Retomada do PIB

Garde aumenta aposta em ações, de olho em perspectiva mais favorável para o Brasil

Aperto monetário no exterior poderia gerar uma recessão, mas não é risco iminente, diz Marcelo Giufrida, sócio da gestora

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SÃO PAULO – A retomada do crescimento brasileiro é hoje a principal base para a estratégia da Garde Asset Management. Enquanto o mercado vê a alta do PIB do país em 2% ao fim de 2020, a gestora projeta elevação maior, de 2,5%. Para se antecipar a uma expansão um pouco mais robusta da economia, a gestora está reforçando sua posição no mercado de ações, principalmente no setor de consumo.

Segundo Marcelo Giufrida, sócio e CEO da Garde, a retomada prevista para o Brasil ainda não está refletida nos preços das empresas listadas. “A Bolsa parece atrasada pelos juros e pelo crescimento do ano que vem. Há muitos indicadores que antecipam que os resultados estão bons, mas o mercado parece querer ver para crer”, afirmou em entrevista ao InfoMoney, antes de o Ibovespa alcançar os 107 mil pontos, na véspera da aprovação da Previdência no Senado. A Garde também decidiu incrementar a compra de títulos prefixados, de olho em uma taxa Selic de 4% ao ano ao fim de 2019.

Depois de um ano difícil em 2018, Giufrida conta que a gestora promoveu mudanças no pessoal e deixou de segregar as equipes de exterior e Brasil, além de inaugurar uma ala com estratégia quantitativa. “Usamos a força da máquina, mais sistemática e abrangente, junto com o analista, que usa a experiência para separar variáveis com mais peso”, explica o engenheiro.

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Esse time já está trabalhando em uma pequena parte do carro-chefe da casa, o fundo D’Artagnan, inciado em 2013, um dos principais multimercados do país de estratégia macro. Esse tipo de fundo pode realizar operações com títulos, ações, derivativos e câmbio, por exemplo, definindo os investimentos com base em cenários macroeconômicos.

Após fechar 2017 com ganho de 14,6% (147% do CDI), o D’Artagnan sofreu no ano seguinte, quando teve alta de apenas 1,8% (28% do CDI). Neste ano até o dia 22 de outubro, o fundo acumulava retorno de 7,9%, ou 158% do CDI, e enfrenta a saída de cotistas, figurando na lista das gestoras com as maiores perdas de investidores em 2019, em que também aparecem fundos da Adam Capital, Mauá Investimentos e Sparta.

“O lado visível da rentabilidade é muito fácil, o custo de absorver essa informação é muito baixo. A avaliação deveria ser da estrutura, como a empresa está lidando com o momento, suas forças e fraquezas”, afirma Giufrida.

Veja a seguir os principais trechos da conversa com o InfoMoney.

IM: O mercado de ações brasileiro ainda está atrativo?

Giufrida: Sim, parece que está atrasado pelos juros e pelo crescimento do ano que vem. Há muitos indicadores que antecipam que a economia está bem. Tivemos em setembro a melhor geração de emprego em anos, o tráfego nas estradas está crescendo, a receita de impostos vem todo mês acima das expectativas, mas esses dados ainda não levaram a uma confirmação de PIB maior; o mercado parece querer ver para crer. Estamos com um viés mais otimista, principalmente nos setores de consumo doméstico, bancos e um pouco de empresas públicas, com o avanço da agenda de privatização.

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IM: Por que o estrangeiro não está vindo para o mercado brasileiro?

Giufrida: Este é outro enigma. Perdemos peso nos índices, muitas empresas brasileiras estão fazendo IPO lá fora. O investidor que entra em um país com moeda muito volátil tem um problema, porque não sabe qual câmbio vai levar. Em junho a moeda está a R$ 3,80 e, em agosto, vai a R$ 4,20. Esses fatores fazem do Brasil uma combinação de risco e retorno não muito boa. Quando conversamos com gestores globais, a conversa dura 30 minutos sobre México, 20, sobre Argentina e dez, sobre o Brasil, que está um pouco esquecido mesmo no exterior. Isso também dificulta a mudança de patamar da Bolsa. Nesse cenário de juro mais baixo e inflação controlada, a Bolsa não está respondendo tanto. Está até em um ano bom, mas está difícil mudar de patamar pela ausência do estrangeiro.

IM: Como a Garde está alocada hoje?

Giufrida: A parte de ações é uma parcela importante do nosso fundo [D’Artagnan]. Reforçamos a equipe no ano passado e hoje temos aproximadamente um terço em ações, embora o direcional oscile em torno de 10% comprado. Nosso limite [para ações] oscila entre menos 20% e mais 20%. E aumentamos a exposição não só via porcentual, mas pelas características das ações que temos. Estávamos com ações mais defensivas, e nas últimas semanas estamos com ações mais sensíveis a crescimento. Também reforçamos um pouco a exposição a prefixados, porque os dados de inflação vieram muito bons, e reduzimos bastante a parte de NTN-Bs, quase zeramos.

IM: O ano está mais fácil do que 2018?

