Carta da gestora

Com retorno motivado por ações e juros em mercados desenvolvidos em janeiro, Verde vê “terraplanismo econômico” e “desvario completo” no Brasil

Em tom duro, economista-chefe da casa disse que caminho traçado pelo governo atual será “tão desastroso na economia quanto o implementado no governo do PT”

Por  Bruna Furlani -

Depois de amargar um retorno negativo de 1,13% em 2021, o fundo Verde terminou o mês de janeiro com uma rentabilidade de 1,49%, acima da média de 1,26% de rendimento dos multimercados de gestão ativa no Brasil no mês passado, medida pelo Índice de Hedge Funds Anbima (IHFA). O percentual também é superior aos 0,73% do CDI, referência de retorno para a classe.

Em carta divulgada a clientes, a gestora homônima comandada por Luis Stuhlberger destacou que o bom desempenho do Verde FIC FIM em janeiro foi impulsionado por posições tomadas (que apostam na alta) em juros nos mercados desenvolvidos, além de ações e inflação implícita no Brasil.

Por outro lado, diz, o fundo registrou perdas marginais que vieram de posições em ações globais e em juro real brasileiro.

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Na avaliação da gestora, ativos brasileiros tiveram uma boa performance em janeiro beneficiados por altas nos preços de commodities e por fluxos de investidores estrangeiros. Apesar disso, a Verde demonstrou preocupação com medidas populistas que têm sido sinalizadas pelo governo.

Em uma ampla explanação sobre o que chamou de “terraplanismo econômico”, Daniel Leichsenring, economista-chefe da gestora, foi enfático ao dizer que o caminho traçado pelo governo atual será “tão desastroso na economia quanto o implementado no governo do PT (no passado e no projeto)”.

Na avaliação de Leichsenring, as medidas de agora poderão ter “consequências dramáticas sobre a renda real, a pobreza, as oportunidades e a esperança de termos um futuro melhor”. Por outro lado, ele destaca que “ainda há tempo para barrar essa proposta e de encontrar uma alternativa política viável para o Brasil”.

Ao citar alguns exemplos recentes, o economista-chefe afirmou que a proposta de eliminar os impostos sobre os combustíveis, que vem sendo discutida pelo governo e pelo Congresso, é um “desvario completo”. E emendou: “Não resiste a um minuto de considerações sobre sua qualidade ou conveniência”.

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Para o executivo da casa, a medida representa um grande problema para o País diante do fato de que a PEC dos Precatórios acabou com “ajuste fiscal por meio do controle do aumento de gastos”.

Nesse caso, destaca, se o ajuste fiscal não pode mais ser feito via gasto, só pode ser feito via arrecadação. “E eis que surge essa proposta incompreensível de baixar os impostos em mais de 1% do PIB, sob a chocante justificativa do Ministério da Economia de que há excesso de arrecadação”, observa o economista-chefe.

Em um cenário em que as contas públicas seguem bastante pressionadas, Leichsenring afirma que a proposta poderia elevar o déficit a pelo menos R$ 800 bilhões e fazer com que a dívida pública passasse de 80,3% do PIB em 2021 para 85% do PIB em 2022. “Claro que diante dessa dinâmica, a taxa de juros acabará aumentando, numa bola de neve”, alertou.

O executivo também observou que a redução de impostos não beneficiaria os mais pobres: “De cara, pensando na queda apenas do PIS/COFINS, quase 45% dos impostos reduzidos seriam recebidos pelos mais ricos, numa afronta a qualquer decisão racional de destinação de impostos”, disse. “No diesel, serviria claramente para acalmar a base eleitoral do presidente, que dificilmente poderia ser considerada pobre”, completou.

O economista-chefe ainda se disse surpreso de que com a volta do juro alto e o retorno do investidor estrangeiro à Bolsa brasileira, a reação natural do mercado a “propostas desse tipo de calibre não esteja ocorrendo”. “O termômetro quebrou. Com dólar caindo e Bolsa subindo no ano, não há amarras para atitudes ainda mais populistas”, afirmou.

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