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Conheça o título público que valorizou 57% em 12 meses; é hora de vender?

Tesouro IPCA+ com vencimento em 2045 lidera as altas no Tesouro Direto em 2019, em contexto de expectativa de nova redução da Selic e de aprovação da reforma da Previdência

Revista InfoMoney ed 50  - O mapa do tesouro

SÃO PAULO - O Brasil é um país peculiar em muitos aspectos, e alguns exemplos disso podem ser encontrados no mercado financeiro. A regra clássica é preciso correr mais riscos para conseguir rendimentos maiores nem sempre se aplica aqui. Uma prova recente? Um dos investimentos mais rentáveis do último ano é um conservador título público vendido pelo Tesouro Direto.

O papel Tesouro IPCA+ 2045, que oferece ao investidor um retorno atrelado à inflação, valorizou cerca de 20% em 2018 e outros 27,5% apenas neste ano. Ou seja, no acumulado dos últimos 12 meses, o rendimento chega à casa dos 57%, seguramente uma das melhores aplicações do mercado. No mesmo período, o Ibovespa subiu 27%, o dólar teve apreciação de 7,2% e o CDI teve variação de 6,34%.  

Título Vencimento Taxa de compra Taxa de venda Rentabilidade bruta acumulada em 2019* Rentabilidade bruta acumulada em 12 meses*
Tesouro Prefixado  01/01/2022  7,21% 7,33% - -
Tesouro Prefixado 01/01/2025 8,31% 8,43% 7,15% 25,58%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 01/01/2029 8,60% 8,72% 6,54% 25,39%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 15/08/2026 3,78% 3,90% 7,92% 19,17%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 15/05/2035 4,02% 4,14% 12,58% 26,88%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 15/08/2050 4,20% 4,32% 14,48% 33,09%
Tesouro IPCA+ 15/08/2024 3,76% 3,88% 7,29% 18,47%
Tesouro IPCA+ 15/05/2035 4,10% 4,22% 18,03% 37,44%
Tesouro IPCA+ 15/05/2045 4,10% 4,22% 27,50% 57,30%
*Informações até o dia 29 de maio de 2019.
Fontes: B3 e Tesouro Direto.

Poucos analistas esperavam um resultado tão bom. Como a perspectiva da maioria dos especialistas era de pequenas variações na taxa básica de juros da economia, a Selic, muitos indicavam esses títulos apenas para quem tivesse o objetivo de manter o investimento até o vencimento, como forma de proteger o patrimônio da inflação.

Quando o papel valorizou em 2018, uma recomendação comum passou a ser vendê-lo e procurar aplicações mais rentáveis. Como mostram os dados recentes, os rebeldes ganharam dinheiro.

Por que o título de 2045 teve uma apreciação maior que a esperada?

Com o mercado apostando cada vez mais em quedas dos juros este ano diante da falta de reação da atividade econômica, os prêmios pagos pela renda fixa estão caindo rapidamente. E como há uma relação inversa entre taxas e preços, a rentabilidade no curto prazo está aumentando.

O primeiro Boletim Focus de 2019 (pesquisa realizada pelo Banco Central com analistas do mercado financeiro) apontava para uma taxa Selic de 7% em dezembro, portanto com alta em relação aos 6,5% atuais. A partir de fevereiro, as perspectivas mudaram e o mercado começou a esperar Selic estável ao longo deste ano, e alguns analistas acreditam que pode haver cortes.

Um levantamento feito pela XP neste mês indicou que 40% das gestoras de fundos esperam queda dos juros em 2019, com as projeções mais agressivas apontando para a Selic no nível de 5,5% em dezembro.

A Persevera é uma das gestoras que se enquadra nessa projeção, com a previsão de juros básicos em 5,5% ao fim do ano e com a possibilidade de perpetuar o ciclo em 2020, quando o crescimento do Brasil não deverá superar o patamar de 1,5%. “Só vamos voltar a crescer de forma mais forte quando pessoas físicas e pequenas e médias empresas se desalavancarem. Para a sociedade como um todo, a queda dos juros ainda não chegou”, diz Guilherme Abbud, sócio fundador e diretor de investimentos da Persevera Asset Management.

As melhores oportunidades na renda fixa

Em meio à expectativa de juros baixos por um “longo período” de tempo, a gestora vê oportunidades na renda fixa e gosta da exposição tanto em taxas nominais quanto nas reais. Dentre os papéis prefixados, que ainda entregam retornos da ordem de 8% ao ano, Abbud vê espaço para uma queda para juros de até 6% anuais.

“Tudo depende do apetite e da disponibilidade de caixa do investidor. Acho que a curva inteira de juros vai cair bastante e vai dar para ganhar dinheiro antes em vencimentos intermediários, mas depois também nos papéis de prazos mais longos. A gente gosta muito da renda fixa ainda, o mercado vai se surpreender”, diz Abbud.

