Entrevistas InfoMoney

Por que a Bolsa é hoje a melhor classe de ativos no Brasil para a Western Asset

Sérgio Evangelista, gestor de portfólio da gestora, destaca ainda que, na renda fixa, principal oportunidade recai sobre papéis prefixados de até três anos

(Getty Images)

SÃO PAULO – Com o Brasil a uma semana de ter sua taxa básica de juros provavelmente reduzida mais uma vez, agora para 2% ao ano, o governo tem lançado mão de diferentes ferramentas não só para minimizar os efeitos da crise gerada pelo coronavírus, como para tentar colocar a economia nos trilhos novamente, passado esse período mais turbulento.

O patamar estimulativo dos juros, no entanto, não deverá ser suficiente para os desafios que se colocam à frente. Na avaliação da Western Asset, responsável pela gestão global de US$ 480 bilhões, dos quais R$ 45 bilhões em recursos no Brasil, o lado fiscal é hoje o “grande gargalo” do país e o governo precisar se empenhar em fazer “menos barulho” para retomar o interesse do investidor estrangeiro, além de contar com um câmbio mais estável.

Em entrevista ao InfoMoney, Sérgio Evangelista, gestor de portfólio da Western Asset, falou da avaliação da casa sobre a saída brasileira da crise, abordou os riscos no horizonte – as eleições presidenciais americanas não são, por ora, um problema – e apontou onde estão as principais oportunidades no mercado neste momento.

Apesar da forte retomada dos preços, a Bolsa segue como o principal ativo a ser explorado, mas há títulos de renda fixa, especialmente prefixados, também no radar.

A Western, que atua principalmente em estratégias de renda fixa no mercado brasileiro, tem nos investidores institucionais a maior parcela do patrimônio, com 75% de representação, ante 25% do público de varejo.

Confira a seguir os principais trechos da conversa.

Mais uma queda da Selic

Com a avaliação que o Banco Central brasileiro decidiu atuar na crise com estímulos monetários em ritmo um pouco atrasado, embora na direção correta, as expectativas para a recuperação estão melhorando e contribuindo para uma parte da correção vista nos mercados.

“Por conta de estímulos de um lado, arrefecimento da pandemia de outro, vimos uma retomada ainda que ligeira da confiança, do lado da economia, e também do lado político”, diz Evangelista.

A Western vê espaço para o BC seguir com os cortes da Selic diante das incertezas, mas acredita que a redução dos juros básicos será interrompida no patamar dos 2% ao ano, com a taxa voltando a subir apenas ao fim de 2021, para um nível entre 2,75% e 3% ao ano.

“É um juro estável, mas não tão estimulativo quanto será necessário para o período que teremos pela frente.”

Tão importante quanto saber o próximo passo do Banco Central, diz Evangelista, é buscar entender por que o juro deve permanecer baixo por um longo período de tempo. Para o gestor da Western, a recuperação econômica após a retirada dos estímulos se dará de maneira muito lenta, especialmente em países emergentes como o Brasil, que já enfrentavam um crescimento baixo antes da crise.

“O governo teve que fazer desembolsos que não estavam previstos para passarmos por esse período com riscos menores, mas a conclusão é que, olhando para frente, a recuperação vai continuar sendo lenta. Por isso, a taxa continuará estimulativa por um período muito maior.”

Juros em baixa, Bolsa em alta

Se por um lado os juros em um patamar tão baixo representam a dificuldade de crescimento brasileiro, por outro, serão um estímulo adicional para o mercado acionário.

A Western tem uma visão construtiva para ações nos próximos 12 meses e enxerga o Ibovespa no patamar dos 115 mil pontos no período, o que implica alta da ordem de 10,5% sobre o nível de fechamento de terça-feira (28).

O foco das atenções recai sobre os setores de varejo, mercado de capitais e saúde. Papéis como de Magazine Luiza, B3 e SulAmérica são colocados como os mais promissores para o segundo semestre.

