No Brasil, foco está em dívida

Investidor está numa posição desconfortável para aplicar hoje, aponta BlackRock

Gestora enxerga oportunidade em renda fixa de mercados emergentes e em ações nos Estados Unidos, e descarta recessão no curto prazo

Axel Christensen, estrategista chefe para a América Latina da BlackRock

SÃO PAULO – Uma das principais fontes de incerteza na atualidade, uma nova recessão nos Estados Unidos tem assombrado investidores em um cenário já de preocupação com a guerra comercial em curso entre Estados Unidos e China, a desaceleração vista em alguns países europeus e juros extremamente baixos – negativos em determinados casos.

Na prática, o investidor está mais desconfortável para alocar seus recursos, já que, de um lado, tem buscado proteção para reduzir a exposição aos riscos, mas, de outro, segue à procura de retorno, ainda que em um contexto de taxas de juros cada vez mais comprimidas.

Essa é a avaliação de Axel Christensen, estrategista-chefe de investimento na América Latina da gestora BlackRock, que, em entrevista ao InfoMoney, demonstrou cautela com relação ao Brasil, de olho no ritmo ainda lento de recuperação da economia e atento à conclusão da aprovação das reformas em curso. O ambiente de queda dos juros, por sua vez, é apontado como importante para a estrutura de dívida do país, segundo o executivo, que fica baseado em Miami.

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Gestora responsável pela administração de US$ 6,8 trilhões, a BlackRock tem posição “overweight” (acima da média do mercado, equivalente à compra) em bonds (renda fixa) de mercados emergentes e neutra (ou “equal weight”, correspondente à manutenção) em ações na região, com preferência sobre a América Latina em relação à Ásia. Exceção por conta da turbulência política, a classificação da Argentina está em revisão.

Já nos Estados Unidos, a BlackRock tem classificação overweight em ações, em meio a um cenário que não contempla uma recessão global no curto prazo, embora uma crise não seja descartada a partir de 2021.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista, feita por telefone.

Avaliação sobre o Brasil

“Quando se olha para a situação brasileira, é claro que estamos preocupados com a desaceleração econômica, um pouco mais profunda e cada vez mais extensa do que se pensava inicialmente. Estávamos esperando um tipo de correção lenta no primeiro semestre deste ano, e ela parece ter se expandido um pouco e começado a afetar as expectativas para o próximo ano. Tendo dito isso, existem dois ou três fatores que sustentam uma posição difícil em relação ao Brasil.

Por um lado, a economia brasileira, diferentemente de outras economias do mundo, está há apenas alguns anos saindo de uma recessão muito profunda, o que significa que devemos esperar um ambiente de taxas mais baixas e um aumento da confiança nos negócios que possa estimular a volta dos investimentos.

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Se olharmos para algumas das expectativas de crescimento existentes no mercado, estaremos observando alguma recuperação modesta, geralmente em torno de 2% para o próximo ano, e, a partir de então, uma expansão entre cerca de 2% e 2,5%.

E isso me leva ao segundo ponto, que fica com os bancos centrais, que ainda têm espaço para reduzir mais as taxas. O mercado está se antecipando e eventualmente obtendo como resultado [uma Selic de] 5% neste ano e permanecendo nesse patamar pelo menos no próximo ano [a entrevista com Axel foi feita antes da última reunião do Banco Central].

Isso também é importante, porque permite que empresas, assim como o governo, vejam seus custos de financiamento caindo, o que é especialmente importante em termos de redução do nível de endividamento para uma situação mais sustentável.

E o terceiro ponto é sobre as reformas. Teremos que ser cautelosos até que a estrutura da reforma da Previdência seja completamente aprovada. Parece que uma reforma significativa deve apoiar outras medidas anunciadas para melhorar a situação fiscal, embora uma coisa seja anunciar, outra, implementar e cumprir. Então pretendemos seguir com cautela, assim como com outras reformas que possam vir, como a tributária.”