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Rogério Braga, sócio-diretor e responsável pela gestão de renda fixa e multimercados da Quantitas, tem visão parecida. Ele espera um início de um ciclo de corte de juros em setembro, com três reduções de 0,25 ponto percentual neste ano, e uma adicional em 2020, conduzindo a Selic ao patamar de 5,50% ao ano.

Parte dessa projeção já está precificada pelo mercado, diz Braga, o que dá menor espaço para ganhos de curto prazo em títulos de renda fixa com vencimentos muito curtos. Em sua visão, a melhor relação entre risco e retorno está hoje nos papéis indexados ao IPCA, que estão pagando retornos acima de 4%.

“As NTN-Bs [Tesouro IPCA+] são a alternativa mais segura, principalmente porque a inflação implícita [diferença entre as taxas de juros nominal e real] cedeu no curto prazo”, observa, destacando a preferência em papéis com vencimento a partir de 2026.

Para Renato Botto, sócio responsável pela parte de renda fixa da Absolute Investimentos, a atividade está hoje em um nível muito aquém do esperado e precisa de estímulos.

Independentemente do andamento da reforma previdenciária, Botto defende a necessidade de corte dos juros e enxerga oportunidades na renda fixa em papéis como os indexados à inflação com vencimentos próximos a 2022 e 2023, e os prefixados de 2021 e 2022.

Rodrigo Marcatti, sócio fundador da Veedha Investimentos, adota um tom mais cauteloso, ao avaliar que a proporção de imprevistos parece estar aumentando, em meio a preocupações com a maior dificuldade de articulação do governo e uma economia menor que a esperada da reforma previdenciária. “Talvez não tenha mais tanto prêmio no mercado para correr esses riscos.”

Então onde investir, dado esse cenário mais incerto? Em papéis de prazos intermediários, como o Tesouro IPCA+ 2024. Marcatti destaca que grande parte do investidor brasileiro ainda tem a visão de que título público é sempre uma aplicação conservadora (ignorando as variações diárias de preços) e pode se assustar com a maior sensibilidade a qual papéis com vencimentos mais longos estão expostos. Por isso a indicação de não alongar tanto o prazo dos investimentos. “A probabilidade de que algo pode dar errado no meio do caminho nos deixa um pouco mais conservadores.”

Vale a pena vender e realizar o lucro?

Papéis com prazos a partir de 2035 não têm sido recomendados hoje pelos gestores se o objetivo for obter ganhos de capital de curto prazo (sem carregar os ativos até o vencimento). Isso porque esses papéis costumam ser mais voláteis que os de prazo mais curto.

A recomendação, no entanto, não é se desfazer de todo o volume aplicado nesses títulos no momento. Para Marcatti, da assessoria de investimentos Veedha, se o investidor tem uma estratégia mais tática, com mais giro em suas posições na carteira, faz sentido pelo menos realizar parte do lucro obtido com o investimento em papéis como o Tesouro IPCA+ 2045.

Títulos como esse sofrem pouca influência da política monetária, e a avaliação sobre eles passa pela análise do investidor sobre as perspectivas para o Brasil de mais longo prazo, diz Botto.

Esse cenário abrange naturalmente a aprovação ou a rejeição da proposta de reforma da Previdência. Um maior ceticismo pode estimular o investidor a resgatar os papéis, aproveitando para embolsar os ganhos acumulados. A Absolute, contudo, tem preferido se posicionar de forma mais tática, sem se expor a papéis com vencimentos muito dilatados.

Apertem os cintos

Segundo Abbud, da Persevera, a retomada da economia brasileira tende a ser mais lenta que o esperado. “Temos uma visão de que a natureza do processo recessivo do Brasil é diferente da que o mercado acha, que é uma recessão cíclica”, diz.

Para a gestora, o Brasil vive os efeitos de um processo de recessão de balanço, mais rara, e que costuma acontecer após um longo período de exagero de consumo, empréstimos alavancados, subsídios e investimentos. “Foi o que aconteceu nos Estados Unidos antes da crise de 2008, assim como na Europa e no Japão. No Brasil, muita gente se endividou muito e consumiu sob a premissa de que aquela situação de crescimento iria durar pra sempre.”

Ainda de acordo com Abbud, esse tipo de recessão é muito mais longa e profunda e demanda, portanto, medidas de política monetária maiores, mais estimulativas. Ela precisa de muito tempo com juro muito baixo para dar tempo de as pessoas, aos poucos, irem saldando suas dívidas. Nos Estados Unidos, demorou quase uma década”, observa.

Por isso, a Persevera acredita que o Banco Central já deveria ter agido para reduzir os juros, independentemente da reforma da Previdência, atento à fraqueza da atividade econômica, à ausência de sinais inflacionários e com câmbio já desvalorizado. Agora, a autoridade monetária corre o risco de começar a agir quando o Brasil estiver enfrentando uma nova recessão (o PIB do primeiro trimestre recuou 0,2% no primeiro trimestre de 2019, na comparação com o quarto trimestre de 2018).

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