Nunca é fácil, mas conseguimos entregar o que nos propomos. Fizemos algumas mudanças internas, trocamos algumas pessoas. Reestruturamos os times, sem distinção entre Brasil e exterior, e está funcionando melhor. As áreas de Bolsa e de opções, que até ano passado tinham um volume menor, hoje estão muito mais ombro a ombro com a área de juros e moedas. E a última novidade é o time quantitativo que está colocando um pouco de risco no próprio fundo D’Artagnan. Não é um trade robotizado, em que a máquina fica funcionando sozinha, nem arbitragem; é uma análise fundamentalista em cima de variáveis econômicas de mercado. Usamos a força da máquina, mais sistemática e abrangente, e o analista faz a parte mais artesanal, usa sua experiência para separar que variáveis têm mais peso naquele momento. É uma abordagem que complementa o que fazemos. Tínhamos um time de duas pessoas e complementamos em maio com mais três.

IM: Alguns fundos macro sofreram recentemente, inclusive na Garde. O investidor saiu no pior momento?

Giufrida: No período em que todo mundo vai muito bem, o investidor fica confiante, e em um período de retrocesso, alguns cometem erros. Mas é compreensível, acontece em qualquer lugar.

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IM: Quanto tempo o cotista precisa esperar para avaliar se vocês estão entregando resultado?

Giufrida: Sempre falamos cinco anos, mas cada um tem sua disciplina. Claro que ninguém imagina que o investidor vai chegar aqui e só pedir o valor do investimento daqui a cinco anos; tem todo um processo de monitoramento, de verificar o que está acontecendo. O que acontece, e é compreensível, é uma excessiva valorização do resultado numérico. O lado visível da rentabilidade é muito fácil, o custo de absorver essa informação é muito baixo. A avaliação deveria ser do prestador de serviço, isto é, da estrutura, de como a empresa está lidando com o momento, suas forças, fraquezas. Isso é muito comum no esporte. O time está ganhando, mas como? Jogando bem? Se está jogando mal, você fica preocupado. Se está perdendo jogando bem, faz parte do jogo.

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IM: A janela para reformas no Brasil que vão além da Previdência está menor?

Giufrida: O ímpeto do Congresso com reformas cai historicamente em anos eleitorais, como no ano que vem. No sistema que Bolsonaro adotou, sem uma coalizão formal, tudo fica muito lento e meio errático, a coordenação da pauta não tem um comando do Executivo. Por outro lado, perto da votação da Previdência no Senado e, como foi na Câmara, o governo ficou mais cuidadoso em não tumultuar a pauta. Já no contexto mais recente, há essa crise do PSL, que não teve tanto efeito no Senado, mas, se pensarmos de novo em uma PEC, isso chega na Câmara e 20 ou 30 votos podem fazer falta. O PSL votou muito unido, é um risco.

IM: Falando da cena externa, juros negativos no mundo preocupam pela saúde da economia global?

Giufrida: Há várias explicações sobre o que está acontecendo, mas ninguém sabe qual é a certa. Tem a questão demográfica: com mais longevidade, temos uma oferta de poupança maior, portanto o preço do dinheiro cai. Outros dizem que o ferramental dos bancos centrais está mais robusto, gerando expectativas de inflação mais baixas e permitindo juros menores. Há também quem diga que o deslocamento de produção para a Ásia, com um custo de mão de obra muito mais barato, conteve a inflação mesmo com crescimento, e ainda tem a teoria da estagnação secular, que é mais negativa, e mais uma meia dúzia de explicações.

Ainda não temos uma conclusão sobre esse fenômeno. É preocupante o que pode acontecer se houver uma retomada súbita ao estado anterior. Se esse juro voltar a ficar positivo, os detentores desses títulos terão uma perda de capital gigante, pode gerar até uma recessão. É uma situação muito complexa que vemos com preocupação, mas, quando olhamos o curto prazo, não aparece nada amanhã na direção de reverter esse fenômeno. Os bancos centrais têm trabalhado de um jeito pragmático: enquanto não tem inflação, eles mantêm os juros baixos. Temos estudado e tentado não se deixar hipnotizar só por essa questão dos juros. Talvez eles sejam um sintoma bem visível de algumas disfuncionalidades, mas tentamos olhar o resto do mapa. Também não é um quadro que inspira um temor de um grande colapso à frente.

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IM: Uma piora no cenário global pode frear o Brasil, mesmo se mais reformas avançarem?

Giufrida: Sem dúvida. Um bom cenário é aquele em que o dólar não sobe nem cai muito. Se crescer demais, o Fed [banco central dos EUA] volta a subir juros e o mundo inteiro vai confluir recursos para os EUA; e se tem recessão, ela arrasta o mundo para baixo. Há um ponto ótimo: um pouco mais ou menos de crescimento e de juros, desde que não saia da faixa em que estamos agora, seria bom para o Brasil. Se houver uma queda forte no mundo, vai ser ruim. Nunca houve momentos em que o Brasil se deu bem quando o mundo foi mal.

IM: As eleições americanas podem afetar o Brasil?

Giufrida: Totalmente. Esse é um risco que vai ficar cada vez mais presente. De um lado, uma análise mais histórica é que pouquíssimos presidentes não foram reeleitos no país, só em situações bem particulares. Isso dá a Trump um favoritismo grande. Por outro lado, as eleições americanas são bem imprevisíveis. Se mudar o ganhador em determinado Estado, como a Flórida, a eleição inteira pode ser alterada. É um risco que vai ser crescente, porque a diferença de plataformas entre os candidatos é muito grande.

IM: Neste contexto, a Garde está aumentando a proteção nos fundos?

Nesse cenário em que o exterior tem riscos latentes, mas sem uma visibilidade de que estamos indo para um abismo, não temos feito investimentos grandes em proteção. Não temos um cenário de cauda muito próximo que justifique fazer proteções neste momento.

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