"Crise deve demorar mais que o previsto"

Atento à “tempestade perfeita” no país, Arminio Fraga defende mudança de rota e planejamento de mais longo prazo

"Vejo o programa de ajuda financeira como sendo correto, mas acho que já tinha que planejar o triplo. Não só três meses, mas nove", disse, em live da XP

SÃO PAULO – Com a visão de que o Brasil enfrenta hoje uma “tempestade perfeita”, com problemas em três grandes áreas – saúde, economia e política –, Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio-fundador da Gávea Investimentos, deu sua visão sobre o impacto da epidemia do coronavírus na economia brasileira e as medidas em curso pelo governo.

Em live transmitida pela XP Investimentos, disse que a primeira providência do governo deveria ser apontar o que pretende fazer na saúde.

“As pessoas precisam entender que o problema tem fim, ele acaba, mas provavelmente será maior do que imaginávamos”, afirmou, ressaltando que é preciso que o governo reaja com muita clareza, definindo estratégias de saída da crise de saúde e das consequências para a economia.

Arminio defendeu uma “mudança de rota” e um planejamento de maior alcance para a economia, com um volume necessário, porém “realista”.

“Vejo o programa de ajuda financeira como sendo correto, mas acho que já tinha que planejar o triplo. Não só três meses, mas nove”, disse o economista, em referência ao auxílio emergencial no valor de R$ 600 mensais destinado a trabalhadores informais, Microempreendedores Individuais (MEI), autônomos e desempregados.

O ex-presidente do BC disse que espera um aumento final de gastos pelo governo da ordem de R$ 500 bilhões, com um déficit primário de 8% a 10% do Produto Interno Bruto (PIB).

“É hora de recalcular a rota”, defendeu Arminio, que não descarta reduções temporárias de salários no funcionalismo, por exemplo. “[A crise] Não vai ser uma coisa rápida e a gente tem que se preparar para isso.”

A preocupação com o futuro fiscal do Brasil se impõe na possibilidade de os gastos assumidos na crise para ajudar a economia serem estendidos. No momento, disse o economista, a estratégia tem de ser de sobrevivência, inclusive financeira.

Durante a live, Arminio chegou a apontar que a dívida pública pode subir de 77% para 90% do PIB e que vê como possível uma queda de 6% da atividade. “Pode até cair mais, é preciso trabalhar para que isso seja uma coisa temporária.”

Teto de gastos

Em relação ao teto de gastos – regra criada em 2016 que impede o crescimento das despesas acima da inflação –, Arminio observou que foi uma decisão que trouxe certa disciplina e feita para sinalizar que o gasto público não poderia crescer para sempre. A regra, contudo, não necessariamente poderia ser cumprida à risca.

“Achei desde o início que o teto não foi feito para durar dez anos, mas ninguém vai falar isso”, afirmou. “Ele trouxe regras muito draconianas, mas, ao mesmo texto, não vai conseguir resistir por mais muitos anos.”

Ainda que gastos com funcionalismo e previdência caiam, o economista defendeu que o Brasil terá que gastar com áreas como saúde e infraestrutura, e que uma fatia dessas despesas terá de ser assumida pelo próprio Estado, inclusive como parte da correção de desigualdades, de um “país mais produtivo e mais justo”.

Bolsas “perigosas”

Sócio-fundador da gestora Gávea Investimentos, Arminio também comentou sobre o desempenho dos mercados e passou uma visão mais cautelosa sobre uma retomada.

“No momento, tenho mais medo de uma pernada para baixo do que de perder uma grande virada”, disse, em relação à Bolsa, admitindo que a visão está sujeita a erros.

Para o economista, o mundo financeiro não está barato, dada a “gigantesca” resposta de liquidez e financiamento dos governos. Utilizando como exemplo a medicina, ressaltou que seria como avaliar o estado de saúde de um paciente que recebesse uma dose maciça de cortisona.

“Ficaria meio desconfiado com uma bolsa caindo só 15%, acho que não está em preço de liquidação para comprar”, afirmou, em referência ao mercado americano.

E a visão é semelhante sobre o Brasil. Ainda que existam bons papéis, o economista destacou que os riscos seguem bastante elevados e que não teria pressa para comprar ações.

“Se eu tivesse entrado muito comprado, talvez até diminuísse um pouco”, afirmou. “Acho o momento perigoso para se investir”, complementou, indicando que, se não estivesse exposto à renda variável, poderia começar a “beliscar” Bolsa.

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