Títulos de dívida

Em caso de calote do governo, o investidor do Tesouro Direto perde tudo?

Rafael Bastos, CFP, planejador financeiro certificado pelo IBCPF, responde a pergunta de leitor do InfoMoney

Pergunta
Gostaria de esclarecer algumas dúvidas referentes a calotes de títulos de dívida. São elas:

1. É evidente que numa hipótese de um calote soberano da dívida pública nacional, os detentores de títulos públicos amargariam prejuízos. Entretanto, de forma mais detalhada, como isso ocorreria na prática? (Perde-se todo o patrimônio? Atingem todos os títulos?)

2. Seguindo o mesmo raciocínio da pergunta anterior, como ocorreriam na prática os prejuízos dos calotes privados aplicados em outros títulos de renda fixa, que não são garantidos pelo FGC (debêntures, cotas de fundos DI, etc)?

3. No caso dos calotes de títulos/investimentos garantidos pelo FGC, durante o período que o investidor leva para ser reembolsado, seu patrimônio é remunerado por alguma taxa?

Leitor: Rafael

Resposta de Rafael BastosCFP, Planejador Financeiro Certificado pelo IBCPF
Rafael, parabéns pela objetividade das suas perguntas. Tentarei responder da forma mais clara possível.

Em relação a sua primeira pergunta, atualmente, mesmo contando com as eventuais ineficiências da equipe econômica do governo brasileiro, a possibilidade de um calote integral da dívida pública, que envolvesse todos os títulos negociados é bastante remota. Em teoria, os títulos públicos são conhecidos como ativos livres de risco (risco de crédito nesse caso), mas na prática, o calote pode ocorrer, como já vimos ocorrer recentemente.

Numa eventual falência do governo brasileiro, os investimentos em títulos da dívida pública não contarão com nenhum amparo garantidor, como o FGC por exemplo, sendo garantidos tão somente pelo próprio Tesouro Nacional, que se estiver quebrado, provavelmente não pagará a sua dívida, ao menos, naquele momento ou na configuração inicialmente contratada.

Existem algumas ferramentas que auxiliam no acompanhamento desse tipo de risco, como o CDS (Credit Default Swaps), que indicam o risco desta inadimplência e o eventual prêmio de risco que deve ser exigido pelo investidor para aportar seus recursos. Para o acompanhamento desta solvência, recomendo a leitura regular do RMD (Relatório Mensal da Dívida Pública Federal).

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Em relação a sua segunda pergunta, irá depender do ativo em questão. Cada ativo possui uma configuração de riscos diferente. Vou me ater os dois exemplos que me trouxe.

Para uma debênture, será necessário que você tenha a informação quanto ao tipo de garantia que ela possui. Se é real, parcial, quirografária ou subordinada. Cada modelo de garantias oferecerá amparos distintos, sendo que na pior hipótese, o investidor figurará com mesma prioridade de pagamento que o bloco de acionistas.

Em geral, quanto melhor a rentabilidade de uma debênture, pior é a sua qualidade de garantias. Para monitorar estes enquadramentos, recomendo que sempre busque as informações da emissão no site da ANBIMA: www.debentures.com.br.

Para fundos de investimento, o risco de crédito está relacionado aos ativos que o fundo investe. No caso de um fundo referenciado ao CDI, que precisa ter 95% da sua carteira atrelada a ativos indexados ao CDI, você precisará olhar a carteira do fundo na CVM e avaliar os ativos que o fundo detém. Para cada ativo, você terá um risco de crédito diferente. A média ponderada desses riscos é que formará o risco de crédito do seu fundo.

E para a sua última pergunta, a resposta é não. Após a intervenção do BACEN, a sua “reserva” ficará sem a rentabilidade inicialmente contratada. Aproveito para indicar que associe nas suas pesquisas o acompanhamento de um profissional para a elaboração e diluição dos riscos de seus investimentos. 

Rafael Bastos, é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF). 

As respostas refletem as opiniões do autor. O IBCPF e o Infomoney não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

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