Foco no médio e longo prazo

Como montar sua primeira carteira de ações

Com R$ 1 mil, investidor já pode começar a investir em Bolsa, mas especialistas recomendam quantia mínima de R$ 5 mil para maior diversificação do portfólio

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SÃO PAULO – Em um ambiente de juros baixos, mesmo ao mais conservador dos investidores tem sido recomendado dedicar ao menos uma pequena parte do patrimônio à renda variável.

Em geral, essa diversificação da carteira começa pelos fundos de ações, com um gestor responsável pelo trabalho de selecionar os ativos, mas há quem tenha o desejo de fazer a escolha por conta própria, com um investimento direto em ações na Bolsa. Daí surge a dúvida: como começar? Há um valor mínimo para montar uma carteira? Qual o número ideal de ações e em qual tipo de empresa investir?

O ingresso no universo de ações passa primeiramente pela questão financeira, depende do bolso de cada um. Segundo especialistas ouvidos pelo InfoMoney, com algumas limitações, já é possível começar uma carteira com R$ 1 mil, mas o ideal seria ter ao menos R$ 5 mil. E a exposição também deve ser gradual, começando com uma faixa entre 5% e 10% do total dos investimentos.

“O tamanho dessa carteira varia. Tem gente que acha que a Bolsa é só para rico e não quer começar com R$ 1 mil. Mas, para esse investidor, tem o mercado fracionário [negociação de fração do lote padrão de ações]”, diz Raphael Figueredo, analista da Eleven Financial. O lote padrão costuma ter cem ações de uma empresa.

Luis Salles, analista-chefe da Guide Investimentos, recomenda começar com o mínimo de R$ 5 mil. Dessa forma, é possível fazer a escolha de papéis pensando em lotes inteiros e com uma diversificação mínima da carteira.

“Considero ter ao menos oito ativos. Dessa forma, o investidor consegue ficar exposto a setores diferentes, incluindo algumas ações que são boas pagadoras de dividendos”, afirma.

Dividendo é a parte do lucro que as empresas distribuem aos seus acionistas. Em geral, companhias mais maduras, que não precisam investir tanto, distribuem mais lucro. Mas, por estarem em um estágio mais avançado de operação, elas também têm menor potencial de crescimento, o que faz com que sejam menos voláteis, oferecendo um papel mais defensivo nas carteiras.

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Entre as ações com essa característica, Salles recomenda as da Engie, da Transmissão Paulista e da Itaúsa (holding dona do banco Itaú Unibanco), que estão no portfólio da corretora.

“Mas é importante ter uma noção do que está comprando e, para isso, é preciso ter alguma noção da parte financeira da empresa e do setor. Se for a ação de uma construtora, saber o que tem efeito sobre esse setor”, diz.

Esse conhecimento, segundo ele, é importante para evitar que o investidor venda as ações em um momento de maior estresse. O objetivo é que ele saiba avaliar se a queda está sendo causada só pela volatilidade do momento ou se ocorreu algo que possa mudar o cenário para essa empresa e, dessa forma, as expectativas de ganho.

Descarte o curto prazo

Esse investidor precisa também ter um horizonte de médio e longo prazo. Analistas veem um período de cinco anos como adequado para se ficar com um papel para que ele complete um ciclo de valorização. Thiago Salomão, analista da Rico Investimentos, lembra que esse horizonte mais longo é uma das razões para a diversificação da carteira.

“Se o investidor adota a estratégia de colocar tudo em um só papel e essa ação cai, isso vai tirá-lo do jogo e ele nunca mais vai querer voltar”, ressalta.

Salomão também defende valores de investimento maiores, acima de R$ 5 mil, para que a diversificação seja realizada, ressaltando que, no mercado fracionário, a liquidez pode ser menor (ou seja, com menos gente comprando e vendendo o ativo). Além disso, o valor do investimento ajuda a diluir os custos de corretagem, ainda que as corretoras ofereçam descontos, corretagem zero ou mesmo pacotes mensais conforme o volume de operações.

