Estratégias na crise

Kapitalo não enxerga oportunidades nas bolsas, tanto do Brasil quanto dos EUA

Embora a bolsa brasileira esteja em níveis bastante deprimidos, falta de coordenação política mantém o freio de mão puxado na gestora

Carlos Woelz, diretor da Kapitalo Investimentos, durante evento do InfoMoney (Crédito: Flavio Santana/Biofoto)
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SÃO PAULO – Após ter registrado alguma recuperação nas últimas semanas – o índice S&P 500 sobe cerca de 10% em abril –, a bolsa americana já não está barata, na avaliação de Carlos Woelz, sócio diretor e gestor da Kapitalo. Ele se mostra cético em relação ao otimismo de parte dos agentes com a retomada de preços dos ativos, dada a injeção cavalar de liquidez em curso pelos bancos centrais.

“Em uma análise histórica, os períodos em que os ativos vão melhor são quando a política monetária está sendo apertada [quando os juros estão em trajetória de alta], porque significa que as condições estão boas”, afirmou Woelz, durante live promovida pela XP Investimentos na manhã desta terça-feira.

O gestor disse também que, caso os preços nas bolsas americanas retomem o patamar pré-crise, os mercados estarão ainda mais caros do que antes. Isso porque a situação fiscal do governo será substancialmente pior, o que provavelmente resultará em aumento de impostos para que as contas sejam minimamente fechadas, reduzindo o nível de lucratividade das empresas, explicou.

Já em relação à Bolsa brasileira, Woelz considera que ela está em níveis bastante deprimidos e até mais barata que os pares americanos, em termos relativos. No entanto, ainda não é o suficiente para despertar grande interesse da gestora, diante da falta de coordenação entre governo e Congresso para endereçar os problemas oriundos da crise.

“Estamos caminhando para um desgoverno do nível da Dilma”, disse o profissional, que teceu críticas à resistência do Planalto em formar coalizões com o Congresso pelo entrave que isso representa na formulação de políticas tidas como eficientes. “Estamos esperando um consenso ser construído para começar a ficar otimistas.”

Mudança no portfólio

A visão cautelosa de Woelz para os ativos representa uma ruptura completa ante a expectativa que ele carregava até pouco tempo atrás.

Em meados de fevereiro, a gestora vinha com um posicionamento bastante construtivo, com quase metade do portfólio em ações globais e locais; tomado em juros, com a perspectiva à época de aperto da política monetária; e comprado em ativos atrelados ao petróleo e no real. “O coronavírus chacoalhou loucamente nossas convicções”, afirmou o gestor.

Agora, os multimercados da Kapitalo mantêm uma pequena fração dos recursos na Bolsa local, concentrando as apostas em estratégias “long and short”. A asset também tem feito posições que podem se beneficiar caso o Federal Reserve, o banco central americano, leve o juro americano para o campo negativo.

“Como o mercado enxerga uma probabilidade baixa de isso acontecer, está muito barato fazer essa aposta e entendemos que vale a pena.” Além disso, a gestora acredita em uma desvalorização do dólar frente a outras moedas fortes de países desenvolvidos. Já contra as divisas emergentes, a Kapitalo prevê um fortalecimento do dólar nas próximas semanas.

Diferença das crises

Na percepção de Woelz, especificamente para os profissionais que trabalham no mercado financeiro, a crise de 2008 foi ainda mais difícil do que a que estamos atravessando por conta do coronavírus.

“Naquela ocasião, houve uma total falta de confiança no sistema financeiro, com grande volume de saques”, disse o gestor, lembrando ainda que na crise do subprime os preços perderam completamente a razoabilidade em relação à qualidade dos ativos, o que, segundo ele, não ocorreu na mesma intensidade em março de 2020.

Por outro lado, em termos econômicos mais amplos, não se limitando apenas ao espectro do mercado, a crise do coronavírus é muito pior, avalia. A inflação em patamares bastante comportados é o que faz Woelz manter alguma dose de esperança, uma vez que abre espaço para a atuação das políticas monetária e fiscal sem impactos imediatos de curto prazo sobre os preços.

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