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“O Brasil é irrelevante, e eu entendo o porquê.” A frase é de Marcio Appel, gestor à frente da Adam Capital, que tem sob gestão cerca de R$ 3 bilhões, e resume sua leitura pessimista sobre a economia brasileira. Para ele, não há saída de longo prazo que não passe pela inflação.
O executivo classifica as contas públicas como delicadas, presas a gastos difíceis de cortar, como saúde e educação, e diz sentir “um friozinho na barriga”. “Não consigo ver outro caminho para o Brasil que não seja resolver o problema da despesa via inflação”, afirma, atribuindo o impasse à dificuldade política de reduzir gastos.
A avaliação foi feita no programa Stock Pickers, comandado por Lucas Collazo. Para Appel, a fronteira da geração de riqueza está nos Estados Unidos, enquanto o Brasil é, na prática, “o lugar para não perder dinheiro”. Ele diz gostar do país, mas critica o arcabouço fiscal e o avanço do Estado sobre a economia.
Essa leitura se traduz em apostas na alta da bolsa americana e na queda do Ibovespa, estratégia que, segundo o gestor, “há 30 anos dá dinheiro”. No fundo de previdência, a casa está comprada no índice Nasdaq, que considera barato.
Juro alto e o alerta sobre o crédito
O gestor também contesta a ideia de que os juros brasileiros seriam altos o bastante para frear a economia. “Não é contracionista”, diz, apontando o desemprego em queda como sinal de que o país cresce acima do próprio potencial. Na sua conta, o Banco Central erra ao cortar juros.
Ele faz uma ressalva: o real valorizado, puxado pela entrada de dinheiro em busca de juros altos, ajudou a segurar a inflação e seria, sozinho, motivo para o corte. Ainda assim, duvida que a meta de 3% seja atingida e vê mais risco de a inflação subir do que cair.
O maior alerta, porém, está no crédito. Appel cita a forte expansão dos fundos de crédito e dos títulos incentivados como sinal de que os juros ficaram baixos demais no passado. Se estourar uma crise nesse mercado, diz, o crescimento pode desabar e o câmbio, desvalorizar.
Nesse cenário, ele aposta na receita de sempre. “O Brasil sendo o Brasil, a solução vai ser injetar dinheiro”, afirma, prevendo socorro a empresas. Critica ainda a “maluquice” de perseguir a meta de 3%, já que qualquer número, na prática, daria no mesmo.
Virada no ouro e aposta contra o petróleo
No ouro, o gestor mudou de lado. A Adam ganhou dinheiro com o metal no ano passado, impulsionada por juros baixos e pelo medo gerado pelo confisco das reservas russas. Agora, Appel projeta o movimento inverso e vê espaço para uma correção de pelo menos 30%.
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No petróleo, a visão é de queda. Para ele, a pressão da guerra é passageira, e novas fronteiras de produção, incluindo a Venezuela, devem inundar o mercado. Soma-se a isso o avanço dos carros elétricos, que ele resume sem rodeios: “O carro elétrico é melhor.”
O gestor avalia que a demanda por petróleo deve migrar para o transporte pesado e a aviação, enquanto o gás natural segue abundante nos Estados Unidos. Projeta ainda que, em dez anos, boa parte da demanda marginal de energia virá do espaço, reforçando sua tese de centrais de dados em órbita.
Sobre o desempenho da casa, ele conta que voltou a investir em ações individuais depois de elas renderem muito mais que os índices em 2025. Cerca de 80% do resultado veio do exterior; o restante, de apostas na queda do ouro, da bolsa brasileira e do euro.
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