Segundo o analista da Rico, o ideal é ter entre oito e nove ações no portfólio, fazendo uma mescla entre as mais defensivas e as de maior potencial de ganho. Entre os papéis mais defensivos, ele recomenda os da B3 e as empresas do setor de energia, como Alupar, Energisa e Equatorial.

No grupo dos ativos com maior potencial de ganho, Salomão recomenda os papéis da Petrobras. Já entre as mais ligadas ao cenário de crescimento doméstico, o analista vê boas oportunidades em Intermédica e Azul.

Diversificação demais atrapalha?

Luiz Guilherme Dias, sócio fundador da consultoria de análise de balanços Sabe Invest, aconselha que o ideal é aumentar os investimentos em Bolsa à medida que o iniciante for se acostumando com os riscos. Para ele, uma carteira inicial pode ter entre três e cinco ações, chegando no máximo a oito ou dez.

“É preciso diversificar, mas sem exageros. E escolher empresas em que gostaria de ser dono. Isso só dá para fazer se dedicando a estudar. Se não for para acompanhar e ser passivo, o melhor então é escolher um fundo de ações”, afirma.

Ele aconselha dedicar entre 1h e 1h30 por semana para estudar o básico do negócio da empresa: ver os resultados e entender o setor em que ela está inserida. Dias acrescenta ainda que essa avaliação deve ser feita tendo em vista o médio e longo prazo, ou seja, o que essa empresa irá fazer nos próximos cinco anos.

Diversificar, mas nem tanto, também é a recomendação de Eduardo Guimarães, especialista em ações da Levante Investimentos. Segundo ele, a teoria econômica mostra que uma carteira com um número elevado de ações tende a ter um resultado mais modesto que um portfólio mais restrito, por isso, o ideal seria não ter muito mais que sete ações na carteira.

“Quem tem muitas ações vai começar a ter um resultado mais próximo dos índices de referência, como o Ibovespa. Em uma gestão ativa, o ideal é ganhar acima do índice”, explica.

Para o iniciante, o especialista em ações da Levante recomenda que parte dessa carteira seja composta por empresas pagadoras de dividendos. Além das empresas do setor de energia, ele recomenda Itaúsa e o setor de saúde, representado pelos papéis da Qualicorp.

Quanto você topa perder?

Outra recomendação para o iniciante é avaliar o quanto se está disposto a perder. Isso não significa, no entanto, que o investidor deva operar com instrumentos de stop, quando a venda é feita de forma automática após atingir determinada queda.

Para Guimarães, o ideal é que a corretora escolhida pelo investidor tenha sistema de alertas quando a variação de preço da ação for muito grande. A partir disso, o investidor avalia se é o caso de vender (porque algum evento mudou a tese de investimentos da empresa) ou se o melhor é continuar porque é apenas um momento de maior volatilidade.

Vitor Miziara, da assessoria Criteria Investimentos, por sua vez, recomenda que, antes de partir para a compra de ações, o investidor avalie o comportamento dos papéis selecionados ao longo de determinado período, para ficar ciente de sua volatilidade e da reação do mercado em momentos de maior estresse.

“O investidor iniciante erra muito ao definir o seu perfil de risco e se assusta quando o mercado cai forte. Por isso, o ideal é começar com 5% ou no máximo 10% do total de seu patrimônio”, avalia.

Para Miziara, em meio à necessidade de migração para a renda fixa, um investidor de perfil moderado deve ter entre 25% e 30% dos seus investimentos em ações. No entanto, para o iniciante, ele recomenda que seja metade disso, chegando até 10% e, conforme for entendendo o mercado, aumente aos poucos essa exposição.

E não basta apenas começar. É preciso também persistir. Para Fernando Araújo, gestor da FCL Capital, é importante criar o hábito de fazer aportes regulares e fixos. “Essa disciplina todos os meses, ao longo de alguns anos, vai fazer a diferença lá na frente”, aconselha.

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