Estresse de crédito privado nos EUA é pontual, diz Jerusalmi, da Riza Asset

Renato Jerusalmi, sócio da Riza Asset, explica no Outliers Infomoney o momento do mercado americano de private debt e afasta comparações com a crise do subprime de 2008

Marcelo Moura

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O mercado americano de crédito privado está sob pressão. Pedidos de resgate crescentes, dois defaults relevantes e preocupação sobre os BDCs (veículos de crédito direto a empresas de médio porte nos Estados Unidos) alimentam o temor de uma crise estrutural.

Mas o risco sistêmico, aos moldes do que aconteceu com o subprime em 2008, está fora do horizonte. A avaliação é de Renato Jerusalmi, sócio-fundador da Riza Asset. Ele explicou o momento do mercado global de crédito privado na edição 186 do Outliers InfoMoney, apresentado por Clara Sodré, analista de fundos da XP, e Fabiano Cintra, head de Seleção de Fundos da XP.

Como começou o estresse

O estresse no mercado de private credit começou no fim de 2025. “Em setembro do ano passado, tivemos dois grandes defaults no mercado. O primeiro foi da First Brands Group, fabricante de autopeças muito grande nos Estados Unidos, que tinha um passivo de US$ 11 bilhões. Em seguida teve a Tricolor Auto Group, uma empresa que fazia empréstimo subprime de veículos, com um passivo de US$ 1 bilhão”, conta Jerusalmi.

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Os dois eventos detonaram uma onda de resgates nos BDCs – Business Development Companies, fundos que fazem empréstimos diretos a empresas de médio porte e são regulados pela SEC americana.

“O volume de resgates girava na faixa de 1,5% por trimestre. Subiu para 5% no quarto trimestre de 2025, e então para 8,5% no primeiro trimestre de 2026. Essa conjunção de fatores atraiu mídia negativa sobre esses veículos e sobre esse nicho.”

Para conter a saída de recursos, alguns gestores acionaram os chamados gates – mecanismos de proteção previstos nos regulamentos dos fundos de formato aberto.

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“Vamos supor que o gestor receba 10% de pedidos de resgate no trimestre. Ele chama o gate e fala, vou limitar a 5%, os outros 5% ficam de estoque para o próximo trimestre”, explica Jerusalmi. “Isso é positivo para a indústria do ponto de vista de como são ativos ilíquidos e não trigam vendas forçadas.”

Estresse pontual, não estrutural

Para medir a temperatura de um mercado que naturalmente envolve um grau de opacidade, Jerusalmi acompanha o índice de BDCs da Bloomberg, que reúne os fundos negociados em bolsa e permite monitorar a relação entre preço e patrimônio.

“OS BDCs eram negociados a uma vez patrimônio antes desses dois casos de default em setembro. Ao longo de setembro, esse ratio caiu para 0,9, que significa que o mercado estava estimando 10% de perda do patrimônio desses fundos”, afirma Jerusalmi.

“Ao longo do primeiro trimestre de 2026, chegou a bater 0,8, que foi a mínima histórica. Agora, recentemente, em abril, voltou para 0,88.”

Os fundamentos, por ora, sustentam a leitura de que o estresse é pontual. Os non-accruals – proxy de inadimplência dos fundos, que registram quando uma empresa para de pagar juros – continuam estáveis, perto de 1,3%.

“Houve uma piora no payment in kind (PIK), a capitalização de juros em vez do pagamento em dinheiro, que subiu de 6,5% para 7%, mas é uma magnitude baixa de diferença.”

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Outro fator que ajuda a conter o contágio, afirma o gestor da Riza Asset, é o perfil dos cotistas: “Institucionais, como fundos de pensão, endowments e seguradoras, representam 85% do total. E só 15% são do varejo, normalmente mais risk averse diante de assuntos negativos. Os institucionais entendem um pouco mais o risco e defendem um pouco. Podem, inclusive, entrar comprando.”

A disrupção da IA e o risco nos software

Um dos vetores menos óbvios de pressão sobre o private debt americano vem da inteligência artificial. “Foi muito comum empresas de private equity comprarem empresas de software. O private credit era grande doador de capital para esse tipo de transação. A concentração média na indústria de softwares é de 25% e alguns fundos chegam a 50%, 60%”, diz Jerusalmi.

O problema é que a IA está disruptando a indústria de softwares. “Pensa que um private equity comprou uma empresa a um valuation de 15 vezes a relação preço-lucro. Grande parte do valor da empresa estava na perpetuidade. Quando a inteligência artificial ameaça disruptar esse mercado, a taxa de desconto tem que aumentar muito, porque aumentou o risco.”

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O impacto já é observado na estrutura de capital. “O índice de software do S&P caiu 35% de outubro para cá. Se a valoração da empresa caiu pela metade, o cushion saiu de 5 vezes receita para 1 vez receita. Então, o risco de crédito subiu absurdamente.”

O gestor da Riza Asset apresenta um exemplo concreto. “Várias empresas estão usando o Claude ou o GPT ou o próprio Lovable para criar o seu próprio CRM e vão parar de assinar o serviço da Salesforce, ou de outros fornecedores. Se isso realmente acontecer, vai aumentar o default rate nessa indústria”.

“”O mercado está se antecipando ao risco de disrupção da IA em empresas de tecnologia””

— Renato Jerusalmi, sócio-fundador da Riza Asset

Por que o private credit de 2026 não é o subprime de 2008

O estresse atual guarda alguma semelhança com a crise do subprime, em 2008? Jerusalmi afasta esse risco com três argumentos.

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O segundo motivo é o nível de alavancagem. “A indústria de crédito privado nos Estados Unidos está uma vez alavancada, na relação dívida/patrimônio, enquanto o limite regulatório são 2 vezes. A alavancagem do subprime via securitização era muito mais alta.”

O terceiro argumento contra uma crise estrutural é o perfil do passivo do private credit: majoritariamente institucional, mais sofisticado e com menor propensão ao pânico, em comparação com o antigo subprime.

Jerusalmi descarta uma crise sistêmica, mas admite a possibilidade de um abalo de menor grandeza. “Um eventual default rate de 10% significaria mais ou menos US$ 200 bilhões, ou 0,5% do PIB americano. Poderia trigar uma crise de crédito e uma pequena recessão. Mas não consigo enxergar uma crise sistêmica.”

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