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Brasil não sairia ileso de outra crise como a de 2008, diz gestor de R$ 9,5 bi

Chefe da área de investimentos da Rio Bravo, Paulo Bylik diz que juros já muito baixos e deterioração das contas públicas enfraqueceriam a reação do governo a uma possível crise

Paulo Bilyk
(Divulgação)

SÃO PAULO – O chefe da área de investimentos da Rio Bravo, Paulo Bylik, acredita que o governo brasileiro começa a assumir riscos elevados em política econômica. Em entrevista ao InfoMoney, Bylik alertou que o País já não possui mais fundamentos sólidos como em 2008, quando conseguiu permanecer de pé diante de uma crise financeira de grandes proporções. “Se vier agora algo pesado e importante, não vai ser tranquilo, não. Nós não sairemos ilesos”, afirmou. A Rio Bravo Investimentos  possui aproximadamente R$ 9,5 bilhões sob gestão.

Entre os principais riscos que pairam sobre a economia mundial, está uma possível corrida bancária na Europa. A liquidação do segundo maior banco do Chipre e o confisco de parte dos depósitos dos correntistas com mais de 100 mil euros no mês passado pode ser interpretado como um sinal de fragilidade das instituições financeiras europeias. Outro país que corre risco de ter uma tragédia semelhante é a Eslovênia. Se correntistas assustados de Portugal e Espanha também começarem a tirar o dinheiro do banco para se proteger de eventuais prejuízos futuros, essa corrida aos bancos poderia gerar uma crise de confiança que mergulharia a economia mundial em uma nova recessão.

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Para Bylik, em um cenário como esse, o governo brasileiro já não teria tantos instrumentos para blindar a economia, como durante a crise detonada pela quebra do Lehman Brohters, em 2008. “O Brasil não pode correr esse tipo de risco. Não podemos correr o risco de cenários adversos intensos internacionais pois nós não temos mais a mesma blindagem. O investidor estrangeiro está com bastante mau humor em relação a isso”, explicou Paulo.

A situação hoje é diferente porque o superávit primário é muito mais baixo. De acordo com cálculos do Itaú, a economia para o pagamento de juros representou 2,1% nos últimos 12 meses – mas o número efetivo ficou ainda mais baixo. Além disso, olhando para a dívida bruta, que soma 59% do PIB e está em tendência de alta, o País já não teria espaço para adotar políticas fiscais expansionistas sem gerar alguma preocupação entre os investidores.

Outro problema é a taxa de juros. A Selic caiu mais de 5 pontos percentuais desde 2008 e agora encontra-se em 7,25% ao ano. “Até quanto ele [o Banco Central] pode diminuir? A gente não pode ter um juro real negativo muito forte no Brasil. (...) O superávit não é mais o mesmo, não dá para gastar muito mais. Reservas internacionais têm bastante, mas com elas você consegue só proteger as contas externas. A atividade interna você não consegue mais blindar do cenário internacional.”

De acordo com Bylik, um cenário internacional adverso que coloque o crescimento em xeque também afetaria o mercado de trabalho. O aumento do desemprego, por sua vez, geraria maior inadimplência nos empréstimos bancários, justamente em um momento em que os bancos públicos têm pisado no acelerador nas novas concessões de financiamentos. O governo seria obrigado então a injetar dinheiro nos bancos estatais, prejudicando ainda mais as contas públicas e gerando um círculo vicioso. “Nós já vivemos isso antes e temos a tristeza de estarmos repetindo os mesmos erros. Nós estamos muito expostos a essa situação, apesar de uma forte crise não ser nosso cenário dominante”, completou.

Quem investe em ações já vem sentindo na pele a fragilidade da economia. No primeiro trimestre, o Ibovespa recuou 7,55% ao mesmo tempo em que o índice Dow Jones da Bolsa de Nova York subiu 11,25%, batendo novos recordes. Já na rolagem da dívida pública, Bylik acredita que os mercados podem continuar tolerando o comportamento mais heterodoxo do governo até a eleição de 2014 – desde que um desastre não aconteça. Depois disso, no entanto, os investidores vão exigir provas de maior austeridade e políticas financeiras responsáveis. Se o governo não aproveitar o capital político da possível reeleição para iniciar reformas logo após as eleições, o Brasil poderá ser punido pelos investidores.

