Bonde sem freio

Interessado em Bitcoin após a alta de 2020? Especialistas indicam quanto investir e os melhores caminhos

Ativos digitais podem atuar como mais uma alternativa de diversificação dentro de um portfólio com outros investimentos

SÃO PAULO – Impulsionado pelo ambiente de juros baixos e liquidez abundante e pelo aumento dos hábitos digitais acelerado pela pandemia, só no ano passado o Bitcoin subiu mais de 300%, em dólar.

Em tempos de juros reais negativos, um movimento tão destacado como esse naturalmente não passa despercebido, e contribuiu para que os criptoativos tenham se tornado figurinha cada vez mais comum nas reuniões entre gestores de patrimônio e planejadores financeiros com seus clientes.

E mesmo que todo o potencial por trás da tecnologia blockchain ainda não esteja muito claro, a descorrelação oferecida pelos ativos digitais dentro de um portfólio diversificado de investimentos logo que surgiram, em resposta à crise de 2008, e agora na pandemia, começa a derrubar a resistência de parte dos especialistas.

Naturalmente como tudo que ainda está no início, a fatia indicada para o investimento nas criptomoedas é marginal, de 1% a 2% do patrimônio, chegando a 5% no máximo, com o investimento via fundos ou diretamente nos criptoativos a depender do perfil de risco, e do poderio financeiro do investidor.

Cabe destacar que a falta de regulamentação pelos bancos centrais é apontada como um risco que serve para manter alguns investidores ainda com um pé atrás com o ativo.

Confira a seguir os cinco principais pontos levantados por especialistas consultados pelo InfoMoney que o investidor que deseja destinar parte dos recursos aos novos ativos digitais precisa considerar.

Negócio que veio para ficar

Com o amadurecimento das criptomoedas no mercado global ao longo dos últimos meses, quando grandes empresas e investidores institucionais passaram a olhar com mais atenção para as oportunidades nos ativos digitais, a gestora de patrimônio Azimut Brasil Wealth Management optou por trilhar o mesmo caminho, diz Alexandre Hishi, responsável pela gestão de investimento da casa.

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Após se aprofundar mais a respeito do assunto, em maio de 2020, a Azimut incluiu os produtos dedicados aos criptoativos da gestora especializada BLP Asset no leque de fundos indicados aos clientes.

Pioneira no mercado de fundos de investimento em criptomoedas no Brasil, a BLP tem dois produtos que buscam as melhores oportunidades no nicho digital, sendo um deles voltado para investidores profissionais, com 100% de exposição a uma carteira global de criptoativos, que rendeu 345% no ano passado.

Por ser destinado para o público geral, o outro fundo pode ter apenas 20% da exposição a essa mesma carteira global, com o restante aplicado no CDI. Por conta disso, os ganhos no ano passado foram significativamente menores, de 40%.

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Hishi ressalta que, assim como ativos como o ouro, o Bitcoin não faz parte da recomendação estrutural da gestora, ou seja, os modelos-base traçados para a maior parte dos clientes não incluem a criptomoeda.

Mas a Azimut passou a indicar os fundos da BLP para aqueles com maior grau de sofisticação e conhecimento sobre o mercado e sua volatilidade, e que desejam ingressar nessa nova tecnologia.

“Sempre fui muito cético com relação às criptomoedas, mas o crescimento não só do valor do ativo, mas desse mercado, chamou nossa atenção”, afirma o gestor, em referência ao início da aceitação do Bitcoin como forma de pagamento na PayPal, ou à oferta de contratos futuros na bolsa de Chicago (CME), entre tantos exemplos que evidenciam o aumento da inserção dos criptoativos no mercado “convencional”.

São evoluções importantes que dão mais segurança para investidores que, como Hishi, tinham dúvidas sobre esse mercado.