Latinos x Asiáticos

“Estamos equal weight em bonds. Os Treasuries [títulos do Tesouro americano] parecem estar um pouco caros em relação às perspectivas para o médio prazo. No que diz respeito às ações, procuramos mercados mais confiáveis, ou conhecidos, o que significa que eles estão em melhor posição diante de um cenário mais incerto. Então estamos overweight em ações americanas.

Já nos mercados emergentes como um todo, passamos de uma perspectiva de melhor retorno para uma posição neutra. Mudamos nossa preferência da Ásia como um grupo, especialmente por conta da China, que consideramos mais exposta aos impactos da guerra comercial, para a América Latina, principalmente pelo Brasil.”

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Argentina e o impacto sobre emergentes

“Definitivamente precisamos ser cautelosos com relação a qualquer impacto contínuo nos mercados emergentes em geral. Dito isto, a Argentina não contribui de forma muito significativa, ainda é um mercado bastante pequeno, especialmente na parte de ações. Investidores olham para a Argentina como um tipo de sinal das fraquezas que outros mercados emergentes podem ter, que precisam ser seguidos de perto. Estamos colocando a Argentina em revisão.

Do ponto de vista estratégico, a Argentina está sendo analisada por causa da situação em andamento. Vimos muitas mudanças diferentes ocorrendo, desde a dívida até o controle de capitais. Portanto, é muito difícil ter uma visão estratégica definitiva. Do lado das ações, pode haver outra visão em relação às nossas posições, devido à possibilidade de a Argentina ter que sair de alguns dos índices de referência.”

As melhores alternativas para investir hoje

“Investidores enfrentam um dilema difícil, porque, de um lado, as discussões sobre as perspectivas de riscos que afetam a economia global aumentaram em comparação ao início deste ano. Então, definitivamente, o apetite por riscos, apenas dessa perspectiva, seria de buscar ativos mais seguros. (…) Vimos algo curioso, aparentemente até uma contradição, com a queda dos rendimentos dos títulos dos Tesouros americanos e alemães, mas, ao mesmo tempo, com os spreads de mercados emergentes comprimidos, o que parece ser contra-intuitivo.

Normalmente, quando os preços dos ativos mais seguros aumentam, os dos ativos mais arriscados, como títulos de mercados emergentes, diminuem. Durante este ano, vimos os dois subirem, o que é um tipo de dupla exposição que os investidores estão tentando desenvolver.

Se por um lado os investidores estão procurando segurança, por um lado, também estão procurando um rendimento adicional, especialmente no segmento de dívida dos mercados emergentes. Não tanto em ações, mas em dívidas. Então, estamos vendo os investidores lutando com um pé na água fria e outro na água quente, e torcendo para que a combinação seja boa. Mas é definitivamente uma posição desconfortável.”

Há razão para o maior pessimismo global?

“Definitivamente. Há uma longa lista de coisas para se preocupar e certamente os mercados estão refletindo as perspectivas de desaceleração da economia global. Para mim, algumas dessas preocupações são mais relevantes em escala global do que outras. Eu poderia citar a guerra comercial, principalmente entre os EUA e a China, mas também envolvendo outros países. É o mais determinante em termos de capacidade de ter um impacto mais significativo na economia global.”

Chances de uma recessão nos Estados Unidos

“A BlackRock não tem como cenário base uma recessão global para este ou o próximo ano. Nossos modelos estão apontando para uma probabilidade mais elevada de recessão provavelmente a partir de 2021. Esse é um cenário básico, é claro que pode mudar, pois parte dos riscos mencionados se desenvolverá de forma diferente, com uma nova escalada na guerra comercial ou algum tipo de acordo entre os EUA e a China. (…) É muito difícil ter uma imagem definitiva, porque temos uma quantidade significativa de alternativas próximas. Portanto, neste momento, nosso cenário base não aponta para um nível global de recessão, principalmente devido à força da economia dos EUA, que apoiará o crescimento global.”

 

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