Perdeu o rali da Bolsa? Fique de olho nas small caps, que ficaram para trás

Empresas de menor porte ficaram de fora do fluxo de estrangeiros, mas dependem de juros menores e crescimento

Angelo Pavini

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Pessoas observam o painel de ações no Espaço B3 (Foto: Divulgação)
Pessoas observam o painel de ações no Espaço B3 (Foto: Divulgação)

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Os fundos de ações de small caps, empresas de menor porte ou capitalização, ficaram para trás no rali da Bolsa, que começou no ano passado e continuou neste ano, interrompido por uma correção vinda da reversão do fluxo estrangeiro ao País: após uma sequência recorde de 14 semanas de entradas, com US$ 13,4 bilhões no total, a última semana registrou US$ 840 milhões em saídas. Nesse período, as small caps pouco andaram.

O Índice de Small Caps (SMLL) sobe 7,30% no ano, ante 19% do Ibovespa. Antes da reversão do fluxo, até 14 de abril, os fundos de ações de small caps renderam 9,13%, enquanto os fundos ativos subiram 20,6%. A expectativa era de que, em algum momento, o valor das ações de menor porte também fosse subir. Ainda dá para esperar que isso aconteça? E como aproveitar essa onda com segurança se ela realmente vier?

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Até aqui, quem está se dando melhor este ano é quem aplicou em fundos passivos que replicam o Ibovespa, e por isso investem muito em Petrobras (PETR4), Vale (VALE3) e Itaú Unibanco (ITUB4), empresas que acabaram não sofrendo tanto com a volatilidade da guerra, explica Evandro Buccini, diretor de Crédito da Rio Bravo Investimentos.

Já quem teve o pior desempenho foram justamente os fundos de small caps, que acompanham o desempenho de empresas menores, que ficaram de fora do rali do início do ano e acabaram sofrendo mais com os efeitos do conflito.

Janela interessante

Especialistas afirmam que small caps podem ser uma alternativa interessante para quem perdeu o movimento das grandes companhias, desde que o investidor esteja disposto a ter paciência e tolerância à volatilidade no médio e longo prazo.

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“Se imaginarmos que o cenário da guerra vai melhorar em algum momento, deve ocorrer uma mudança de cenário em que essas ações que ficaram para trás se recuperem, especialmente com esse cenário político conturbado que vem pela frente e pode afetar bastante Petrobras”, afirma Buccini, em referência às eleições presidenciais.

Se o ciclo de redução de juros continuar, mesmo que de forma gradual, e se houver melhora na percepção de risco doméstico, as small caps podem ganhar protagonismo”, concorda Marcelo Boragini, sócio e especialista em renda variável da Davos Investimentos, que também alerta sobre a eleição presidencial: “tem muita água para rolar até o fim do ano”.

Já Gustavo Assis, da Asset Bank, ressalta que o desconto nas small caps abre uma janela de entrada atrativa, desde que com seletividade, foco em empresas de fundamentos sólidos e boa geração de caixa, e com a carteira equilibrada por ativos mais previsíveis, como crédito estruturado e FIDCs.

Atalho difícil

As small caps podem ser uma alternativa para quem quer aproveitar o momento das ações, mas exigem cautela: são mais voláteis, menos líquidas e tendem a sofrer mais em ambientes de juros altos e aversão a risco, embora se beneficiem em ciclos de queda de juros ou retomada de atividade.

Para Fabiano Cintra, da XP, a escolha não deve se basear apenas no fato de determinado papel “não ter subido”, mas sim em fundamentos como balanço, alavancagem, governança e dinâmica setorial.

Especialistas recomendam que o investidor pessoa física prefira fundos com gestão ativa e carteira diversificada, com horizonte mínimo de dois a três anos, ressaltando que a diferença de desempenho entre gestores nessa classe é grande, o que torna a escolha do fundo tão importante quanto a decisão de investir.

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“A dispersão entre gestores em small caps é enorme, então a diligência na escolha do fundo é ainda mais crítica”, explica diz André Matos, CEO da MA7 Negócios. Segundo ele, o investidor não deve decidir apenas olhando para o passado. “Quem quer entrar em small caps só porque ficou barato precisa entender o risco que está assumindo”.

Quais são os riscos reais?

Os analistas convergem para uma série de cuidados para quem considera investir em small caps. Boragini, da Davos, destaca três pontos: ter paciência com a volatilidade e horizonte longo, avaliar a consistência do gestor em diferentes ciclos, não apenas o retorno recente, e checar a liquidez do fundo, especialmente em momentos de estresse.

Ele acrescenta que, embora o ciclo recente tenha premiado grandes empresas e estratégias mais líquidas, o debate começa a migrar de fluxo para fundamentos, o que pode trazer as small caps de volta ao radar, desde que o investidor conheça seu perfil e esteja preparado para uma volatilidade de natureza diferente da encontrada em blue chips.

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Assis, da Asset Bank, reforça que o desconto nessas empresas não é gratuito: em ambiente ainda restritivo, elas carregam mais sensibilidade a juros, crédito e crescimento, sendo, portanto, uma questão de cenário, não apenas de preço.

Na mesma linha, Marocke, da Faz Capital, alerta que o ciclo de juros elevados afeta de forma assimétrica as empresas menores, com custo de crédito mais alto e estrutura de capital mais frágil — e que, em muitos casos, o desconto já embute as incertezas que o mercado antecipou. “O risco não está ausente, está precificado.”