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Já é hora de voltar para as elétricas? Analistas respondem

Para Beatriz Nantes, analista da Empiricus, o que a MP 579 fez foi separar as ações mais eficientes das menos eficientes

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Usina Hidrelétrica de Tucuruí *** Local Caption *** Comportas abertas da usina de Tucuruí

SÃO PAULO – A Medida Provisória 579, aprovada pelo congresso no dia 18 de dezembro de 2012 e sancionada pela presidente Dilma Rousseff no dia 14 de janeiro deste ano, renovou as concessões dos serviços de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica e reduziu as tarifas da conta de luz para os consumidores finais. De acordo com a MP, os encargos CCC e RGR foram eliminados, enquanto o CDE foi reduzido em 75%.

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A medida afetou diretamente as empresas do setor, que sofreram por diversos motivos, entre eles, com o fim do RGR, encargo que se transformou ao longo do tempo em uma importante fonte de financiamento dessas companhias (principalmente as estatais), que enfrentam restrições de financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

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A Eletrobras (ELET3, ELET5 e ELET6), por exemplo, sofreu perdas contábeis de R$ 10 bilhões. De acordo com o presidente da companhia, José da Costa Carvalho Neto, em coletiva de imprensa, todo esse prejuízo foi em razão da MP, que prejudicou a empresa de quatro formas diferentes: R$ 3,044 bilhões referentes à diferença entre o valor contábil das usinas cuja renovação da concessão foi antecipada e o critério do valor novo de mercado, usado pelo governo para indenizá-las; R$ 2,798 bilhões para o cálculo sobre as usinas cuja concessão ainda não venceu; R$ 3,082 bilhões devido a contratos onerosos, que a empresa pretende repassar para órgãos correspondentes; e R$ 1 bilhão referente a valores que antes eram considerados investimentos e hoje são avaliados como despesas.

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Além das perdas contábeis, as ações das companhias do setor derreteram – algumas empresas fecharam 2012 com queda de mais de 60%, o que trouxe grande prejuízo aos investidores. Hoje, após quase seis meses da aprovação da MP, as ações de algumas empresas do setor já estão se recuperando e somando uma alta expressiva no acumulado de 2013. Outras, como a Eletrobras e a Eletropaulo (ELPL3 e ELPL4), continuam em queda e, no caso da última, já soma mais de 50% de baixa só em 2013. Com essa divisão, a dúvida que fica aos investidores é: será que já é hora de voltar para as elétricas? 

Para Beatriz Nantes, analista da Empiricus, o que a MP fez foi separar as ações mais eficientes das menos eficientes, mas a percepção de risco está muito alta. “Eu ainda estaria com um pé atrás no setor inteiro até, pelo menos, o final de 2013, pois qualquer noticia que indique que pode acontecer alguma coisa com risco sistêmico, pode ocasionar em uma queda brusca dos papeis”, afirmou.

Transmissoras: tranquilidade e forte recuperação
De acordo com Rafael Dias, analista da BB Investimentos, para as transmissoras o cenário já é tranquilo. Segundo ele, a questão da renovação das concessões impactou muito no ano passado, como no caso da Transmissão Paulista, cujas ações ordinárias (TRPL3) caíram 12,92% no acumulado de 2012, enquanto os papéis preferenciais (TRPL4) desabaram 39,90% no mesmo período. No entanto, agora a situação já se tranquilizou, visto que ambas estão com altas acumuladas de 11,23% e 5,63%, respectivamente. “O cenário para as transmissoras agora é aquele de sempre, de característica básica do setor elétrico: previsibilidade de receita, estabilidade e bom pagamento de dividendos. Então eu acho que o viés é tranquilo e a gente já passou pelo pior. Não tem nada de assustador para as transmissoras”, afirmou o analista.

Mais um obstáculo à frente das geradoras
Em relação às geradoras, o problema causado pela MP 579 também já passou, mas agora elas encontram-se ameaçadas por outro fator: “O despacho das termoelétricas da hidrologia desfavorável adversa, que ocorreu no ano passado, é o que está impactando agora. Como a maior parte dessas geradoras tem contratos por quantidade de energia, elas têm uma quantidade para entregar dentro da sazonalidade estipulada, ou seja, o que elas não conseguirem gerar, terão que entregar do mesmo jeito. isso quer dizer que terão que comprar no mercado de curto prazo de energia, cujos preços estão muito altos. É isso que está impactando as geradoras”, explicou Dias.

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Além disso, em abril teve uma nova deliberação do Conselho Nacional de Política Energética, que decidiu que as geradoras também vão pagar uma parte dos encargos de serviço do sistema, que também estão ligados à compra de energia, compra de combustíveis fósseis e despacho das termoelétricas. “Isso começou em abril, então ainda não estará sensibilizado nos resultados do primeiro trimestre, que estão sendo divulgados agora, mas a partir do próximo resultado já deve ter um impacto negativo”, disse o analista.

“Então o momento não é ligado à MP 579 e sim à hidrologia e um pouco com essa nova deliberação da CNPE. Por conta disso, é complicado de dizer se já é hora para voltar, mas o que estamos vendo entre elas é que quem tem mais energia descontratada, que são basicamente as que não aceitaram as renovações das concessões, conseguiu vender um volume maior de energia elétrica agora no primeiro trimestre, se beneficiando dos preços mais altos no mercado de curto prazo. Então essas provavelmente irão mostrar um resultado superior agora, apesar de terem que comprar, eventualmente, alguma coisa no curto prazo. Mas é algo pontual, pois enquanto elas estiverem essa energia descontratada, até o vencimento da concessão, elas poderão se beneficiar disso, mas não é algo de longo prazo, e sim de curto”, completou.

