Mercado vê Lula favorito e reduz ainda mais alocações em Brasil antes das eleições

Prevalece entre as gestoras locais a leitura de favoritismo do atual presidente; a Mar Asset destoa e projeta derrota no segundo turno

(Foto: Ricardo Stuckert)
(Foto: Ricardo Stuckert)

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O mercado brasileiro chega à reta final da corrida presidencial com uma leitura razoavelmente estabelecida sobre o favoritismo do atual presidente e nenhuma disposição de agir sobre ela. Entre as principais gestoras locais, prevalece a avaliação de que outubro caminha para a recondução do presidente Lula para um quarto mandato, e prevalece também a decisão de atravessar o período com risco mínimo em ativos brasileiros.

A postura defensiva se soma ao movimento recente dos estrangeiros, que começaram nos últimos dias a desmontar posições em real e renda fixa local. Mas a postura dos agentes locais antecede esse movimento em meses: o rali que levou o Ibovespa às máximas do primeiro semestre foi principalmente comprado de fora, e o investidor doméstico assistiu de longe.

Julho deixou o descolamento explícito. O índice subiu 3,47%, carregado pelo setor financeiro e pelas produtoras de commodities na esteira da alta do petróleo, enquanto o índice de small caps, mais colado à atividade interna, recuou. Para a Tenax Capital, o mês foi marcado pela divergência entre fluxo e preço, com um investidor doméstico que “segue bastante cético e avesso a risco”.

Os resgates em outras classes confirmam. Os fundos de infraestrutura devolveram R$ 5 bilhões líquidos no mês, ante R$ 8,9 bilhões em junho, e os de crédito privado corporativo, R$ 3,1 bilhões, enquanto os veículos bancários captaram R$ 18,8 bilhões.

Lula favorito

A convergência sobre o favoritismo do presidente é ampla. A Legacy Capital registra em carta mensal que, após mês ruidoso para a oposição, com o desempenho fraco nas pesquisas e a reorganização em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro, mantém-se “o favoritismo do presidente incumbente para uma recondução no pleito de outubro”. A Occam Brasil, que aponta ambiente consolidado após as convenções, vê “uma eleição competitiva, mas alguma vantagem do atual presidente sobre os candidatos de oposição no segundo turno”. A Tenax fala em relevância crescente da disputa nas semanas seguintes, “ainda com favoritismo para o incumbente”.

A Ibiuna Investimentos chega ao mesmo ponto pelo comportamento dos preços, ao observar que “a corrida presidencial se aproxima e os ativos passaram a precificar maior probabilidade de reeleição do atual presidente para um quarto mandato”.

A Mar Asset é uma das poucas divergentes: “seguimos acreditando que Lula não é favorito para vencer”, disse a casa em carta a investidores. Em disputa com presidente candidato à reeleição, diz a gestora de Bruno Coutinho, a variável determinante seria a avaliação de governo, respondida por 98% dos entrevistados, e não a intenção de voto no segundo turno, que captura cerca de 85% e ainda carrega 18% de brancos, nulos e indecisos.

Esse estoque de indecisos, defende, avalia o governo de forma consistentemente pior que a média e, redistribuído conforme a avaliação, produziria empate técnico. Aplicando sobre a avaliação atual a conversão de votos observada em 2022, a Mar chega a uma derrota do incumbente por cerca de 10 pontos no segundo turno. A casa também fixa o gatilho que a faria mudar de ideia, uma avaliação líquida em torno de 10 pontos positivos combinada a conversão acima de 50.

Já a Verde Asset não projeta vencedor e trata a disputa como o evento que passa a organizar os preços daqui para frente. “A temporada eleitoral se anuncia como fator dominante para os mercados nos próximos meses, e devemos ver uma maior volatilidade ao sabor do boato ou da pesquisa do dia”, escreveu a casa em relatório publicado nesta semana.

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Carteiras convergem ainda mais

O consenso das principais gestoras é de pouca ou nenhuma alocação em risco no País. A Legacy afirma seguir “com baixo nível de risco” no Brasil, privilegiando posições táticas em vez de exposição estrutural. A Ibiuna declara manter “postura cautelosa em ativos brasileiros neste momento”, aplicada em juros nominais curtos e tomada nos vértices longos, com redução parcial da bolsa brasileira e aumento na americana. A ARX Investimentos anuncia “uma postura mais tática na estratégia de renda fixa, buscando aproveitar oportunidades geradas pelo aumento da volatilidade esperado nas próximas semanas”.

A Mar recuou pelo mesmo caminho, ainda que sua leitura aponte para o cenário que a própria casa associa a um ciclo potencial de cortes de 700 pontos-base. “Nossa abordagem agora é voltar ao CDI na maior parte do portfólio”, escreveu a gestora, condicionando a retomada de posições ao momento em que o mercado começar a caminhar na direção da tese.

A Verde separou os mercados. Em renda fixa local, informou que não mantém posições direcionais, enquanto preservou a exposição em renda variável no Brasil e no exterior. Em entrevista ao InfoMoney durante a Expert XP, o gestor Luiz Parreiras explicou o recorte pela busca de assimetrias diante de um resultado binário. “Se o Lula ganhar, a gente perde pouco. Se a direita ganhar, a gente tem um upside relevante”, disse, sobre a posição em bolsa, montada com opções. No câmbio, a casa saiu da posição há cerca de dois meses, avaliando que o carrego elevado torna cara a proteção antecipada e que a hora de montá-la viria após o segundo turno.

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Na Tenax, a visão é de NTN-B “bastante pressionado (juros reais acima de 8% até 2037)”, pela questão fiscal e pelo volume de emissões de incentivados. Para a ARX, “as incertezas fiscais domésticas continuam gerando apreensão e impactando de forma mais direta os preços dos ativos locais”.

Apesar disso, a Verde ainda vê pouco prêmio embutido no IPCA+ acima de 8%, resumindo a equação como muito risco para pouco retorno.

No posicionamento, a Occam é quem mais diverge, “passando a buscar posições aplicadas na curva doméstica”. Já a Itaú Asset, elevou “em pequena dose, a posição comprada na bolsa brasileira”. O Opportunity manteve “posição comprada em NTN-Bs, bem como uma exposição seletiva em ações domésticas”.

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Paulo Barros
Investimentos | Economia | Mercados

Jornalista há mais de 15 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos