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Ex-ministro abre assessoria para milionários e conta como é gerir grandes fortunas

Ex-ministro, ex-presidente da Bunge e presidente do conselho da BM&FBovespa, Pedro Parente agora dedica a maior parte de seu tempo à empresa que abriu com a esposa para assessor a gestão de grandes fortunas

Pedro Parente
(André Lessa)

Pedro Parente já ocupou alguns dos mais altos cargos no governo federal e no setor privado. Foi ministro da Casa Civil, do Planejamento e do “Apagão” no segundo governo FHC (1999-2002). Também atuou como presidente dos conselhos de administração das duas maiores estatais federais, a Petrobras e o Banco do Brasil. Já no setor privado, foi vice-presidente-executivo da RBS, um dos maiores grupos de mídia do país, e presidente da filial brasileira da gigante do agronegócio Bunge. Após décadas de atividades executivas, agora ele decidiu tocar um negócio próprio. Junto com a mulher, Lucia Hauptman, Parente tem dedicado a maior parte de seu tempo à Prada Assessoria, uma empresa especializada na gestão das fortunas de famílias milionárias – ao mesmo tempo em que continua a participar de conselhos de grandes empresas, como a BM&FBovespa.

Criada em 2010, a Prada faz uma avaliação completa da vida financeira dos clientes e indica os investimentos que mais se encaixam em suas necessidades. Para garantir a qualidade do serviço, a empresa trabalha para pouquíssimas famílias – hoje são apenas 20, todas com patrimônio superior a R$ 20 milhões. A assessoria começa com a realização de um raio-X das finanças do cliente, que mostrará os planos para o dinheiro, as metas de rentabilidade nos investimentos, as necessidades de liquidez e o grau de tolerância a risco. Esse primeiro passo é importante porque muitas famílias não sabem o que querem fazer com o próprio dinheiro. “Uma família de intelectuais, de artistas plásticos ou de gente que não é do meio financeiro muitas vezes não sabe nem os bens que possui”, diz Lucia.

Somente após o mapeamento completo dos objetivos e necessidades é que começarão a ser definidos os ativos que entrarão na carteira dos clientes, de forma personalizada. “Não é porque alguém diz que é conservador que a gente já oferece uma receita de bolo que serve para todos os clientes conservadores”, afirma Parente. Ciente dos planos financeiros de cada família, a equipe de gestores da Prada escolhe os ativos mais adequados, monta uma carteira diversificada e faz uma prestação de contas mensal. “A gente controla onde está o dinheiro, como está aplicado, quanto está rendendo, em que banco está. Colocamos isso em uma única página. Não é algo banal porque o controle financeiro não é a atividade da família”, diz Lucia.

Além do acompanhamento periódico da carteira, um diferencial importante da Prada é cobrar por seus serviços apenas do cliente, de forma que não haja um conflito de interesses em indicar o melhor investimento ou aquele que melhor remunera o distribuidor. “Nosso trabalho de aconselhamento é completamente dissociado de uma remuneração oferecida ao distribuidor. Se um fundo, por exemplo, paga rebate ao distribuidor, a gente devolve esse dinheiro ao cliente”, diz Parente. Isso é complemente diferente do que acontece no “private banking” – ou seja, na área dos bancos responsável por assessorar milionários. “O pessoal de banco tem um viés de produzir relatório, distribuir para a área de vendas, que, por sua vez, liga para o cliente. O banco ganha dinheiro estruturando o produto e vendendo. Aqui a gente não está vendendo nada”, diz Lucia. Outra diferença é que muitos bancos vendem apenas seus próprios produtos. “Já a gente avalia os melhores produtos de vários gestores e só oferece ao cliente o ‘best in class’ [melhor dentro da sua classificação]”, afirma. A preferência da Prada, no entanto, é por comprar ativos em si, e não fundos de investimento – a não ser que o gestor seja tão bom em determinados segmentos do mercado que seu trabalho não possa ser replicado. Dessa forma, o cliente não é obrigado a pagar duas taxas: a da Prada e a da gestora do fundo.