Facilidades populistas geram inércia negativa
Segundo o CIO, a principal diferença entre o governo Dilma e os dois anteriores é que a variável-chave na definição da política monetária deixou de ser a inflação e passou a ser a renda/emprego. Mesmo diante da possibilidade de estouro da meta de inflação nos 12 meses terminados em março, o BC se recusa a tomar medidas impopulares como o aumento dos juros para não esfriar o mercado de trabalho.

Paulo Bylik diz que, ao mesmo tempo em que mantém uma política monetária relaxada, o governo continua a aumentar os gastos para não comprometer a reeleição em 2014. As facilidades populistas correntes, no entanto, geram uma inércia negativa para o impulso de reformas, pois alimenta uma ideia de que está tudo indo muito bem e todos estão felizes, sendo que a situação é bem diferente.

“Só está tudo ótimo para quem está na ponta receptora dos benefícios, porque quem está na ponta doadora, que está pagando para viabilizar esses benefícios, está se sentindo debaixo d’água. Se houvesse algum senso de crítica à administração de uma forma mais ampla, seria muito bom”, afirmou. Os empresários, no caso, é que estão pagando pato. O lucro das empresas abertas brasileiras recuou 33% no ano passado, o que pressiona as cotações na Bovespa.

O mercado financeiro, disse Bylik, espera que o governo mude sua postura, começando com mais regras claras para o ambiente de investimento, menos intervencionismo, um movimento pró-privatização, mais contenção de gastos e melhora da situação fiscal. No entanto, o discurso hoje é exatamente o oposto: mais transferência de renda, mais salários e mais benefícios.

“A discussão teria que ser mais estruturada e menos populista, mas o governo não está se coçando para esse tipo de discurso e a oposição está sem reverberação, pois tudo é abafado pela alta popularidade. Porém, os mercados antecipam situações, e, em minha opinião, o mercado já está antecipando que a atividade econômica, a inflação e o fiscal não estão bem”, afirmou o CIO.

Evandro Buccini, economista da Rio Bravo, questionou também a taxa de popularidade da presidente. “Essa taxa de popularidade é estranha. Em que país 85% da população apoiam o governo? É estranho. Não cai nunca. E como na eleição é sempre outra história? Com uma taxa dessas ganharia no primeiro turno, mas o Lula não ganhou no primeiro turno e a Dilma não ganhou no primeiro turno. E essa próxima eleição vai ser ainda mais complicada”, afirmou Buccini. Em 2014, Dilma provavelmente terá que enfrentar três adversários conhecidos: Aécio Neves (PSDB), Eduardo Campos (PSB) e Marina Silva (cujo novo partido ainda não conseguiu as assinaturas necessárias para sua criação).

“Nós ficamos caros antes de ficarmos ricos”
“Parte da pauta da presidenta Dilma é dizer que ela foi a mulher que trouxe o juros para o nível mais baixo da história do Brasil e teve a coragem de peitar os bancos. É o ‘claim to fame’ dela”, disse Bylik. O problema é que os juros caíram, mas de forma rápida demais, sem que o País estivesse preparado, sem que houvesse uma maior oferta de produtos para compensar o aumento da demanda, sem que houvesse um ambiente mais competitivo entre as empresas. O resultado foi a elevação da inflação.

Para ele, a forma de intervenção é errada e gera mais incerteza e mais insegurança, em um momento em que o Brasil precisa muito de investimentos em infraestrutura que possam elevar a produtividade. “Nós estamos chegando a uma encruzilhada e o que melhor representa isso é a frase do governador Geraldo Alckmin: ‘Nós ficamos caros antes de ficarmos ricos’. É exatamente isso que aconteceu”, disse.

 

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