Ranking InfoMoney-Ibmec 2020

Fundos de ações: O que os melhores gestores do Brasil têm em comum?

Real Investor, Brasil Capital e Equitas contam como chegaram ao topo descobrindo as melhores empresas para investir

Investidor acompanha ações
(Shutterstock)
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SÃO PAULO – Qual o segredo para garantir rendimentos expressivos com consistência ao longo dos anos, mantendo-se fiel aos seus valores e às ações escolhidas? Embora o atual movimento de bull market no Brasil esteja contribuindo para o desempenho de grande parte dos fundos de ações – em 2019, 76% desses produtos registraram alta maior que a do Ibovespa –, obter resultados acima da média exige um esforço contínuo e uma estratégia sólida.

Com frutos gerados pelo foco no longo prazo, pelo conhecimento aprofundado das empresas selecionadas, pela equipe alinhada e pela exposição equilibrada a cada papel, três fundos de ações se destacaram nos últimos anos e conquistaram as melhores posições no ranking feito pelo InfoMoney em parceria com a escola de negócios Ibmec.

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Os fundos de ações Real Investor, Brasil Capital e Equitas Selection têm muitos elementos em comum em sua trajetória. Nada de trocar incessantemente de papel na carteira ou de ter uma diversificação exponencial. As três casas têm uma atuação concentrada em ações, com foco na estratégia buy and hold e têm no máximo de 20 a 25 papéis no portfólio.

Escolhidas a dedo, as ações dos portfólios conquistam a confiança das gestoras apenas depois de um conhecimento profundo das companhias, em um trabalho de análise que pode levar longos meses, até anos.

Os fundos estão disponíveis hoje em diversas plataformas – embora o da Brasil Capital esteja fechado para novos aportes – e exigem investimentos mínimos a partir de R$ 5 mil.

Longe do “condado”

O fundo mais novo dos três, criado em 2012, encabeça o ranking. O Real Investor FIA, da gestora de mesmo nome, destoa da maior parte do mercado por ser comandando fora do eixo Rio-São Paulo.

Com sede em Londrina, a Real Investor é liderada por Cesar Paiva, fã confesso do megainvestidor Warren Buffett e que encontrou no livro “The Intelligent Investor”, de Benjamin Graham, a inspiração para o nome da gestora.

A história do fundo começou a partir de um clube de investimento montado por Paiva na crise financeira de 2008, que contava com apenas três cotistas e um patrimônio pouco acima de R$ 10 milhões. O bom desempenho ao longo do tempo levou o clube a crescer de tamanho e, em fevereiro de 2010, Paiva decidiu abrir a gestora.

Dois anos depois, o clube virava efetivamente um fundo de ações. O patrimônio hoje é de R$ 1,3 bilhão e o valor da cota já se multiplicou por mais de 15 vezes, conta o gestor e sócio fundador da Real Investor.

Com 23 pessoas na equipe, das quais 13 são sócias, a casa paranaense tem mais de 18 mil cotistas, número ampliado desde que o fundo entrou em plataformas, ao fim de 2017. Para Paiva, a distância do centro financeiro brasileiro não atrapalha. Pelo contrário.

“Sempre fui fã de Warren Buffett. Ele foi minha grande inspiração quando comecei a investir, lá em 2001. E ele sempre preferiu estar em sua cidade, Omaha. Ficava mais focado, fora dos burburinhos, das dicas de Nova York. Peguei um pouco dessas ideias”, conta. “Não estar no burburinho ajuda a ter convicções diferentes da média do mercado.”

Para selecionar os ativos da carteira, Paiva diz olhar para um grupo de 150 ações com o “mínimo de liquidez”, com foco em um prazo médio de dois a três anos de aplicação.

O fundador da Real Investidor se considera um “value investing raiz”, em referência à filosofia de investimento de Buffett, com uma equipe que leva a sério a disciplina e que investe apenas quando encontra uma boa empresa, com a ação negociada a um preço interessante.

“Sempre estamos investindo como se fôssemos maratonistas”, diz Paiva, para quem o foco final está no “arroz com feijão bem feito”, garantindo bons resultados no longo prazo, não a melhor tacada em um único momento.

E quais papéis mais contribuíram para a trajetória do fundo nos últimos anos? Direcional Engenharia está entre os destaques, ao lado de SLC Agrícola, Unipar Carbocloro e Schulz.

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Hoje as principais posições estão no setor de utilities, com Energias do Brasil e Neoenergia, além de Sanepar. O portfólio ainda é composto por papéis como os da Tupy, do Banco do Brasil e do Banrisul. “Achamos que os dois [bancos] estão baratos demais para ignorar”, assinala Paiva.

Embora avalie que o mercado de ações não está barato, Paiva diz estar confortável com a relação entre preço e lucro da Bolsa atualmente, de olho na volta do crescimento do Brasil e dos lucros das empresas.

Além do fundo de ações, seu carro-chefe, a Real Investor tem um multimercado, em que a principal estratégia é a de operações long & short, e lançou um fundo de previdência para replicar parte do produto de renda variável. A ideia agora é ter outro produto de previdência, porém voltado a investidores qualificados. A gestora estuda também ser “mais ativa” em investimentos no exterior.

