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Os melhores (e os piores) fundos de ações e multimercados em dezembro e em 2021

Carteiras com boa parte da alocação no exterior e exposição a empresas com parcela da receita dolarizada se deram melhor no ano passado

Por  Bruna Furlani -

Esta matéria foi atualizada em 13/01/22 para corrigir os dados sobre o desempenho do fundo Man Bw Global Risk P Usd Fc FI Mult e do fundo Safra Faraday Fc FI Mult e para acrescentar a data da coleta dos dados.

A onda de maior pessimismo com a alta dos juros no Brasil e com a piora do cenário político e fiscal abalou a Bolsa brasileira em 2021. Prova disso foi o recuo de quase 12% visto no ano passado. As perdas, no entanto, não se restringiram ao Ibovespa.

As captações líquidas de fundos de ações e multimercados finalizaram 2021 bem abaixo do ano anterior, com os depósitos (deduzidos os saques) somando R$ 201,7 milhões e R$ 59,6 bilhões, contra 73,3 bilhões e R$ 104,5 bilhões em 2020, respectivamente. Os dados são da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

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Mesmo em meio a um cenário mais desafiador em termos de juros no Brasil, fundos de ações com boa parte da alocação no exterior via BDRs – recibos de ações emitidos por empresas de outros países e negociados na B3 – se deram melhor em 2021. Destaque também para produtos que aplicaram em ações globais focadas em tecnologia.

A maior valorização entre os fundos de ações foi do Trigono Delphos Income FIC FIA, que fechou o ano passado com ganhos acumulados de 49,65%.

Já dentre os fundos multimercados, o destaque positivo ficou para produtos com alocação em criptomoedas, que foram beneficiados especialmente pelo desempenho de algumas altcoins, moedas alternativas ao Bitcoin. Além disso, aplicações em ações da Bolsa americana chamaram atenção no acumulado de 2021.

Na liderança entre as maiores rentabilidade obtidas por fundos multimercados no ano passado está o Vitreo Criptomoedas FICFI Mult Ie, com retorno de 116,93% no período.

Confira a seguir os fundos multimercados que mais se destacaram nos 12 meses de 2021, assim como seu desempenho em 36 meses, e apenas em dezembro.

Os dados foram coletados na plataforma de informações financeiras Economatica no dia 4 de janeiro deste ano. Para visualizar, basta selecionar o período em questão no gráfico abaixo:

Na análise, foram considerados fundos não exclusivos, com gestão ativa e patrimônio líquido médio superior a R$ 100 milhões em 12 meses e mais de 99 cotistas, em dezembro. No caso dos fundos de ações, foram excluídos os setoriais e os monoações. Entre os multimercados, não foram considerados os fundos de crédito privado.

Importante lembrar que retorno passado não é garantia de rentabilidade futura, embora seja interessante analisar o desempenho histórico dos fundos para observar sua consistência.

Confira a seguir os fundos de ações que mais se destacaram nos 12 meses de 2021, assim como seu desempenho em 36 meses, e apenas em dezembro.

Os dados foram coletados na plataforma de informações financeiras Economatica no dia 11 de janeiro deste ano. Para visualizar, basta selecionar o período em questão no gráfico abaixo:

Os fundos com pior desempenho

Por outro lado, fundos de ações com parte da carteira posicionada em papéis ligados à economia doméstica, como do segmento imobiliário, educacional e varejo, foram os mais penalizados no ano passado. A pior desvalorização foi do fundo Fator Sinergia FIA, com retorno negativo de 43,49% em 2021, contra recuo de 11,93% do Ibovespa durante o mesmo período.

O resultado também decepcionou entre fundos multimercado do tipo long biased, que podem ter posições vendidas (apostando na queda de um ativo), mas costumam ter um viés comprado (acreditando na valorização de um ativo).

No topo da lista entre as piores performances está o fundo Versa Long Biased FI Mult, com rentabilidade negativa 37,21% em 2021, contra um avanço de 4,42% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI) durante o mesmo período.