Já as outras geradoras, ainda segundo Rafael Dias, em geral, não estão com um resultado muito bom, salvo algumas exceções, como a Tractebel, que está indo bem, porque ela tem uma ótima política de controle de risco de disposição ao mercado de curto prazo e termoelétricas, então o resultado não veio ruim, veio muito próximo do esperado, sem surpresas negativas. Mas, em relação às outras, quem tem energia descontratada, as ações estão aguardando um bom resultado e um dividendo bom, enquanto as que não têm energia descontratada não irão performar tão bem assim.

Distribuidoras: sofreram, sofrem e sofrerão; Compra? Só em 2014
De acordo com Rafael Dias, as notícias e eventos negativos que tinham para ocorrer, já aconteceram, porém, a consequência deles talvez seja mais forte agora em 2013. “Nós ainda estamos passando pelo terceiro ciclo de revisão tarifária, mas a partir desse ano, como ela já está sensibilizando o custo de compra de combustíveis dos últimos 12 meses, estamos vendo que está aumentando a tarifa, para fazer frente ao custo de compra de combustíveis que as distribuidoras assumem”, explicou.

Para o analista, em 2013 veremos uma redução nas margens das distribuidoras e uma pressão no capital de giro delas por conta dessa compra de combustíveis fósseis, então, quando reduzir ou acabar de uma vez por todas o despacho das térmicas, em 2014, o cenário passará a ser positivo para as distribuidoras, porque será o oposto. O reajuste anual das tarifas vai contabilizar e passar para as tarifas um alto custo de compra de combustíveis, mas de fato elas não terão esse custo lá na frente, então será o oposto, uma margem maior. A tarifa vai estar sensibilizando esse custo, mas elas não o terão de fato, então vai ter um alívio no capital de giro. “Concluindo, para as distribuidoras ainda não é hora para voltar, mas em 2014, quando passar o impacto da geração das térmicas, acredito que será o momento ideal para entrar nelas”, finalizou.

Confira o desempenho das principais empresas do setor elétrico em 2012 e 2013:

EmpresaTickerDesempenho Anual – 2012Desempenho Anual – 2013
AES Tiete ONGETI3-0,32%-5,53%
AES Tiete PNGETI4-1,84%-6,17%
Cemig ONCMIG323,52%15,29%
Cemig PNCMIG43,07%12,33%
Cesp ONCESP3-36,59%9,44%
Cesp PNACESP5-41,90%26,28%
Cesp PNBCESP6-38,76%15,17%
Coelce ONCOCE356,67%14,33%
Coelce PNACOCE544,06%12,87%
Coelce PNBCOCE616,63%0,00%
CPFL ONCPFE3-12,86%5,60%
Eletrobras ONELET3-61,35%-20,71%
Eletrobras PNAELET5-22,77%-24,27%
Eletrobras PNBELET6-57,51%-6,92%
Eletropaulo ONELPL3-41,46%-55,63%
Eletropaulo PNELPL4-47,39%

-53,20%

Equatorial ONEQTL347,83%15,24%
Light ONLIGT3-18,40%-16,76%
Taesa ONTAEE30,75%0,00%
Taesa PNTAEE42,41%0,00%
Taesa UNTTAEE11-0,92%
Tractebel ONTBLE318,91%11,24%
Transmissão Paulista ONTRPL3-12,92%11,24%
Transmissão Paulista PNTRPL4-39,90%5,49%

“A empresa que ninguém recomenda”
“Hoje, ninguém recomenda a Eletropaulo”, afirmou Beatriz Nantes. Segundo ela, a companhia já tinha sido impactada antes da MP 579 pelo seguro de revisão tarifária, no começo do ano passado, que ainda ocorreu com um ano de atraso. “Ela caiu mais de 40% ano passado e esse ano as ordinárias já desvalorizaram quase 60%, enquanto as preferenciais mais de 50%. Acredito que vai cair mais”, disse a analista.

Rafael Dias explicou que a revisão tarifária pela qual eles passaram foi bastante negativa, talvez a mais drástica redução de tarifas do terceiro ciclo de revisão, além de terem passado também por uma revisão da base de ativo, com coisas que tinham sido contabilizadas de maneira errada; ajustes no plano de pensão, que estão causando impacto forte nos balanços; impacto da necessidade de capital de giro; e maior custo de compra de combustíveis, também por estarem rateando a compra de combustíveis. “Ou seja, ela foi impactada de uma maneira relevante em quase tudo que aconteceu no setor e realmente o viés é negativo. Entre as distribuidoras é a pior, principalmente porque ela é exclusivamente distribuidora, então foi impactada por tudo isso. O viés é bem negativo”, concluiu.

“Uma empresa no pior sentido possível”
“Nós (Empiricus) já não gostávamos da Eletrobrás antes da MP 579 e agora piorou ainda mais”, disse Nantes. A companhia estatal é a que apresentou a pior queda no ano passado (ON, PNA e PNB) e neste ano só fica à frente da Eletropaulo.

“A empresa não é eficiente. Ela até tem melhorado as distribuidoras, mas é uma empresa no pior sentido possível. No entanto, a ação está muito barata, se eles venderem as distribuidoras, como falaram, o papel pode subir muito, pois ele vão mostrar que cumprem o que falam. Mas, operacionalmente, a empresa é muito fraca, tem muita retórica, mas quase nada foi feito e as mudanças que foram prometidas não foram realizadas”, finalizou Nantes.