A empresa investe o dinheiro dos clientes tanto em ativos financeiros quanto em imóveis físicos. Nesse segundo caso, a Prada pode, por exemplo, comprar uma fazenda, transformá-la em área urbana, obter todas as licenças de construção, fazer um loteamento, vender os lotes e aí devolver o dinheiro aos clientes com lucro. “O cliente do banco não conta com um serviço como esse porque a ele será oferecido apenas um fundo imobiliário. Só que quando uma laje de escritórios já está alugada e passa a fazer parte de um fundo, a maior parte do retorno do empreendimento já ficou para trás. O retorno que sobrou é o do aluguel”, explica Lucia. No futuro, a Prada planeja fazer o mesmo com investimentos em empresas que não estão listadas na Bolsa. Seria uma atuação semelhante ao de fundos de “private equity”: a família compra uma participação em uma empresa, essa companhia cresce e as ações ou cotas são revendidas anos depois com lucro.

O que tem gerado os melhores retornos aos clientes da empresa, no entanto, são as posições em dólar, em ativos internacionais e em crédito privado no Brasil. “Quase todo cliente pede para ter alguma posição internacional”, diz Lucia. Com ações, a empresa diz não ter ido tão bem recentemente. “Em 2013, o Ibovespa caiu 15%. Já a gente ganhou 15%. Pelo meu mandato, quero dar 20% ao ano com a Bolsa.” O movimento de forte alta das estatais com a possibilidade de vitória da oposição na eleição de outubro, que foi responsável pela recuperação da Bolsa como um todo neste ano, também não foi antecipado pela Prada. “A questão das eleições é curiosa. Todo mundo já sabe que a economia continua desacelerando e que a inflação continua pressionada. Mas o resultado das eleições é uma incógnita. A gente preferiu reduzir a exposição ao risco, tirar dinheiro da Bolsa e colocar em crédito privado com uma visão de que os juros estavam altos demais”, diz Lucia. Como os juros caíram do início do ano para cá, por ora está dando certo.

 

Pedro Parente em duas perguntas

InfoMoney – O sr. é presidente do conselho de administração da BM&FBovespa. Por que a Bolsa tem gerado uma rentabilidade tão ruim para os investidores nos últimos quatro anos e meio?

Pedro Parente - São questões relacionadas ao mau trato que determinadas empresas sofreram de seus sócios controladores, especialmente as do setor público. Determinadas medidas do governo prejudicaram empresas que são de sua propriedade. Essas coisas fazem com que o mercado acionário não tenha ido bem nos últimos anos, ainda que tenha melhorado nos últimos meses. É uma questão que não tem a ver especificamente com o mercado ou com as empresas, mas com aquilo que indiretamente influencia as companhias abertas. Saiu muito capital estrangeiro da Bolsa. Para a Bolsa subir, falta a melhoria das expectativas macroeconômicas. A expectativa de crescimento da economia foi só se deteriorando. Empresas não conseguem fazer IPO [oferta inicial de ações] porque falta confiança.

IM – O sr. foi ministro da Casa Civil e também recebeu a alcunha de “ministro do Apagão” porque coordenou a reação do governo FHC à falta de chuvas que levou ao racionamento de energia em 2001. Por que, 13 anos depois, o Brasil vive novamente o risco de um apagão? Quais lições não aprendemos?

PP - Fui protagonista na crise energética de 2001, mas, de lá para cá, não trabalhei mais com o setor. Estou esquecido de detalhes e desatualizado. Mas a principal lição que tive é que é necessário ter muito cuidado para não confundir risco com sinistro. Pense em algo de baixa probabilidade, mas que, se acontecer, a pessoa morre. Você vai tomar conta daquele problema mesmo que a probabilidade de acontecer seja muita pequena, certo? O que quero dizer é que, mesmo que a probabilidade de acontecer o problema seja pequena, é preciso ter muito cuidado porque, se a necessidade de redução de carga for muito grande, pode haver um baque importante na economia do país. A confusão entre probabilidade de acontecer e tamanho do problema se acontecer pode ser catastrófica.

Essa matéria foi publicada na edição 51 da revista InfoMoney, referente ao bimestre maio/junho de 2014. Para tornar-se um assinante da revista, clique aqui.

 

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