Em busca de sócios para casar

Com o fundo mais antigo do ranking, iniciado em 2008, a Brasil Capital tem na constância de resultados um dos grandes trunfos da estratégia. Tanto que, além de conquistar a segunda posição na categoria dos melhores fundos de ações do ranking InfoMoney-Ibmec, o Brasil Capital FIC FIA marcou presença no grupo dos melhores fundos de renda variável da década.

Com 16 pessoas na equipe, das quais dez são sócias, a gestora leva a sério o foco no longo prazo e, por isso, estuda minuciosamente toda a cadeia produtiva de uma empresa antes de tomar uma decisão de investimento. O formato de decisão colegiada foi adotado praticamente desde o começo do fundo e atua como uma fortaleza na gestora, aponta Ary Zanetta, sócio e gestor da Brasil Capital.

“Desde o início, mais de dois terços do retorno bruto do fundo partiu de posições em que estávamos investidos há mais de três anos”, diz. “Acreditamos muito na geração de valor que a empresa traz com o tempo. O desejo é encontrar um negócio para sermos sócios para o resto da vida.”

Há quase nove anos trabalhando juntos, Zanetta, Andre Ribeiro e Bruno Baptistella são os três gestores da Brasil Capital, que conta com uma equipe de outros seis profissionais para analisar as empresas escolhidas.

As ações de Petrobras, Rumo e Cosan respondem hoje pelas três maiores posições do fundo, seguidas pelos papéis da Aliansce. Assim como no fundo da Real Investor, o portfólio costuma ter entre 15 e 20 empresas, com peso máximo de 20% por ação. Os oito papéis com as maiores posições respondem por mais de 60% do patrimônio, hoje em torno de R$ 7 bilhões.

Para estar na carteira, Zanetta explica que mais da metade da receita da companhia precisa partir do Brasil – a preferência recai sobre empresas menos cíclicas. Cosan e Itaúsa são as ações mais antigas da carteira, que tem uma rotatividade média de 25% do patrimônio ao ano.

Há também uma pequena exposição, abaixo de 10%, em empresas com teses mais “fora da caixa”, como XP, Mercado Livre e Centauro.

Assim como Paiva, mesmo após a forte alta do último ano, o gestor acredita que a Bolsa ainda apresenta boas oportunidades.

“Ainda estamos em um momento muito favorável para a economia e a Bolsa. Empresas que fizeram a lição de casa vão conseguir ter crescimento de lucro muito forte nos próximos três anos, e ainda tem muita ação que não reflete essa expansão”, afirma Zanetta.

100 mil novos cotistas em 2 anos

Embora desde o início vinculada ao universo corporativo, a história da Equitas nem sempre esteve focada na seleção de ações. Fundada originalmente como uma consultoria voltada a fusões e aquisições de empresas médias, a Equitas aproveitou o contato que mantinha com as companhias para virar uma gestora de fundos, de olho no crescimento da Bolsa.

No começo, contudo, o trabalho se voltou a um fundo do tipo long & short de baixa volatilidade. Com o tempo, em meio à percepção de descasamento entre o propósito do produto e o racional de investidores, a gestora ficou apenas com o Equitas Selection, seu fundo de ações.

Com nove pessoas na gestão, das quais cinco sócias, o fundo completa sua primeira década em 2020 e tem à frente da gestão Luis Felipe Amaral. Paulo Eduardo Lopes, Brunno Donadio, Sérgio Omati e, o mais recém-chegado, Vinicius Canheu completam o time de sócios e analistas seniores.

Com patrimônio de R$ 6,2 bilhões, a casa também repete alguns aspectos da “fórmula de sucesso” das outras gestoras mencionadas: baixo giro, foco no longo prazo e dedicação a ações.

A entrada no universo das plataformas abertas, a partir de maio de 2018, teve impacto significativo sobre o dia a dia da Equitas. O número de cotistas passou de menos de mil para mais de 100 mil e o valor médio de aplicação caiu substancialmente, de R$ 15 milhões a R$ 20 milhões para uma faixa entre R$ 20 mil e R$ 30 mil.

“Muita gente está começando agora, mas com decisão de longo prazo. Mudamos a maneira de nos comunicar”, diz Amaral.

Com 20 a 25 papéis no portfólio, o tempo médio de permanência nas ações é de 40 meses e a alocação tende a ficar entre 6% e 12% por ativo. “Nunca teve um papel premiado”, afirma o gestor, que refuta a ideia de ter uma única ação responsável por alavancar o desempenho do fundo.

Eztec é o papel mais antigo da carteira, presente desde a criação e com maior contribuição nos últimos 36 meses, seguido por CVC e B3. Hoje o portfólio conta ainda com nomes como Iguatemi, Azul, Petrobras, Intermédica, Localiza, Lojas Renner e Natura.

Além da previsão de lançar fundos de previdência neste semestre, a Equitas está de olho em estratégias em infraestrutura e, principalmente, no setor imobiliário, com possibilidade de criar um fundo imobiliário.

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