Fundos de crédito perdem do CDI com ‘efeito Americanas’ prolongado em 2023

Para 2024, expectativa é de melhora, com a continuidade da recuperação observada no segundo semestre

Bruna Furlani

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Quase 12 meses se passaram, mas o abalo causado pelos problemas de Americanas (AMER3) e Light (LIGT3) no mercado de renda fixa no primeiro semestre ainda se faz sentir nos fundos de investimentos.

Com a elevação dos spreads (juros que um ativo oferece acima da remuneração dos títulos públicos, considerados de baixo risco) e a desvalorização de debêntures e outros papéis, muitos fundos de crédito privado decepcionaram até o apagar das luzes de 2023.

Nem mesmo a retomada dos depósitos e a melhora do mercado no segundo semestre foram capazes de reverter totalmente a situação: 3 das 4 subclasses de fundos de crédito renderam abaixo do CDI (taxa de referência) até dia 26 de dezembro, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

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Confira os retornos médios oferecidos por fundos de renda fixa com crédito na carteira:

Subclasse de Fundos de CréditoRentabilidade no ano*(%)
Renda Fixa Duração Baixa Crédito Livre12,74
Renda Fixa Duração Média Crédito Livre11,68
Renda Fixa Duração Alta Crédito Livre12,98
Renda Fixa Duração Livre Crédito Livre13,40
CDI13,04
Fonte: Anbima.
*Dados acumulados no ano até 26 de dezembro.

A principal explicação é o spread, que aumentou, levando à desvalorização dos papéis já em circulação no mercado, observa João Arthur Almeida, CIO da Suno Wealth.

O mesmo aconteceu com o IDA-Geral, índice que espelha o comportamento das debêntures e que fechou 2023 com retorno de 12,18%, contra 13,04% do CDI.

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A única exceção entre os fundos de crédito foram os “fundos de renda fixa duração livre crédito livre”, que tiveram ganho de 13,40% até dia 26, acima do CDI.

“O fato de ser duração livre permite ao gestor um mandato mais amplo. Num momento de abertura da curva ou do spread, ele pode diminuir o prazo ou correr menos risco de crédito e vice-versa”, diz. “Para quem tem um mandato mais restrito, é mais complicado”.

É o caso do Occam Crédito Corporativo 30, da gestora Occam Brasil, que terminou o ano com ganho de 14,58%, ou 112% do CDI. Com mandato mais livre, o fundo tirou proveito das oportunidades do mercado de debêntures quando os preços baixaram, em função do aumento do risco e do incremento dos spreads, disse a gestora em sua carta mensal.

Fundos de renda fixa em geral sofrem

O desempenho abaixo do CDI não foi exclusividade de fundos com crédito na carteira. Uma análise mais ampla mostra que os fundos de renda fixa em geral sofreram em 2023.

Segundo a Anbima, 13 das 16 subclasses de fundos de renda fixa tiveram retorno abaixo do CDI em 2024, até 26 de dezembro.

Confira os retornos médios das demais subclasses de fundos de renda fixa:

Subclasse de Fundos de Renda FixaRentabilidade média no ano*
Renda Fixa Simples12,26
Renda Fixa Indexados13,09
Renda Fixa Duração Baixa Soberano12,01
Renda Fixa Duração Baixa Grau de Investimento12,69
Renda Fixa Duração Média Soberano12,67
Renda Fixa Duração Média Grau de Investimento12,12
Renda Fixa Duração Alta Soberano13,81
Renda Fixa Duração Alta Grau de Investimento9,93
Renda Fixa Duração Livre Soberano12,23
Renda Fixa Duração Livre Grau de Investimento12,42
Renda Fixa Investimento no Exterior3,93
Renda Fixa Dívida Externa-4,29
CDI13,04
Fonte: Anbima.
*Dados acumulados no ano até 26 de dezembro.

Expectativa positiva para 2024

Para 2024, a expectativa é de melhora, com a continuidade da recuperação observada no segundo semestre.

Ulisses Nehmi, CEO da Sparta, diz que o dinheiro que estava “preso” em ativos como CDBs (Certificados de Depósito Bancários) deverá migrar para produtos de maior risco diante da queda da Selic. A mudança, no entanto, pode não ocorrer de uma vez.

“O investidor não vai direto para ações. Vai enchendo todos os ‘baldinhos’, começando pelo crédito privado, fundo imobiliário e só depois para ações”, diz. “Acho que agora estamos no começo desse ciclo”, afirma.

Os fundamentos melhores também devem impulsionar os retornos dos fundos, com a redução do custo da dívida para empresas e melhora nas métricas de crédito.

“Se o risco de crédito cair, provavelmente o spread vai diminuir. E quem tiver debêntures vai perceber uma valorização mais acelerada”, observa.

Os fundos de crédito atrelados à inflação podem se destacar diante desse movimento. Almeida, da Suno, destaca que os cortes da taxa básica de juros devem favorecer a rentabilidade em relação ao CDI. “É o momento de ter títulos com vencimento longo, porque isso tende a ampliar os efeitos do fechamento da curva de juros e dos spreads“.