Multimercados: de olho nos altcoins

Entre os fundos multimercados, as estratégias de maior sucesso em 2021 envolveram o investimento em criptomoedas, além de posição em ações americanas e alocações com foco maior em companhias com boas práticas ambientais, sociais e de governança (ESG).

Um dos casos de maior sucesso é o do fundo Vitreo Criptomoedas FICFI Mult Ie. George Wachsmann, sócio-fundador da Vitreo, explica que a alocação do produto em criptoativos é variável. Geralmente, afirma, a maior parte da posição está na moeda digital mais famosa do mundo, o Bitcoin, e o resto está em altcoins.

Embora boa parte da exposição esteja na criptomoeda mais conhecida, o bom desempenho do produto no ano passado está ligado especialmente à performance de alguns altcoins, como o Axie Infinity Shards (AX) – que o executivo elenca como o principal acerto do fundo em 2021.

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Na prática, o AXS é um token de um jogo bastante popular e com dinâmica parecida à do Pokémon Go. Nele, o usuário pode ir melhorando seus personagens e ganhando um token ao cumprir certos requisitos, os chamados Smooth Love Potions (SLPs, na sigla em inglês) – que podem ser vendidos em seguida para que o investidor obtenha dinheiro na vida real.

O destaque, observa Wachsmann, é que esse token recebeu maior importância ao utilizar a tecnologia NFT, que vem sendo bastante adotada por alguns investidores para comercializar produtos digitais, como um tuíte, um meme etc.

Chama a atenção também, diz o executivo, que o AXS utiliza a tecnologia do metaverso, que ganhou notoriedade quando o Facebook decidiu mudar o seu nome para Meta e investir ainda mais na união entre o mundo real e virtual.

Outro criptoativo que ajudou na performance do fundo, diz, foi a Decentraland (MANA). Na prática, ele representa um mundo online colaborativo em que pessoas podem visitar locais usando avatares e até fazer negócios utilizando como meio de troca a criptomoeda MANA.

O projeto também ganhou destaque por utilizar a tecnologia do metaverso. Há especialistas que afirmam, inclusive, que ele pode virar a principal base para um metaverso descentralizado, ou seja, que não depende de uma única empresa.

Para este ano, a expectativa de Wachsmann segue positiva com os criptoativos. O executivo defende que a entrada de investidores institucionais tornou o tema mais “sério”, saindo apenas do mundo dos mineradores e investidores de varejo.

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Ele diz que continua otimista com criptomoedas ligadas ao metaverso neste ano. “Quanto mais eu escuto sobre isso, mais surpreso eu fico e acredito que esse negócio está mais próximo do que imaginei que estaria”, observa.

Wachsmann, no entanto, não esconde que se o investidor se “apegar” ao livro-texto, a subida de juros nos Estados Unidos pode ser ruim para ativos alternativos. Isso pode ocorrer porque a alta costuma favorecer a busca por ativos mais conservadores, como títulos do Tesouro americano, por exemplo.

Ações de valor X papéis de crescimento

Outros dois fundos que também despontaram entre os multimercados são o Go Global Equity ESG Reais Mult IE FI e o Sant Global Equi Dolar Mas Mult IE FC FI, ambos geridos pela asset do Santander.

Quem explica os detalhes sobre a alocação é Daniel Castro, gestor de portfolio da Santander Asset. Segundo o executivo, no acumulado de 2021, a posição em ações de energia e bancos foram algumas das principais contribuições para o primeiro fundo. Entre os destaques estão a posição em Bank of America Corporation (BAC), que consta na lista dos dez melhores desempenhos no ano.

Outra alocação que ajudou na performance, diz o executivo, foi a exposição ao setor de tecnologia americano, que se beneficiou bastante desde o começo da pandemia, com papéis como Microsoft Corporation (MSFT) e Amazon (AMZN), por exemplo.