“Começamos a estudar mais a respeito do tema para entender melhor, e a sensação que tenho hoje é a de que esse é um negócio que veio para ficar”, diz ele, acrescentando que a Azimut avalia incluir também os fundos de criptomoedas da Hashdex no leque à disposição dos clientes, produtos que são oferecidos nas versões para público geral, qualificado ou profissional pelas principais plataformas de investimento.

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De toda forma, a recomendação da gestora de patrimônio para os investidores é ter uma posição marginal, de 1% a 2%, para quem quer alocar parte do capital nas criptomoedas.

A visão é compartilhada por José Raymundo de Faria Júnior, planejador financeiro CFP. A volatilidade dos ativos digitais é bastante elevada, e investir percentuais muito acima desses pode representar um risco excessivamente elevado de perda de boa parte do patrimônio, afirma o planejador.

Na mesma linha, Patricia Palomo, sócia da gestora de patrimônio Sonata, entende que as moedas digitais podem ser enxergadas como opção de diversificação, com uma exposição que não deve ultrapassar os 5% de uma carteira, com a alocação majoritária em outros mercados como ações no Brasil e no exterior, renda fixa e moedas convencionais. “Cuidado com a concentração”, afirma a especialista.

Apesar da alocação ainda em níveis baixos, até que um maior amadurecimento do nicho se materialize, a especialista da Sonata destaca que a tecnologia blockchain e a descentralização do processo de negociação por trás das criptomoedas são conceitos poderosos e com capacidade de afetar o mercado financeiro de maneira mais ampla no longo prazo.

Fundo x Investimento direto

Para o investidor interessado, Hishi, da Azimut, entende que os fundos de criptomoedas têm vantagens em comparação à aplicação direta, como a camada adicional de segurança por conta da supervisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da autorregulação promovida pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Ao aplicar no fundo, afirma o profissional da Azimut, o investidor conta com uma gestão especializada que tende a sempre buscar as melhores oportunidades desse universo, uma vez que não serão todas as criptomoedas que vão sobreviver, observa.

E também não precisa se preocupar com a guarda e a segurança das chaves privadas que concedem o direito à posse dos ativos digitais, que ficam sob a responsabilidade da gestora.

O planejador financeiro Faria Júnior tem visão um pouco diferente. Para o investidor pessoa física “comum” do varejo, sem tanto dinheiro para conseguir aplicar nos fundos para profissionais ou qualificados que permitem uma exposição relevante da carteira aos criptoativos, de 100% ou de 40%, respectivamente, ele entende que o melhor a se fazer é investir diretamente no Bitcoin.

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Isso porque os fundos para o varejo, ainda que tenham tíquete de entrada relativamente acessível, a partir de R$ 500, são considerados demasiadamente aguados pelo especialista, ao permitir por força regulatória somente 20% de exposição indireta nos ativos digitais, sendo obrigados a manter a maior parte dos recursos aplicado no CDI, que roda hoje abaixo da inflação.

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Além disso, prossegue o especialista, pesa contra os fundos na comparação com a aplicação por conta própria as taxas de administração, e algumas vezes de performance.

“A baixa exposição às criptomoedas, no caso dos fundos de varejo, e os custos atrelados aos produtos geram discrepâncias em termos de rentabilidade entre aquelas que os investidores acompanham no noticiário e as que são entregues efetivamente pelo fundo”, diz o planejador.

Ele ressalta, contudo, que antes de fazer a aplicação por conta via uma corretora com bom histórico de prestação do serviço, cabe ao investidor interessado se aprofundar a respeito do assunto.

Existem livros, relatórios de casas especializadas de análise e mesmo material na internet de qualidade, de modo que o investidor tenha uma base mínima antes de entrar para não ter sustos inesperados mais à frente, pondera.

Feito esse trabalho, quem quiser seguir adiante e investir diretamente nos criptoativos deve procurar uma corretora especializada nesse segmento, também chamadas de exchanges, e abrir sua conta com o preenchimento de um cadastro com dados pessoais.

