Cenário imprevisível

Mais defensíveis? Fundos de dividendos não saem imunes da crise, com perdas que superam os 20% no ano

Dos 35 fundos de dividendos do mercado, apenas sete superam o desempenho do Ibovespa, que caía 13,3% em 2020 até 14 de setembro

(Frederica Aban/Getty Images)
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SÃO PAULO – Consideradas mais defensíveis em momentos de forte volatilidade dos mercados, as empresas boas pagadoras de dividendos não têm sido poupadas da crise. Pelo contrário. No ano, fundos de dividendos chegam a amargar perdas acima de 20%.

Levantamento feito pela Economatica a pedido do InfoMoney mostra que, dos 35 fundos de dividendos do mercado, apenas sete superaram o desempenho do Ibovespa no ano, que cai 13,3% até o dia 14 de setembro.

Com relação ao índice de dividendos da Bolsa (Idiv), são 14 os fundos que batem o referencial, que registra baixa de 16,7% no período.

Pressionado pela queda das ações de grandes bancos, como Santander (SANB11) e Itaú Unibanco (ITUB4), que recuam 39% e 33% no ano, o Idiv tem também entre suas maiores participações os papéis de Transmissão Paulista, BB Seguridade e Itaúsa.

Nem as elétricas, contudo, que são conhecidas por serem mais previsíveis e estáveis, com demanda mais inelástica com relação ao PIB, têm saído ilesas da pandemia. Embora em menor escala, as perdas chegam a 16,6% no caso das ações preferenciais de Cemig.

Quando analisados os dez fundos de dividendos com maior patrimônio líquido, apenas três batem os índices (Ibovespa e Idiv): ARX Income, Vinci Gas Dividendos e Caixa FIC Ações Valor Dividendos, com perdas de 7,8%, 11,7% e 12,8%, respectivamente, em 2020. E apenas um fundo apresenta ganho no ano, de mero 0,5%: o Solis Argus FIA.

Na ponta oposta, entre maiores perdas, o destaque fica com o Caixa FIA Dividendos, com queda de 21%. Confira:

Segundo gestores consultados, o pior desempenho das tradicionais boas pagadoras de dividendos no ano, que são companhias que costumam ter negócios estáveis, alta geração de caixa e baixa alavancagem, se deve a uma troca feita nas carteiras desde o começo da crise.

“Os papéis que mais andaram no ano são aqueles do e-commerce ou de tecnologia, como Locaweb, Magalu, Via Varejo e B2W. São empresas em crescimento, não conhecidas por serem boas pagadoras [de proventos], mas que estão voltadas para o consumidor comprar tudo de casa”, explica Olavo Tortelli, sócio e head de renda variável da Vinci Partners.

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Ele avalia que se trata de um momento atípico para o mercado financeiro, muito “anabolizado” pelos estímulos ficais e monetárias, o que ajudou as bolsas a se recuperarem rapidamente. “Normalmente, essa estratégia de dividendos é de um carrego muito bom, mas pode não responder tão rapidamente a movimentos bruscos do mercado”, diz.

Foi mesclando as tradicionais boas pagadoras de proventos com empresas “promissoras”, em fase de crescimento e com geração de caixa, que o fundo da ARX garantiu um melhor desempenho no período.

O destaque da carteira é B2W (BTOW3), nome que tem contribuído para a valorização das cotas, segundo Rogério Poppe, CEO e gestor da ARX Investimentos. Apesar de não pagar dividendos, a companhia tem crescido em uma velocidade muito acelerada por conta da pandemia, diz. No ano, as ações sobem 54%.

“É importante ter um equilíbrio dentro da carteira. Ao mesmo tempo que temos empresas sólidas, com geração de caixa recorrente, também buscamos agregar aquelas de setores que identificamos com potencial de crescimento de geração de caixa no futuro”, diz.

Outra companhia que atualmente faz parte das 35 posições do portfólio é Marfrig (MRFG3), que tem alta de 64% no ano. “Apesar de não distribuir proventos, temos uma visão de que a expansão de margem vai gerar um caixa extraordinário lá na frente”, argumenta Poppe.

Consumo e commodities

Na estratégia de dividendos da Icatu Vanguarda, cujo fundo tem um patrimônio líquido de R$ 1,5 bilhão, nomes do setor de consumo, como Lojas Renner (LREN3), Vivara (VIVA3), BR Malls (BRML3) e Multiplan (MULT3), estão entre os preferidos.

“São empresas perenes, que não têm prazo de vencimento [para performar], e nas quais o valor está no fluxo de caixa gerado ao longo do tempo”, afirma Roberto Lira, gestor de renda variável da Icatu Vanguarda.

As posições foram ampliadas durante a crise devido à assimetria entre o risco e o retorno. “As vendas caíram, mas são empresas com soluções de e-commerce avançadas, que têm um time de gestão no qual confiamos e que estão bem posicionadas estrategicamente.”

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O gestor destaca que o objetivo da estratégia não é gerar ganhos de curto prazo, mas a partir de dois a três anos. Nos últimos 36 meses, o fundo tem ganhos de 42%, frente a uma alta de 34,3% do Ibovespa.

Ele também chama atenção para o potencial de ganho de participação dessas empresas no momento: “Quanto pior o cenário de curto prazo, provavelmente mais fortes as empresas líderes vão sair da crise.”

Entre os 20 ativos do portfólio, papéis de elétricas e bancos também respondem pelas maiores posições. Há exposições menores ainda em setores como saneamento e shoppings, afirma Lira.

Já na ARX, o momento de crise serviu para que o fundo ampliasse a exposição ao setor de commodities, como reflexo do comportamento do câmbio no Brasil.

“Olhando os incentivos anunciados nos últimos seis meses e a relação entre oferta e demanda, vimos que o setor pode ser favorecido dadas as políticas expansionistas, que devem levar a um aumento de preço lá na frente”, afirma Poppe.

Bancos x elétricas

Tradicionalmente considerados bons pagadores de dividendos, os grandes bancos e as companhias de energia elétrica então entre as maiores participações do Idiv.

No ano, enquanto os bancos caem mais de 38%, caso das units do Santander (SANB11), as elétricas têm apresentado uma queda menor, de 1,5%, no caso de Taesa (TAEE11).

De acordo com Tortelli, da Vinci, o baque sofrido pelas elétrica se deve ao temor do mercado com relação a interferências em processos de ajustes de tarifas. Ele cita o caso do governo do Paraná, que pediu, em meio à pandemia, o adiamento de um aumento tarifário já aprovado pelo órgão regulador.

“Gostamos das elétricas porque são quase um bond turbinado, que oscila menos e é mais imune à flutuação do PIB. No longo prazo, essa estratégia tem se mostrado muito vencedora”, diz.

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No Vinci Gas Dividendos, a posição em Transmissão Paulista (TRPL4), que havia sido zerada em 2019, voltou a compor o portfólio do fundo, com a avaliação de valuation atrativo, conta Tortelli.

Impactos da crise

Diante da pandemia, visando reforçar a posição de caixa durante a crise, diversas companhias adiaram o pagamento de proventos este ano, como Petrobras, Localiza e Fleury, enquanto outras, como Lojas Renner, reduziram o valor pago.

Segundo a gestora britânica Janus Henderson, 2020 será o pior ano para os dividendos desde a última grande crise financeira mundial, iniciada em 2007.

De acordo com a Janus, em um cenário otimista, os dividendos globais devem cair 17% este ano. Já no pior cenário, a expectativa é de queda de 23%.

Para Tortelli, da Vinci, quando comparado com o patamar atual de juros, o cenário para fundos de dividendos ainda é bastante interessante. Ele conta que, incorporando o limite de 25% para o pagamento de proventos dos bancos, o fundo pressupõe um dividend yield na casa de 5% este ano.

“Comparados com os 2% da Selic, nunca na história do fundo, que foi criado em 2005, houve uma diferença tão grande pró-dividend yield.”

O gestor lembra ainda do anúncio do pagamento de dividendos da Vale (VALE3), de R$ 12,4 bilhões, empresa que é um dos principais nomes hoje do fundo. Segundo ele, esse dividendo extraordinário pode elevar a projeção de proventos do fundo para até 10%.

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