A carteira do Go Global Equity Esg Reais Mult Ie FI possui hoje cerca de 40 ações. A maior parte da exposição está em papéis americanos com foco em companhias com menor pegada de carbono, consumo de água e emissão de CO2. O produto também apresenta hedge cambial, ou seja, não está exposto à variação do câmbio.

Para 2022, o gestor afirma que a carteira do fundo Go Global Equity ESG Reais Mult IE FI não passou por grandes alterações, ao contrário do que ocorreu com a alocação do Sant Global Equi Dolar Mas Mult IE FC.

Castro explica que a mudança ocorreu porque o segundo fundo é um produto que investe em outros fundos e possui dois motores: câmbio e ações globais. Após ter uma boa parcela da alocação em empresas de maior crescimento (growth) no começo do ano, o gestor vem rebalanceando a carteira para aumentar a posição em fundos que investem em papéis de valor (value) desde o segundo semestre de 2021.

A razão é simples: companhias de crescimento costumam ter o fluxo de caixa mais longo. Logo, com a alta de juros nos Estados Unidos, a taxa de desconto utilizada para calcular o valor justo dos papéis aumenta. Na prática, isso pode pressionar a cotação atual do papel para baixo.

Em sua justificativa, o executivo diz que os juros podem subir, mas que ele está bastante otimista com o setor de consumo americano, por exemplo, dado que as condições monetárias seguirão positivas. “Ainda que haja maior aperto, não estará restritivo para tomar crédito. Temos a recuperação do crescimento e as famílias consumindo itens de varejo”, destaca.

Embora algumas alterações tenham sido feitas na carteira para aumentar a parcela de fundos focados em papéis de valor, Castro avalia que a mudança de política monetária nos Estados Unidos vai afetar o mercado de maneira heterogênea.

“Mesmo dentro de tecnologia, empresas bem capitalizadas e com market share [participação de mercado] consolidado, como a Apple, por exemplo, não devem ser tão impactadas quanto companhias que ainda não têm o fluxo positivo”, diz o executivo da Santander Asset.

Venda de papéis

O bom desempenho de papéis ligados à tecnologia também garantiu uma performance positiva ao longo do ano para o fundo de ações Acess USA Companies FIA IE, que investe 100% em um fundo com sede no exterior e não possui proteção cambial.

Tiago Cesar, gestor de fundos de fundos da BNP Paribas Asset Management, afirma que pouco mais de 45% do fundo está em empresas de tecnologia da informação. Hoje, a maior posição está em Apple (AAPL), seguida por alocações significativas em Microsoft (MSFT), Amazon (AMZN), Alphabet (GOOGL) e Visa (VISA34).

Na sequência, destaca, há alocações em companhias do setor de consumo discricionário, além de uma pequena parcela em negócios relacionados ao setor de cuidados com saúde (healthcare).

Na passagem de 2021 para 2022, ele destaca que uma das mudanças envolveu a venda integral dos papéis da Netflix (NFLX). O gestor explica que a posição foi zerada porque a companhia vem demonstrando que possui um espaço menor para crescer. “Passou a apresentar crescimento mais moderado e foi uma oportunidade de desinvestir a um bom preço”, diz.

TV com o logo da Netflix
(Shutterstock)

Ao ser questionado se papéis de crescimento podem superar os de valor, o executivo acredita que não há uma conclusão sobre o tema e que vários fatores podem afetar ambos os tipos de ações. “Vai depender muito da concorrência em si, de ter dinheiro. Se todo mundo for mal, pode ser que eles acabem indo menos mal”, avalia Cesar. “Além disso, é difícil imaginar um mundo sem empresas como Apple, Microsoft”, acrescenta.

Oportunidades no Brasil

Embora boa parte dos fundos de ações alocados unicamente em papéis brasileiros esteja com retorno negativo, a piora no cenário fiscal e político no Brasil afetou as carteiras em níveis diferentes.