“Com os juros baixos por um tempo maior, você continuará a ter a Bolsa como um investimento atrativo quando comparado a outras classes de ativos”, defende Evangelista.

Leia também:
Euro, ouro, ativos indexados à inflação e economia real: as recomendações dos gestores para os novos riscos no pós-pandemia

A migração em curso por conta do CDI em um patamar baixo no Brasil deverá prosseguir, na visão do gestor, com o investidor em busca de prêmios mais atrativos, ainda que com riscos substancialmente maiores.

“O risco tanto de juros quanto de Bolsa é o de ter uma economia que desande. E o maior risco vem do lado fiscal”, afirma Evangelista, de olho no crescimento da relação dívida/PIB.

Prefixados no radar

Na renda fixa, depois dos ganhos obtidos com apostas em papéis com vencimentos mais curtos para capturar novos cortes de juros, o foco da Western está voltado agora para o “miolo” da curva, isto é, títulos prefixados com vencimentos em dois ou três anos.

As incertezas sobre o novo juro de equilíbrio e relacionadas ao cumprimento da meta fiscal têm beneficiado os prêmios pagos pelos papéis com esses prazos, diz Evangelista, que também enxerga oportunidades, ainda que menores, nos vencimentos mais longos.

Nesse segundo caso, a atenção recai sobre títulos indexados à inflação e vencimento em 2050, com retornos reais atualmente pouco abaixo dos 4% ao ano.

Ancoragem inflacionária veio para ficar

Como o gestor pontuou em diversos trechos da conversa, o fiscal é hoje o “grande gargalo” do Brasil. E é preciso também que o governo faça “menos barulho” para que possa atrair investimentos ou incentivar aportes internos.

O risco de o Brasil enfrentar um quadro inflacionário está descartado pela gestora, tanto pelo ambiente externo quanto pelo doméstico. Apesar dos esforços do governo, o país vai demorar a engatar uma recuperação após o fim dos estímulos.

A expectativa da Western é de uma retração de 5,5% do PIB brasileiro em 2020, com um crescimento de 2% a 2,5% em 2021. A retomada, assinala Evangelista, não seria forte o suficiente para ter impacto sobre a inflação e levar a um aperto monetário antes do tempo previsto.

Eleições americanas ainda fora do radar

Embora estejam cada vez mais no centro dos debates, as eleições presidenciais americanas também não preocupam a Western o suficiente para já ter impacto nas alocações.

Fazendo coro ao discurso do mercado financeiro, o gestor de portfólio avalia que uma vitória dos democratas poderia despertar preocupações com relação a um aumento de tributos, mas não vê o risco precificado pelos mercados, mesmo com a vantagem de Joe Biden sobre Donald Trump nas pesquisas mais recentes.

“Acho que está cedo, não faz parte ainda do nosso processo de decisão”, explica o gestor. “O peso da saída da crise, da retomada da economia, ainda gera muito mais dúvidas, é muito maior do que o de colocar uma vitória dos democratas à frente.”

Volatilidade cambial x Interesse estrangeiro

Com uma recuperação puxada pela atuação principalmente do investidor brasileiro, o estrangeiro ainda parece longe de querer voltar ao mercado local. E o câmbio pode estar prejudicando ainda mais esse movimento, na visão do gestor da Western.

“O estrangeiro precisa enxergar no câmbio uma clareza, e não é uma clareza de nível, mas com relação ao tema do momento: a volatilidade”, observa Evangelista.

Ainda que o real precise ser estruturalmente mais depreciado em relação ao dólar, diz, é fundamental ter certa estabilidade para que o investidor possa montar posições. Especialmente agora, que os juros brasileiros deixaram de ter apelo.

“E o estrangeiro precisa enxergar que esse governo é comprometido com ajustes, que vai continuar na direção correta.”

A carreira que mais forma milionários: conheça o primeiro MBA do Brasil totalmente dedicado ao mercado de ações