Cautela

Paulo Leme defende plano de saída fiscal no Brasil e alerta que retomada não será isenta de riscos

Em live, chairman do comitê global de alocação da XP Private disse que não descarta segunda onda de contágio pelo coronavírus

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SÃO PAULO – Atento aos desdobramentos da epidemia do coronavírus no mundo, Paulo Leme, que acaba de assumir como chairman do comitê global de alocação da XP Private, destacou as questões que o preocupam com relação à economia brasileira.

A primeira diz respeito à governança, ou à falta dela. Aos olhos de um investidor estrangeiro, seria fundamental ao Brasil demonstrar contar com liderança governamental, com harmonia entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, empoderamento dos ministros envolvidos com as partes econômica e fiscal do país e um alinhamento das estratégias.

“O mercado sempre responde bem a um direcionamento, a um sinal de que todos estão comprometidos com um programa e com um cronograma de implementação. Esse é o primeiro passo”, afirmou Leme, em live promovida pela XP na noite desta segunda-feira (18).

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O executivo, que ocupou o cargo de CEO da operação brasileira do Goldman Sachs e teve passagem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), disse ser fundamental ao país ter um plano de saída fiscal para poder ancorar o mercado, com um cuidado para que o aumento de gastos na epidemia não seja recorrente.

“Acho que o investidor estrangeiro está disposto a aceitar um nível mais alto da dívida bruta sobre o PIB desde que tenha um plano de saída”, disse Leme, também ressaltando a importância da retomada da agenda de reformas no Brasil.

Cuidado com uma segunda onda

Embora atento às boas notícias vindas de países que começam a reabrir suas economias, o executivo adotou um tom cauteloso com o futuro, sem descartar uma recaída dos mercados com uma segunda onda da epidemia. O cenário-base, contudo, aponta que os estragos feitos devem levar a uma contração global da ordem de 3,5% em 2020, com recuperação de até 6% em 2021.

Nos Estados Unidos, Leme espera uma retração de cerca de 6,5% neste ano, com recuperação de até 6% no próximo, com um maior estrago na Europa, onde espera que a economia tenha queda de 11% em 2020 e uma retomada de até 8%, em 2021.

Já a China deve perder fôlego, mas sem retração da atividade, com crescimento esperado de 3%, neste ano, e 8%, no próximo.

Leme disse esperar uma melhora a partir do terceiro trimestre e o início de 2021, e afirmou que, em até dois anos, o mundo deve ter um contexto muito parecido com o anterior ao da crise.

Apesar de elogios à atuação do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Leme ressaltou que a retomada dos mercados não está isenta de riscos. Uma segunda onda de contágio, com um retrocesso na abertura econômica e quebras de empresas, poderia levar a novos estragos nas bolsas.

O índice americano S&P 500, que fechou hoje no patamar de 2.953,91 pontos, poderia cair para cerca de 2.500 pontos neste cenário. Leme defendeu que o investidor tenha um horizonte de longo prazo e atento a oportunidades, caso haja um novo movimento vendedor, tanto na renda variável quanto na renda fixa, no mercado de maior risco (high yield).

Mesmo no universo dos títulos soberanos americanos, o executivo recomendou cautela, com a preocupação de um aumento dos rendimentos nas taxas de juros mais longas.

“No curtíssimo prazo, as treasuries podem ser um componente defensivo, mas, se o governo americano começar a crescer, pode ter yield aumentando para 1%”, ressaltou, apontando para o efeito negativo do movimento nas carteiras.

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