No topo da lista de melhores performances entre os fundos de ações, estão justamente produtos focados unicamente em papéis locais: Trigono Delphos Income FIC FIA; Trigono Flagship Small Caps FIC FIA; e Trigono Verbier FC FIA.

Os três estão sob gestão de Werner Roger, CIO na Trígono Capital. O gestor conta que um dos segredos para o desempenho acima da média dos produtos está na diferença de peso dado por ele a alguns setores.

Ele explica que a posição em ações do setor industrial, como Tupi (TUPY3), Schulz (SHUL4) e Metal Leve (LEVE3), representa, por exemplo, cerca de 72% da alocação de todos os fundos. Já no caso do Ibovespa, diz, o setor corresponde a cerca de 3% dos ativos.

Roger destaca também que cerca de 18% das carteiras estão em papéis ligados ao agronegócio, como São Martinho (SMTO3) e Kepler Weber (KEPL3). Enquanto isso, o setor só corresponde a aproximadamente 6% do índice de small caps (SMLL) da B3.

“O índice de small caps [empresas de menor valor de mercado] foi mal no ano. Isso porque cerca de 16% dele está no setor imobiliário, e temos 0% em construção nos fundos, por exemplo. Além disso, 13% do índice está em consumo, e nós temos apenas 1%”, observa”. A vantagem é que não seguimos índices. Fazemos uma análise densa das empresas”.

Entre os destaques do ano passado está a posição em Ferbasa (FESA4), que é uma empresa líder em produção de ferro-ligas. O gestor conta que a companhia foi bastante beneficiada em 2021 por ter parte da receita em dólar e por estar “subprecificada”. “Não há muitas corretoras ligadas a bancos que acompanham, logo ela é uma empresa mal precificada”, afirma.

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Para este ano, a aposta segue igual. Roger avalia que a Ferbasa continua com boas perspectivas porque possui uma produção forte de ferro-ligas e de ferro silício, que devem ter um cenário favorável com a redução da oferta que vinha da China. O país produzia cerca de 70% do ferro silício, mas passou a impor restrições às empresas produtoras.

Além disso, ele afirma que a produção de ferro silício exige muita energia e que a Europa está enfrentando problemas de escassez de energia. Outro detalhe, explica, é que a companhia possui práticas mais sustentáveis. Boa parte da exportação é feita para Japão, Estados Unidos e Europa, países que estão priorizando processos produtivos ESG.

Outras companhias que estão entre as apostas de Roger são a Metal Leve e a Kepler Weber. A primeira, afirma, possui uma boa parte ligada a produção de veículos médios e pesados. Ele ressalta que o valor do caminhão é muito maior do que os demais veículos e que o setor está indo muito bem. Outro ponto é que não há muito analista sell-side olhando os papéis.

Já ao comentar sobre a Kepler Weber, o executivo diz que a companhia tem cerca de 40% do mercado brasileiro e que o País está cada vez mais exportando grãos. Além disso, afirma, há um déficit grande de silos, o que pode beneficiar a companhia pelos próximos anos.

Melhores e piores em dezembro

Já no acumulado de dezembro, os fundos de ações e multimercados que tiveram as melhores performances foram carteiras com exposição a BDRs e exportadoras, que costumam ter parte da receita dolarizada.

Entre os destaques do mês de dezembro está o Alaska Black FIC FIA BDR Nivel I, que apresentou retorno positivo de 10,83%. Porém, no acumulado do ano, a rentabilidade está negativa em 18,17% ao ano.

Por outro lado, fundos de ações com teses mais específicas, como é o caso de ações relacionadas à maconha ou papéis de tecnologia chinesa, estão entre os resultados negativos de dezembro.

Entre os fundos multimercados, o fundo Logos Total Return FICFI Mult terminou dezembro na liderança, com retorno positivo de 16,72% ao ano. Em carta divulgada a investidores em dezembro, a gestora afirma que a maior parte da alocação líquida está agora no setor industrial, seguida por utilities (empresas de serviços e concessões públicas) e materiais.

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