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SÃO PAULO – Diante das perdas dos fundos no mês de maio, quando o Banco Central e a CVM optaram por antecipar a exigência de marcação a valor de mercado dos ativos da carteira dos fundos, muitos investidores se perguntam o porque da decisão do BC de antecipar o prazo para adequação às novas regras de setembro para maio.
Antecipar mudanças nas regras limitou perdas
A resposta a esta pergunta é bastante simples, porque se o ajuste fosse realizado somente em setembro, os pequenos investidores certamente seriam ainda mais prejudicados. Isto porque as perdas com a marcação a mercado podem ser recuperadas se o investidor mantiver suas aplicações até a data de vencimento dos títulos, enquanto aquelas geradas pelo saque de recursos antes da marcação a mercado não podem ser recuperadas.
Como já discutimos em artigos anteriores, uma das razões para a opção pela marcação a mercado, além de garantir maior transparência dos investimentos, é permitir um maior equilíbrio nos ganhos obtidos por dois investidores que aplicam em um mesmo fundo.
Oportunidade com segurança!
Como os fundos têm sofrido fortes saques desde fevereiro deste ano, com os investidores migrando para ativos reais, preocupados com a instabilidade política do país em um ano de eleições presidenciais, quem sacou antes das mudanças acabou recebendo mais, pois vendeu suas cotas por um valor estimado que era maior do que o valor pela marcação a mercado.
Desta forma, a perda acabou sendo transferida para os investidores que não sacaram antes. Como os grandes investidores em geral têm acesso mais rápido à informação, o BC optou por antecipar a mudança nas regras para evitar que estes sacassem antes, deixando as perdas para serem absorvidas exclusivamente pelos pequenos investidores.
Marcação a mercado desde 1995
Contudo, a maior surpresa entre os investidores ficou por conta do porque não haviam sido informados antecipadamente das mudanças nas regras dos fundos. Antes de mais nada, é preciso lembrar que a marcação a mercado já é recomendada pelo BC desde 1995, sendo inclusive adotada por alguns bancos há anos, especialmente os bancos de controle estrangeiro, que já adotam estas práticas na matriz.
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Desde o início do ano, mais precisamente fevereiro, o BC informou o mercado que o prazo para se adaptar às novas regras iria até o final de setembro, esperando que as instituições aproveitassem este intervalo de sete meses para efetuar os ajustes gradualmente, limitando as perdas para os investidores. Entretanto, o aumento das incertezas no mercado levou os fundos a registrarem fortes saques de recursos desde fevereiro, forçando os fundos a realizar perdas na parcela de recursos sacados antes da mudança nas regras.
Um exemplo prático da marcação a mercado
Para compreender melhor como funciona a marcação a mercado, imagine um fundo com patrimônio de R$ 20 mil, que conta com dois investidores, cada qual com uma cota de R$ 10 mil. Se um dos dois investidores sacasse o dinheiro teria direito a receber R$ 10 mil. Agora imagine que, com a mudança nas regras, o patrimônio do fundo caia para R$ 18 mil, desta forma os dois investidores teriam direito a uma cota de R$ 9mil, arcando cada um com uma perda de R$ 1 mil.
Contudo, caso um deles sacasse antes da marcação a mercado, então sacaria R$ 10 mil, isto é, o valor da cota antes do ajuste, e transferiria sua perda de R$ 1 mil para o investidor que não sacou, que ao invés de perder apenas R$ 1mil acabaria perdendo R$ 2 mil. Os R$ 1mil referentes ao primeiro investidor que sacou antes não podem ser recuperados, mas os outros R$ 1 mil, que eram de fato a parcela das perdas com o ajuste a que teria direito, podem ser recuperados se ele permanecer no fundo até o resgate dos títulos, pois o valor de resgate dos títulos foi preservado. Neste caso, ao invés de perder 20%, ou R$ 2 mil, o investidor reduziria suas perdas para 10%, ou R$ 1mil.
Assim sendo, fica fácil verificar que mesmo com as quedas dos valores das cotas sofridas nos últimos dias, a tendência é que no vencimento os fundos recuperem todo prejuízo, a não ser os que foram causados pelos saques acima do valor das cotas antes da marcação a mercado.