Janela para investir em prefixados abriu, mas não por muito tempo, diz head do ASA

Nos últimos 20 anos, certos períodos mostraram quando vale ampliar a aposta em prefixados

Lucas Gabriel Marins

Fabiano Zimmermann, head de renda fixa do ASA (Foto: Divulgação)
Fabiano Zimmermann, head de renda fixa do ASA (Foto: Divulgação)

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No mercado financeiro, existe a ideia de que, quando o Banco Central inicia um ciclo de cortes de juros, é o momento de aumentar a exposição em títulos prefixados. Isso porque, ao travar uma taxa elevada agora, o investidor pode se beneficiar da queda futura dos juros, ganhando com a diferença. Mas qual é o ponto certo para capturar esse potencial ganho? Para Fabiano Zimmermann, head de renda fixa do ASA, é agora – pensando no horizonte de dois anos.

“Em todas as vezes em que o Banco Central para de subir os juros e, na sequência, começa a cortá-los, a curva prefixada está mais baixa do que no momento em que ele parou. Isso indica que o melhor momento para aumentar a duration ou ficar alocado em prefixados, nesse horizonte de dois anos, é justamente no fim do ciclo de alta – que é onde estamos agora”, disse à reportagem.

Essa estratégia, porém, só funciona se o Banco Central realmente começar a cortar juros, segundo o especialista. Hoje, as projeções do boletim Focus apontam que a Selic só deve recuar a partir de 2026, embora algumas casas admitam a possibilidade de uma flexibilização já em dezembro. A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) mostrou certo tom de cautela, com os membros do colegiado ainda preocupados com a inflação fora da curva e com a conjuntura política econômica nos Estados Unidos, vide tarifaço.

Oportunidade com segurança!

Zimmermann, no entanto, vê espaço para a antecipação de corte, apoiado em sinais como desaceleração da inflação, dados de atividade mais fracos e um câmbio mais estável. “Com os dados e com essa inflação corrente ajudando e novamente com o câmbio se estabilizando, e essa questão de tarifa — para mim sendo ruído –, o risco aí está em antecipação do corte”.

Padrão de 20 anos

O gráfico abaixo mostra a evolução da Selic e do juro nominal de dois anos (linha preta) entre 2005 e 2025, destacando quais foram os momentos estratégicos para aplicar em títulos prefixados de dois anos. As áreas em cinza indicam o fim dos ciclos de alta da Selic, enquanto as linhas azuis marcam o início dos ciclos de queda. A ideia central é ilustrar como os investidores que aplicaram em prefixados logo após o fim do ciclo de alta conseguiram capturar ganhos significativos à medida que a Selic e os juros de mercado caíam.

O primeiro exemplo citado é de 2005, no final do primeiro mandato de Lula e às vésperas do início do segundo. Naquele momento, o Brasil se encaminhava para um upgrade de rating e vivia um boom de commodities. A Selic estava próxima de 18%, depois de um período de queda expressiva desde 2003. O Banco Central parou de subir os juros em meados de 2005, mas só iniciou os cortes em 2006. Quem travou taxas altas nesse intervalo ganhou com a redução posterior, quando a Selic caiu para algo entre 10% e 12% depois de dois anos.

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O segundo ciclo veio após a crise do subprime, em 2008. A fuga de risco levou o BC a elevar os juros, mas o movimento foi curto: logo depois, começou um corte rápido e expressivo. Zimmermann destacou que, nesse caso, o investidor que aplicou no fim do ciclo de alta ganhou ainda mais, já que a curva de juros caiu de forma mais acentuada.

No início do governo Dilma em 2011, o BC comandado por Alexandre Tombini iniciou um corte agressivo, levando a Selic para abaixo de 8% pela primeira vez. “No início desse ciclo, a curva estava bem mais alta, o que gerou retornos ainda maiores para quem entrou no prefixado naquele momento”, lembrou Zimmermann.

O ciclo seguinte foi no pós-impeachment de Dilma, já com Michel Temer na presidência, Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda e Ilan Goldfajn no Banco Central. Em meio a um cenário de estagflação, o BC segurou a Selic acima de 14% por um período prolongado, antes de reduzi-la para abaixo de 8% em 2017. “Foi um ciclo longo de cortes, e quem aplicou no final da alta também obteve ganhos relevantes”, disse.

Mais recentemente, durante a gestão de Roberto Campos Neto no BC, a Selic caiu de 14,25% para 2% na pandemia. Mas Zimmermann ressalta um ponto importante: nesse caso, o maior ganho veio para quem aplicou antes do início efetivo dos cortes – ou seja, no fim do ciclo de alta. “Quem entrou no prefixado quando o BC já estava cortando perdeu dinheiro, porque o mercado precificava uma queda muito mais acentuada do que realmente ocorreu. A Selic nunca chegou perto do que era esperado”, explicou.

E os títulos de inflação?

Zimmermann defende separar duas frentes: os investimentos ligados ao ciclo de política monetária, com prazo de dois anos, e aqueles voltados para prazos mais longos. No caso das NTN-Bs (Tesouro IPCA+), ele vê oportunidades pensando em um horizonte de seis a dez anos. Segundo o especialista, estudos feitos pelo ASA mostram que, historicamente, investidores que compraram NTN-Bs com juros reais entre 7,5% e 8% e mantiveram o papel por mais de três anos superaram o CDI em todas as ocasiões.

“Em todas as vezes que houve a possibilidade de comprar NTN-B pagando mais de 7,5% de juro real, quem manteve o título a partir do terceiro ano conseguiu bater o CDI”, afirmou.

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Hoje, o juro real no Brasil está próximo de 8%, nível considerado elevado quando comparado ao juro real neutro estimado pelo Banco Central, entre 5% e 6%, e à projeção do boletim Focus, em torno de 6% e pouco. Zimmermann avaliou que essa diferença representa uma oportunidade, mas não deve se manter por muito tempo.