Da mesma forma que a Truxt, a Ibiuna Investimentos reduziu taticamente a alocação em juros no México em novembro, por conta da reprecificação no mercado. Apesar do movimento, a gestora destacou, em carta divulgada no início de dezembro, que segue vendo um aprofundamento no ciclo de juros diante de uma desaceleração relevante da inflação e da atividade, e um repasse cambial reduzido, em meio à ainda elevada taxa de juros real.

Gestoras como Kapitalo também carregavam, até o início deste mês, posições no México, tanto em juros quanto compradas em peso mexicano.

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