Petróleo e dólar expõem dilemas da nova ordem global após ação dos EUA na Venezuela

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Osni Alves

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O mercado de petróleo passou a refletir, de forma direta, os efeitos da nova postura geopolítica dos Estados Unidos. Segundo Artur Wichmann, CIO da XP, no curto prazo, mesmo uma eventual interrupção da produção venezuelana não seria suficiente para provocar um choque relevante de oferta no mercado internacional.

“A Venezuela produz cerca de 945 mil barris por dia, volume que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) tem capacidade de suprir”, afirmou.

A leitura muda quando o horizonte de análise se estende para o médio e o longo prazo. A Venezuela concentra as maiores reservas de petróleo do mundo, estimadas em aproximadamente 300 bilhões de barris, localizadas principalmente na Bacia do Orinoco.

“Na década de 90, o país produzia 3,5 milhões de barris por dia. Se voltar a esse patamar, é como trazer metade de um Iraque de volta ao mercado”, disse Wichmann.

Na avaliação do executivo, a eventual reabertura dessas reservas, com capital e tecnologia americanos, teria um efeito estruturalmente baixista sobre os preços do petróleo.

Você está tornando acessíveis cerca de 20% das reservas globais que estavam fora do mercado”, afirmou. O movimento, no entanto, não ocorreria sem obstáculos relevantes.

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Wichmann ressaltou que o desafio logístico e financeiro é elevado, dado o estado da infraestrutura venezuelana e as características do óleo produzido no país.

“A infraestrutura está muito depreciada e o petróleo é pesado. Será necessário um ciclo de investimentos de centenas de bilhões de dólares em exploração, refino e logística”, explicou.

Dólar oscila com risco geopolítico, mas fluxo estrutural favorece emergentes

No campo macroeconômico, Fernando Ferreira, estrategista-chefe da XP, destacou que a ação dos Estados Unidos ocorre em um momento em que investidores globais já vinham questionando a concentração excessiva em ativos americanos.

“Em 2025, o grande evento macro foi a forte queda do dólar, a maior para um primeiro semestre desde 1973”, lembrou.

Esse enfraquecimento da moeda americana impulsionou a migração de recursos para outros mercados, especialmente os emergentes.

“A bolsa brasileira subiu cerca de 50% em dólares no ano passado”, afirmou, destacando que esse movimento vai além de um ajuste pontual de portfólio. “É uma mudança estrutural, uma mudança de placa tectônica, que pode durar vários anos”, disse.

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No curto prazo, contudo, o aumento da tensão geopolítica provocou um movimento inverso, com fortalecimento do dólar, típico de momentos de maior aversão ao risco.

“É um movimento de risk-off, mas parece algo temporário”, avaliou. Para o estrategista, esse efeito não altera a tendência estrutural observada nos fluxos globais.

No caso do Brasil, Ferreira reforçou que os fatores domésticos devem continuar no centro das atenções dos investidores.

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“Juros e eleições são os dois grandes temas para os ativos brasileiros em 2026”, afirmou, indicando que o comportamento do dólar e o apetite por risco dependerão menos do choque externo e mais das decisões de política monetária e do cenário político interno.