Para entender como comprar Bitcoin diretamente, acesse o guia preparado pelo InfoMoney.

Valor x Preço

Claro que depois de uma valorização tão forte como a observada em 2020, diz Hishi, da Azimut, uma realização é algo natural de se esperar, como já foi visto na última segunda-feira (11), quando o Bitcoin chegou a desabar cerca de 20%.

Ele ressalta, contudo, que o ambiente de liquidez elevada e juros baixos, que tende a beneficiar a alta dos preços das ações, imóveis e ouro, também deve contribuir para sustentar a valorização do Bitcoin em um horizonte maior de tempo.

No entanto, diferentemente de ativos reais como os imóveis, em que o investidor recebe o valor do aluguel periodicamente, ou dos títulos públicos, que prometem a remuneração de uma taxa de juros, o Bitcoin, por ser uma moeda, ainda que digital, não tem o mesmo apelo, o que acaba dificultando uma comparação com investimentos mais tradicionais, afirma Patricia, da Sonata.

De todo modo, talvez nem seja mesmo a comparação correta a se fazer, pontua a especialista, acrescentando que, à medida que a moeda digital ganhe usabilidade, tende a aumentar também sua importância pela facilidade de troca, afinal algo é valioso para alguém se pode ser trocado por outros bens.

“Agora, a questão mais difícil e muitas vezes mais importante em investimentos, é qual é o valor do Bitcoin? Não o preço, preço sabemos todos os dias. Mas você consegue avaliar se esse preço está acima ou abaixo do valor do Bitcoin?”, questiona Patrícia.

As dúvidas que permeiam o real valor intrínseco dos criptoativos, refletidas nos movimentos erráticos em suas cotações, prossegue a especialista, só reforçam a importância da diversificação, e de uma aplicação ainda residual, de modo a controlar o nível de risco.

Terra de ninguém?

Para o planejador financeiro Faria Júnior, uma maneira que o investidor tem para mitigar o risco ao apostar nas criptomoedas é evitar fazer uma compra única em um grande valor, privilegiando aplicações pequenas todo mês.

Na avaliação do especialista, o maior risco no radar para a valorização das criptomoedas no longo prazo é a possível regulação por parte de bancos centrais mundo afora, que podem tirar parte do charme do negócio. “Pode ser que tenham outros tombos, a gente nunca sabe.”

É justamente por conta da falta de regulamentação que o superintendente de renda variável do escritório de agentes autônomos BlueTrade, Leonardo Peggau entende que as criptomoedas ainda não têm a segurança necessária para servir como opção de investimento aos clientes da casa.

No caso de moedas fortes, e reguladas, como o dólar, se algum evento drástico faz a cotação disparar, o Banco Central (BC) tem ferramentas para agir de maneira a mitigar os estragos, diz Peggau.

No caso do Bitcoin, continua o especialista da BlueTrade, a autoridade monetária não tem qualquer tipo de ingerência sobre o ativo digital, o que contribui para os movimentos erráticos na cotação, para cima e para baixo.

Ele recorda ainda que, embora os criptoativos tenham tido a valorização destacada que tiveram em 2020, no momento mais agudo da crise em meados de março, a queda no preço foi tão intensa quanto entre as ações nas bolsas, quando o porto-seguro do dólar e dos títulos públicos dos Estados Unidos novamente falou mais alto.

No início de março, quando o pânico dava o tom nos mercados, o preço do Bitcoin chegou a desabar cerca de 50% em apenas uma semana.

Peggau aponta ainda a necessidade de um aprimoramento maior no nível de educação financeira do mercado brasileiro de modo geral, antes que ativos com maior grau de complexidade como as criptomoedas ganhem espaço nas carteiras.

“Imagina receber salário em Bitcoin? Quando está em alta é ótimo, mas de uma hora para outra seu salário pode cair 20% ou mais”, afirma o superintendente de renda variável do escritório com R$ 8 bilhões em ativos sob custódia.

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