Estratégia em emergentes

Os motivos para ficar otimista com as ações brasileiras, segundo grandes bancos

Corte de juros se soma a atrativos valuations no Brasil, apontam estrategistas do Goldman Sachs e Bradesco BBI, reforçando visão positiva que o Itaú BBA já possuía com o mercado dentro da estratégia da América Latina; contudo, investidores devem seguir de olho na política

(Shutterstock)

SÃO PAULO – A despeito dos efeitos das incertezas internacionais sobre o país, o Brasil segue sendo um dos favoritos entre os grandes bancos dentro da estratégia de América Latina e emergentes. 

O ambiente de relativamente baixa incerteza política, medidas que vão em linha com uma maior autoridade fiscal (como a aprovação da reforma da Previdência) e, principalmente, o corte de juros em ritmo acelerado, são apontados como razões para mais otimismo com a bolsa brasileira. 

Ron Gray e Caesar Maasry, analistas do Goldman Sachs, apontam que o mercado acionário do País, junto com os da Rússia e do México, mostra uma das maiores correlações negativas com os juros entre os mercados emergentes.

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Ou seja, taxas de juros mais baixas – como as que estão acontecendo no Brasil com o corte da Selic para 5,5% ao ano na última reunião, com indicações de mais cortes  – devem dar suporte aos preços das ações. 

De acordo com os analistas do banco americano, as bolsas russas e brasileiras “se destacam com um desempenho abaixo do esperado” e podem ter espaço para recuperação. Isso pode acontecer principalmente se os dados chineses se acelerarem. 

O valuation atrativo e os catalisadores domésticos também são motivos para o ânimo do Bradesco BBI tanto com Brasil quanto com o México, possuindo recomendação overweight (exposição acima da média) para os ativos na América Latina. 

“O mercado acionário  brasileiro parece barato quanto consideramos a taxa de juros real de longo prazo e a nossa previsão de crescimento de lucro por ação”, aponta a equipe de estrategistas, comandada por André Carvalho. 

Os estrategistas ainda reforçam que o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, ainda conta com um bom índice de aprovação, de 41%, o que parece suficiente para que o governo continue trabalhando com o Congresso e cumpra a agenda de reformas.

Além disso, do ponto de vista estratégico, o Bradesco BBI reforça que o Banco Central deve reduzir a Selic para cerca de 4,5% no atual ciclo de flexibilização, ou 1 ponto percentual. 

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“Neste ambiente de taxas de juros básicas muito baixas e aceleração gradual do PIB, o risco político em relação à agenda econômica atual provavelmente permanecerá baixo”, apontam. 

Assim, embora a alta incerteza política tenha sido um tópico importante na América Latina, a expectativa é de que ela diminua num futuro próximo, apontam os estrategistas do banco, especialmente no Brasil e no México. 

Mas eles fazem um alerta, de que essa é uma suposição é crítica no caso-base dos estrategistas. “Em nossa opinião, a boa história brasileira também precisa de consistência em termos de política econômica”.

Assim, para o Bradesco BBI, há quatro temas de investimento para ficar de olho, escolhendo também os papéis para apostar:

  1. 1. Baixas taxas de juros por um longo tempo. O Bradesco BBI espera que a taxa Selic fique em uma média de 6% até 2022, o que deve ajudar a impulsionar o mercado de capitais, as fusões e aquisições, reduzir despesas financeiras e aumentar a atratividade de ações com características de títulos. 
  2. Como resultado,as  taxas baixas beneficiariam ações e setores altamente alavancados, como bolsas, shoppings e serviços públicos. Neste sentido, o portfólio do Bradesco BBI em América Latina tem ações da B3 (B3SA3), Rumo (RAIL3), Energisa (ENGI11) e CPFL (CPFE3), enquanto possui uma participação abaixo da média em bancos e seguradoras brasileiras.
  3. 2. Um ciclo de crescimento muito longo. O crescimento do PIB do Brasil está aumentando gradualmente, impulsionado por crédito, devendo se beneficiar ainda de um impulso temporário dos recursos do FGTS no quarto trimestre de 2019 e no primeiro trimestre de 2020. O hiato do produto – diferença entre o crescimento do PIB e seu potencial de expansão – levará muito tempo para ser fechado, avaliam, permitindo que o ciclo do crescimento atual dure por mais 4-5 anos. Os nomes de alta qualidade com execução sólida são boas alternativas nesse cenário e, neste ambiente, os estrategistas possuem Lojas Renner (LREN3) e CVC (CVCB3) na carteira. 
  4. 3. Privatizações, vendas de ativos e viradas nas estatais. Privatizações, concessões e a venda de ativos podem ser fatores significativos para alguns setores, como petróleo e gás, transporte, serviços públicos e financeiros. O Bradesco BBI possui na carteira Petrobras PN (PETR4) e Banco do Brasil (BBAS3).
  5. 4. Alta incerteza política. Apesar da aprovação ainda ser significativa, o governo Bolsonaro ainda não possui uma ampla e estável base de coalizão no Congresso, afirmam os estrategistas. Como resultado, o presidente precisa negociar ad hoc (caso a caso), mantendo a visibilidade baixa e alguma incerteza política. Além disso, isto acontece em um contexto em que o governo não conta com satisfação expressiva dos eleitores, o que pode manter a pressão de queda nos índices de aprovação. 
  6. “Nesse ambiente de incerteza política, os prêmios de risco comprimem gradualmente, exigindo alguma proteção ao nosso portfólio, como exportadores baratos e nomes defensivos domésticos atraentes”, avaliam os estrategistas. No portfólio na América Latina, eles possuem Vale (VALE3) e alguns nomes betas baixos, como CPFL (CPFE3) e Energisa (ENGI11).

Vale destacar que, no início do mês, antes mesmo do Copom, o Itaú BBA havia reforçado a visão positiva com o Brasil dentro do universo da América Latina, após o MSCI Brazil registrar queda de 10% em dólares em agosto, refletindo principalmente a depreciação de 9% do real no período. Esta foi a segunda pior performance na América Latina, só perdendo para a Argentina. “Apesar dos obstáculos de curto prazo, o Brasil segue sendo o preferido na América Latina”, destacaram os estrategistas do banco.

Desta forma, os estrategistas seguem vendo os papéis brasileiros como atrativos dentro da América Latina, mas seguem de olho no cenário político. Contudo, o ânimo segue alto no Brasil, principalmente em meio ao ambiente propício para o corte de juros. 

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